Em defesa da oferta de bilhetes

Há duas jornadas, o Vitória abriu a sua bancada Norte para as mulheres. Esta jornada, os sócios do clube podiam levantar um ingresso gratuito e oferecê-lo ao pai ou ao filho. Estas iniciativas são muitas vezes alvo de críticas por parte dos sócios do clube, mas eu continuo a valorizá-las. Porquê? Vou começar por vos contar a minha história com o Vitória…

Eu costumava odiar futebol (os meus pais nunca ligaram a futebol e as constantes associações do Vitória com violência nos media não ajudavam a tornar a coisa atraente) até ao momento que entrei pela primeira vez no D. Afonso Henriques e fiquei completamente fascinada. O Vitória estava a lutar para não descer de divisão, a direção resolveu abrir as portas da bancada Norte para os estudantes e eu, que não tinha mais nada que fazer naquele sábado à tarde, resolvi aceitar o convite de ir ver o jogo.

O Vitória recebia o Penafiel depois de cinco jogos sem ganhar (três empates e duas derrotas seguidas) e o estádio estava cheio de pessoas para apoiar aquela equipa que estava na zona de despromoção. Estávamos prestes a descer de divisão e aquela gente não se calou um segundo. As palavras de incentivo, os gritos de guerra, as músicas de apoio foram entoadas durante os 90 minutos daquele jogo (se a equipa jogava assim tão mal, a ponto de estar a ser despromovida, como é que aquelas pessoas continuavam ali a apoiá-la sem limites? Foi algo difícil de compreender. Pode parecer um cliché, mas a verdade é que não se explica, sente-se).

Eu não percebia nada de futebol (até achei os golos demasiado óbvios pois consegui aperceber-me que eles iriam acontecer muito antes da bola estar na baliza – saudades desta inocência!), mas vibrei com cada golo como se tivesse recebido um 20 num teste ou tivesse acabado de comprar o mais recente livro do Harry Potter (sim, eu sou uma nerd/geek que gosta de futebol).

A minha envolvência no jogo foi algo que me surpreendeu até a mim. Foram 90 minutos de êxtase, uma montanha russa de emoções e, de certa forma terapêutico. Ainda hoje continuo a dizer que nunca precisarei de ir ao psicólogo porque não há nada melhor para me libertar de todas as frustrações da semana do que um bom/mau jogo de futebol.

O Vitória ganhou 3-1 e os adeptos saíram felizes do estádio. Aquela acabaria por ser a única vitória do clube na fase final do campeonato… Numa época em que o plantel do Vitória incluía jogadores de alto nível como Benachour e Saganowski e era dirigida por um treinador que foi campeão pelo Boavista (Jaime Pacheco esteve no comando do Vitória até à 13.º jornada), era muito estranho que o Vitória estivesse na zona de despromoção a quatro jornadas do fim do campeonato, mas essa era a realidade.

A despromoção acabaria por se confirmar na última jornada com nova derrota em casa com o Estrela da Amadora. Eu sou uma eterna crente. Havia uma ínfima possibilidade de o Vitória manter-se na primeira divisão e eu fui para o estádio com a certeza de que iríamos conseguir. Aquele era o meu terceiro jogo do Vitória, eu não percebia as regras do jogo, mas eu percebia a tristeza e a desilusão daquela gente no final do jogo porque eu estava a sentir o mesmo.

Isto do futebol é mesmo uma coisa estranha. Como é que eu podia estar tão triste com a descida de divisão – eu nem sequer sabia quais eram as divisões e o quê que isso significava – do clube de futebol da minha terra (eu raramente via jogos de futebol e os relatos na rádio conseguiam irritar-me)? Mas a realidade é no final do jogo eu estava tão triste como quando o Voldemort matou o Cedric.

Naquele jogo, mesmo sem fazer a mínima ideia do que era um fora de jogo ou até mesmo quando era canto, eu já não me senti como uma mera espectadora que estava a assistir a um espetáculo, eu senti-me parte dele, senti-me parte daquela família, senti que pertencia ali.

Numa década, o Vitória passou do clube de futebol da minha terra para um dos elementos centrais da minha vida. Passei aquele verão a ler sobre futebol, a ver vídeos de jogos antigos e aos poucos e poucos comecei a perceber o jogo e tudo o que se passava dentro das quatro linhas.

Há duas semanas houve, com certeza, várias mulheres que tiveram, devido à oferta do Vitória, a sua primeira experiência no Estádio D. Afonso Henriques: e que experiência! Um jogo cheio de golos, drama, cartões, revolta, insultos, reviravoltas no resultado e, acima de tudo, muito apoio. Ontem foi intenso com o jogo a correr bem melhor para o clube preto e branco. Por que é que eu continuo a valorizar a oferta de bilhetes? Porque, muito provavelmente, se o Vitória não tivesse aberto a bancada para estudantes naquele dia, eu nunca teria pago para ver um jogo de futebol e continuaria sem experienciar uma das coisas que mais me faz feliz: os jogos do meu Vitória.

Há 10 anos o Vitória ofereceu-me 3 bilhetes. 10 anos depois: eu sou sócia do Vitória e influenciei, pelo menos diretamente, 7 pessoas a tornarem-se sócias – todas elas com cadeira anual, que vão com frequência a jogos fora e que compram constantemente merchandising. Continuam a achar que aqueles 3 bilhetes foram maus investimentos?

Não pode ser uma prática constante e tem de fazer parte de uma estratégia de marketing bem delineada, mas não vejo necessidade de ser continuamente criticada.

Apesar de no início eu não perceber nada de futebol, eu nunca me senti excluída, muito pelo contrário. O Vitória é uma grande família onde as pessoas se respeitam e as mulheres são, cada vez mais, uma larga percentagem dela. Se alguém gozar com o facto de não saberem este ou aquele detalhe sobre futebol, não liguem. Continuem a aproveitar o jogo e a viver cada segundo dele.

 

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.