Eu também

Zulmira olha-se ao espelho. Envelheceu. Demora-se admirando uma a uma as rugas que se lhe instalaram na pele. Olha para as mãos. Tem os dedos ligeiramente tortos da artrose. A pele, que um dia fora branca e macia, é levemente amarelada e está cheia de rugas. Tenta tirar os anéis: o solitário de comprometida, a aliança de casamento e a aliança de 25 anos de casamento. Não consegue. Não faz mal, um dia sairão.

Ajeita a camisa e arranja a pregadeira com a fotografia do marido. Hoje celebra 43 anos de casada. Zulmira não vai festejar mais esta data. Chega. Secretamente, festejará dali em adiante a data em que o advogado foi lá a casa e a tornou responsável pela administração de todas as contas da família e por levantar a reforma do marido. Isso sim, foi o seu grito do Ipiranga. No dia em que foi obrigada a receber o marido de volta em casa para cuidar dele, a raiva e o medo que tudo voltasse a acontecer inundaram-na de tal forma que nem pensou direito. Muito a ajudou o Sr. Padre, que lhe disse que teria de ser misericordiosa, que o casamento é para sempre e que tem altos e baixos, e que Zulmira deveria continuar a cuidar e a ser devota do marido, não esquecendo, porém, que agora ela é quem manda. Quem manda.

Zulmira muito matutou com aquelas palavras. Será? Que ideia estranha! Filha de uma família tradicional onde era o pai quem mandava, as regras apertadas e os sonhos para uma jovem não iam muito mais além do que uma igreja e um vestido branco. Zulmira não sabia bem o que o Padre quis dizer com era ela quem mandava.

Zulmira agitava o spray de laca quando ouviu o marido a chamar por ela. Suspira enquanto arranja os caracóis e murmura: “não foi isto o que nós combinamos”.

“Tenho fome”, ouve-se do quarto do marido. Zulmira abre a porta do quarto e diz-lhe: “É sábado. Sabes bem o que combinamos. É dia de jejuar e de não tomar comprimidos. É pelo sofrimento que expiamos os nossos pecados.” O marido começa a chorar, mas Zulmira já não se impressiona. Ele também nunca parou de lhe bater por ela começar a chorar. Pelo contrário, às vezes, se lhe via uma lágrima, ainda era desculpa para lhe bater mais.

Tudo isto também foi difícil para Zulmira. Afinal antes da doença, o marido passava quase metade do tempo na casa da amante. Quando acamou, lembrou-se que tinha uma mulher e família e foi no seio da família que quis ficar. Zulmira não quis recebê-lo, mas os filhos imploraram-lhe que cuidasse do pai. Nas primeiras semanas foi terrível, o marido gemia de dores, maltratava-a. Chamava-lhe nomes e atirava a comida ao chão quando não estava do seu agrado, obrigando-a a voltar para a cozinha e a limpar o quarto. Aos poucos percebeu o que o Padre lhe dissera: era ela quem mandava.

E tudo mudou. Acabaram-se os insultos, acabaram-se os pratos no chão, horas intermináveis na cozinha. Agora Zulmira descobriu que há esparguete com almôndegas pré-preparada a que só basta chegar água para fazer uma refeição. É o prato que o marido mais odeia, mas a paciência e a resignação são virtudes muito católicas, como a sua mãe lhe explicava sempre que Zulmira se queixava dos maus tratos do marido. Dois dias por semana, deixava-o comer sopa. Mas o que lhe deu mais prazer foi proibi-lo de ver futebol. Agora só lhe ligava a televisão na hora da novela – para compensar todos os anos que Zulmira não pode ver a novela descansada.

Zulmira vestiu o casaco e pegou na bolsa, dando uma última olhadela ao espelho.“Mirinha, hoje fazemos anos de casados…. Podias fazer um assado como costumavas fazer.”

Volta a abrir a porta do quarto. “Eu vou comer um assado no Manel. O coro da igreja vai almoçar lá para planear a excursão à Nossa Senhora de Lurdes. Vou à missa e vou rezar por ti. Se fosse a ti aproveitava este tempo e rezava também.”

Zulmira sai de casa à pressa, já está atrasada para rezar o terço antes da missa. Às vezes pensa que a vingança é pecado, mas depois pensa melhor. No fundo, ela continua devota ao marido. Trata dele, não o deixa morrer à fome, dá-lhe banho, cama e roupa lavada. Reza todos os dias por ele, ou melhor, pela alma dele. Não, não se trata de vingança, é mais reeducação. Zulmira também teve de aprender a viver sobre o jugo do marido. Agora que ele tanto precisa dela, não lhe custa nada aprender com as suas regras. Afinal, o casamento é assim. Há altos e baixos. Para os dois lados.

Luísa Alvão, 32 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha em cinema, como produtora no FEST – Festival Novos Realizadores | Novo Cinema, em Espinho, e como programadora do Shortcutz Guimarães.