As palavras de Dijsselbloem

Ainda chegará o dia em que me apetecerá refletir convosco a União Europeia, o seu fundamento e a “coisa” em que se está a tornar agora. Ou o poder de um grupo que nem existência estatutária legal tem, como é o caso do Eurogrupo. Mas não será hoje.

Como mulher, não poderia deixar passar em branco as palavras de Dijsselbloem, um apoiante fervoroso da solidariedade com responsabilidade. E então diz o Sr.: “Na crise do euro, os países do Norte mostraram solidariedade para com os países do Sul. Como social-democrata, a solidariedade é para mim extremamente importante. Mas quem a pede, tem também deveres. Não posso gastar o meu dinheiro todo em bebida e mulheres e depois disso ir pedir a vossa ajuda. Este princípio vale para o nível pessoal, local, nacional e também europeu”.

Não quero aqui também discutir a veracidade destas palavras, porque não estou bem certa sobre quem ajudou quem nesta crise do euro. Desconfio que os países do Norte se fartaram de encher cofres com os juros das dívidas dos países do Sul, enquanto os governos do Sul espremiam os seus próprios cidadãos.

O que me incomoda de sobremaneira nas palavras do presidente do Eurogrupo é esta assunção que a humanidade – que é uma palavra feminina – é masculina. Ou seja, que quem tem, controla e gasta dinheiro são homens e, por isso, em vez de pagarem as suas dívidas, vão gastar dinheiro em vinho e putas – perdoem-me a grosseria.

Obviamente, sou feminista. Acredito na igualdade de direitos civis, políticos, sociais, culturais e económicos entre homens e mulheres. Tenho a sensação de que há pessoas que têm medo dessa palavra. Dizem que não são feministas porque acham que homens e mulheres devem ter direitos iguais – que é exatamente o que defende o feminismo. O nome – que tanto parece assustar – vem do facto de representar a histórica luta das mulheres para alcançarem os mesmos direitos que os homens. Na Europa, em 2017, esse objectivo ainda não foi alcançado.

Em muitas alturas, as mulheres são invisíveis. Em reuniões de trabalho, são constantemente interrompidas. No meio empresarial, não raras vezes, as suas ideias são roubadas. No seio familiar, acontece o mesmo: os homens podem passar muitas horas a explicar o seu brilharete no trabalho, mas quando é a mulher quem fala de alguma coisa que a importuna, ele rapidamente perde a paciência para ouvi-la. “As mulheres são chatas” é talvez uma das frases que mais ouvi. “A mulher tem muita necessidade de falar de coisas que não interessam”.

O pior é quando são as próprias mulheres a interiorizarem estas ideias, que são chatas, que não têm voz, que o que elas querem dizer não tem importância. Quando se recolhem, quando acham que não podem, quando não ousam, quando acham que o mundo não é delas também. Que são invisíveis e que não interessam. E isso é daquelas coisas que cada uma de nós pode fazer diariamente: não nos deixarmos cair no manto da invisibilidade.

Luísa Alvão, 32 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha em cinema, como produtora no FEST – Festival Novos Realizadores | Novo Cinema, em Espinho, e como programadora do Shortcutz Guimarães.