Em nome do Pai.

Por Mafalda Sousela

Em dezembro passado não escapei à tendência habitual de encerrar o ano com algumas considerações sobre o que se passou e com outras sobre o que penso que aí possa vir. É, para alguns, a altura ideal para refletir, glorificar os feitos positivos, esquivar o negativo e prometer  um futuro melhor. Ou no mínimo, nunca pior.

Refletir sobre o passado é uma função pela qual nos devemos gratificar. Poder recorrer às memórias evocáveis para orientar uma escolha ou dar sentido à existência pode ser um privilégio. Isso definiu-nos como espécie e projetou-nos como tal até aqui, a este sítio onde estamos agora, nas circunstâncias atuais. Aqui, Mundo. Aqui, Portugal. Aqui, Guimarães.

Sempre pensei Guimarães como uma pequena cidade que nasceu em berço de ouro, com pai e mãe bem definidos, cada um assumindo o seu papel, no seu devido lugar. O pai é um rei poderoso. Tão alto e robusto, que sua espada, feita por encomenda, só ele a poderia manejar, comprida e pesada que era. Um conquistador, um herói. Com a dita na mão e escudo na outra, de máscara icónica, está, no momento, bem evidenciado no alto da Colina Sagrada, a guardar o Património, a olhar por nós e pelo centro histórico também. Temos a mãe, condessa poderosa e rica, mais diplomata e negociadora. Uma capitalista. Não está munida de espada mas ostenta no alto de um pedestal, calçado com certo cuidado, uma cruz e um pergaminho com seus planos da edificação da cidade. É a mãe que nos deu à luz, que nos fundou e nos levou nas férias às praias de Vila do Conde e Póvoa de Varzim, cidades que também registou nos autos. Está, como o pai, bem colocada na cidade.

Nicolau é padrinho e tem também o seu destaque nesta árvore genealógica. A 29 de novembro os seus afilhados, perfilhados e convidados saem à rua de noite para rufar. Beber e rufar, desfilando pelo condado uma árvore com atributo fálico, que é depois plantada às portas da velha cidade. Desfila a árvore e as ambulâncias, para lá e pra cá, carregando elementos comatosos às mãos da Senhora da Oliveira, que bem os guarda e que não cobra taxa suplementar, como proferem alguns maledicentes. São os efeitos do álcool. Ou melhor, de quem o bebe desmedidamente, pela diversão de passear no “tinoni”. É uma festa eclética e democrática, mas só nessa noite, porque Guimarães, tal como sua mãe ensinou, sabe bem receber os visitantes, nem que tenha de se abnegar um pouquinho a tradição e comprometer a candidatura a Património Imaterial da Humanidade. A mãe prefere as candidaturas a capitais, menos imateriais, por assim dizer. Então, como escrevia, é uma noite eclética e democrática, enquadrada numas festas de 9 dias que, de resto, obedecem muito ao rigor da tradição. Como exemplo, só os homens estudantes bem relacionados as podem organizar e nela participar, deixando as raparigas subir às varandas por uma tarde para receber maçãs no espeto. Muito agradecidas. Alguns eventos, como as Danças de São Nicolau são um ex-líbris, mas acessível a poucos, protagonizadas pelos homens nascidos da elite nicolina e assistidas com fervor por filhos e filhas da cidade, criteriosamente selecionados por relação com tal elite. Ainda assim, é sempre anunciada no calendário das festas.

Guimarães tem orgulho na sua ascendência, e foi crescendo com pendor narcísico, de forma tendencialmente centrípeta. Aqui nasceu Portugal. E o Vitória também. 1922 é data gravada em todo o lado, eternizada em emails, tatuagens, peças de vestuário, porta-chaves, capas de telemóvel, canecas, enfim. Os vimaranenses são únicos e só alguns entenderão. O Vitória não é só uma equipa de futebol, não é só um negócio, nem uma religião, é mais do que isso. É amor. O Vitória é a/o namorada/o de Guimarães, prometido à nascença. Por ele o vimaranense corre mundo, perde a cabeça, tem vontade de gritar que o ama. É por quem chora nas conquistas e nas derrotas, até morrer. Mas não descuremos os amores de verão. Por entre a praia e o calor do vale vimaranense surge a Gualteriana, que todos adoram ver, mas com quem não se podem comprometer.

Resumido o genograma e affaires, resta descrever o sonho vimaranense, que é o de casar e ter casa na Costa, com vistas para a Penha. A família com filhos sabe que estes vão frequentar a escola da moda e a catequese na paróquia mais popular. Vão ser bem relacionados, com amigos escolhidos de preferência conforme historial e sobrenome de sua família. Antes dos jovens alcançarem personalidade própria, são filhos e netos de. Seus pais têm de lhes garantir quota vitoriana à nascença. Muitos são mesmo carimbados com nome a condizer, que o digam os Afonsos e as Vitórias. O seu sonho é o de serem reconhecidos um dia das mesas de café e salões de cabeleireiro para a Bigger Magazine. Guimarães é mais que uma cidade, é um verdadeiro fenómeno social!

Mantendo o propósito inicial e realizadas as considerações identitárias, percebo que os vimaranenses circulam eternamente em loop, refletindo sobre os mesmos assuntos e vivendo os mesmos eventos, de forma repetida, ano após ano. As tentativas de mudança são sempre recebidas como atentados. Questões repetidas ocupam as conversas usuais e as páginas dos jornais. Estes podem até guardar os rascunhos e alterar apenas as datas e um ou outro pormenor. As notícias sobre a cidade são as mesmas, as problemáticas perduram, com pequenas nuances. O vitória este ano vai à Liga Europa? Quando joga com o Porto, o Braga ou o Boavista? Em que dia da semana calha o Pinheiro? Este ano é um túnel ou um viaduto na rotunda de Silvares? Quem será o responsável pelas luzes de natal?

Por falar em luzes de Natal, onde “Nasceu Portugal” foi subvertido a onde “Nasceu o Natal”. Ou onde “Nasceu a Epilepsia”. Talvez fruto do espírito competitivo, a cada ano que passa há aumento da intensidade decorativa nas ruas da cidade. Em 2019 foi claramente ultrapassado o limite decorativo e simbólico e foi instalada uma experiência sensorial categórica, através de jogo de luzes tipo strober, que convidam qualquer um a uma viagem alucinogénia pelos meandros da cidade, que só uma tempestade Elsa consegue alagar, ao estilo Titanic. De estranhar a falta de aviso aos transeuntes, de impropriedade aos mais sensíveis e debilitados. Ao menos conseguiu-se a cidade livrar das peças amputadas a cadeiras de rodas que foram reutilizadas para construir uma colorida figura pop, em pleno Toural, que por sua vez, e perante necessidade de afirmação, virou também galeria de arte. Ficou por perceber se a peça simbolizava a arte do seu autor ou o autor da sua arte.

Concluindo, é claro o sinal de que Guimarães padece de ideias de grandiosidade incutidas pela sua gente e que deriva em seu próprio mar (que curiosamente, será o que lhe falta), talvez à espera de algo que lhe dê outro rumo e sentido, algo que a faça olhar para além da Penha. Mas que não chega. Simplesmente não chega. Entretanto, cantando que aspira seu progresso e sua vida, caminhando avante vai permanecendo um eremitério provinciano, ao longo dos tempos, sem que disso se dê conta. Consagremos isso.