Comunidade Yazidi entre nós

Tenho vindo a acompanhar, como a maioria dos portugueses, a tragédia que atinge os refugiados, sobretudo os provenientes do norte de África e do Médio Oriente.

Quando, de uma forma insensata, as potências ocidentais quiseram impor sistemas de governação que não se coadunam com a ancestral vivência daqueles povos, o resultado só podia ser aquele a que estamos a assistir. Sabemos que o fim do modelo ditatorial, invocado para justificar a intervenção militar, tinha por objetivo outros interesses que não a defesa e imposição dos valores da democracia ocidental.

A ignorância histórica e civilizacional de quem tal ignomínia cometeu, assolada pelos perversos interesses que dali podiam advir, trouxe-nos até esta desgraça coletiva. Destroçou a vida de populações inteiras das regiões atingidas e, em simultâneo, pela sua proximidade geográfica e pela atratividade que possui, a Europa corre um sério risco de uma instabilidade social que pode trazer-lhe graves danos. Os sinais de turbulência, já bem evidentes, deixam percecionar o que pode vir a acontecer.

As democracias liberais, tal como as conhecemos, estão a ser acossadas por uma onda de populismo que vai fazendo o seu caminho e que não augura nada de bom. Os estilhaços desta guerra contemporânea, que não tem frente de batalha, chegam a todo o lado e servem na perfeição todos quantos criticam o acolhimento aos refugiados. Todavia, há data, não levantaram a voz quando os ocidentais levaram a guerra aos países cujos habitantes agora têm de fugir dela.

Culpar de tudo o que está a acontecer todos quantos procuram a paz e não a guerra é demasiado simplista e esconde pretensões algo dúbias.

Neste turbilhão de acontecimentos de violência extrema foi apanhada uma pequena comunidade religiosa daquela zona do globo, a comunidade Yazidi que, ao longo da sua história, sempre foi vítima de perseguições. Desde o Império Otomano, passando pelo regime de Sadam e agora do Daesh, cuja violência e barbárie todos conhecemos, só viveram a paz nos intervalos do terror.

Os Yazidis tem características muito específicas que convém abordarmos ainda que pela rama. São originários do Curdistão, da Turquia, da Síria, da Arménia e da Geórgia. É uma comunidade que atingirá os quinhentos mil membros, distribuídos pelos países acima referidos, tendo ainda na Alemanha um núcleo de umas dezenas de milhar, embora estes números sejam desmentidos por outras estimativas numericamente mais favoráveis.

A sua estrutura social é fortemente hierarquizada, com uma liderança que pode ser laica ou religiosa, não se regendo nem pela Bíblia nem pelo Corão. O seu culto é heterodoxo, carregado de crenças espirituais e de uma complexa religiosidade sustentada pela tradição oral.

Para sermos fiéis ao que vamos lendo quanto ao sofrimento deste povo, falamos com um dos seus membros, que veio até nós, que nos descreveu os horrores por que passou, tal como a sua família, dizimada durante uma viagem de perigos constantes, a que muitos não resistiram.

Perseguidos, instalaram-se em Kirkuk, fugindo de Sadam, cuja cidade abandonaram agora para não serem massacrados pelo Daesh. Em pequenos grupos conseguiram chegar a Tessalónica no norte da Grécia, viajando depois para Atenas já integrados num programa Europeu para os refugiados. Finalmente, vieram até nós, depois de inúmeros sacrifícios e perda de vidas humanas, cujo horror me dispenso de relatar por tanto sofrimento ter causado ao meu interlocutor.

Ouvi, acidentalmente, comentários não muito abonatórios do acolhimento propiciado a este povo. O argumentário invocado era simplista e revelava ignorância quanto ao modo como a União Europeia ajuda nesta atitude humanitária que Portugal abraçou.

Sabemos que há cidadãos nacionais com dificuldades. Por isso, convém manter e monitorizar os apoios sociais concedidos, para que falatórios de cunho populista não desvirtuem atitudes comportamentais que uma civilização que se orgulha da sua democracia não pode, de todo, descurar.

A dimensão humanista de uma nação, de mais de nove séculos de história, também passa por aqui.

 

António Magalhães, 72 anos, é presidente da Assembleia Municipal de Guimarães desde 2013. Liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).