Life on a bike

Life on a bike is, in the end, nothing more nothing less than LIFE! But not any kind of life: not a life spent on the way to death – a life living the Present as it is “a present given”!
“O ciclismo é metáfora de vida!” Não é comparação: é a própria vida em si vivida ao expoente como o sublime da arte que nos arrebata e transforma!

Viver o e no ciclismo, enquanto mulher, enquanto mulher adulta, casada, natural de Portugal e a competir pelo Mundo, é ter em mim uma complexidade de ambições, de experiências, de sonhos e, também, de limitações!

O ciclismo ainda não é das mulheres – muito menos de uma mulher que o faz já na maturidade e com uma vida partilhada com o cônjuge (porque em Portugal, como em outros pontos do globo que não vou mencionar para não ferir suscetibilidades, a “fêmea em idade fértil” ainda se deve ocupar de cuidar do macho, do lar e das crias. E não digam que assim não é porque não são as exceções que vão demolir a regra. As mulheres emanciparam-se, conquistaram certos direitos – alguns até só por lei para a sociedade e entidades patronais, sobretudo, lhos concederem – mas tudo isto só ocorre dentro de certos limites: serás autónoma mas não mais do que ele; terás os mesmos estudos mas não ocuparás a posição dele; poderás ter o mesmo trabalho mas não receberás o mesmo nem chegarás ao análogo ponto da carreira).

Assim, querer viver o Ciclismo é querer viver um sonho e estar conscientemente desperta para tal. Querer viver o Ciclismo é estar num sono à alerta e ter medo de entrar num pesadelo. Viver o Ciclismo é sonhar a dois com um ser humano que não é “homem” e me quer ver verdadeiramente Mulher Ciclista.

Ser Mulher Ciclista é estar no Ciclismo “na saúde e sem doença (que a mais pequena soltura leva consigo meses de preparação física), na alegria e na tristeza (que o caminho, se fosse fácil, seria percorrido por muitas mais mulheres), todos os dias na nossa vida até que a morte nos separe”: não há dias de descanso, não há feriados nem férias porque trata-se de uma missão de 24h por dia, 7 dias por semana, 52 semanas por ano.

Não é um trabalho: é mesmo uma missão! É algo que se tem de cumprir. Quando não é um emprego, torna-se ainda mais difícil viver no e o ciclismo. Já não basta sonhar a dois com aquele tipo de homem: é preciso acreditar (acreditar com raciocínio); definir um plano (pronto a ser alterado e atualizado a qualquer instante); usar a língua e a linguagem para contagiar (porque o sonho é nosso e quanto mais partilhado mais forte); fazer o bom exercício da oikonomia e da gestão dos recursos humanos, materiais e financeiros (maximizando-os a todos, valorizando as parcerias e as relações sustentáveis e fidelizadas, usando doses e doses de criatividade em todas as áreas – desde a vida comum à desportiva). Não é um trabalho e, por essa falta de remuneração certa ao fim do mês como compensação da atividade física e intelectual prestada, o ciclismo como eu o tenho vivido é polémico, exigente, aflitivo e árduo; e é, pela luta desleal, simultaneamente altruísta, vitorioso e justiceiro!

Dirão que a vida é tudo isto e ainda mais. Mas vejam que não! A vida, por bela e desafiadora que se vos pareça, só quando nos coloca nos limites da nossa existência é digna desse nome e é nessas fronteiras que me encontram todos os dias fazendo o ciclismo no feminino acontecer.

Ilda Pereira (http://ildapereira.com), 36 anos, licenciada em Ensino de Português e Inglês, na Universidade do Minho, e em Artes, na Escola Superior Artística de Guimarães. Foi oficial da Força Aérea e é corredora internacional de ciclismo desde 2010.