“Para lá da cultura, não há salvação possível”

Esta é uma frase que o meu pai cita muitas vezes, citando também o autor que no momento em que escrevo esta crónica não me consigo lembrar, nem o Google – por estranho que parece – me consegue ajudar.

Lembrei-me desta frase, a propósito do atentado em Londres de 22 de Março e deste artigo – Os teus vizinhos genocidas – publicado no sítio http://manifesto74.blogspot.pt.

Este artigo versa sobre as reacções nas redes sociais ao lamentável ataque terrorista de Londres. Um ataque que foi cometido por uma pessoa sozinha, ao que se sabe e pede-se toda uma exterminação de uma raça (?) ou a reabertura de campos de concentração de soluções finais. Relembro que este ataque matou cinco pessoas e feriu mais de 50.

No mesmo dia, em Mossul, Iraque, a coligação liderada pelos Estados Unidos da América mata 230 civis em ataques aéreos. Civis. Pessoas que estavam recolhidas em abrigos a fugir da guerra, numa cidade que está a ser disputada pelo Daesh e pelo Iraque com o apoio da coligação internacional liderada pelos norte-americanos. Portanto, 230 danos colaterais pela luta da liberdade. Será que precisamos também de soluções finais e campos de concentração para esta coligação?

Sabemos tão pouco sobre o mundo que nos rodeia e o que culturalmente são diferentes de nós. Os nossos media são controlados pelos Estados Unidos da América de tal forma que anglicismos de tornam linguagem corrente. Vemos e sabemos mais sobre séries americanas do que sobre séries europeias, algumas delas produzidas com apoios comunitários. Achamos que toda a gente fala inglês, tem um smartphone e tem acesso 24h por dia ao telefone. E assumimos como o nosso estilo de vida “o normal”. Todos os outros, são isso mesmo, os outros. E quando um indivíduo dos outros faz alguma coisa má, todos esses outros são maus e não gostamos deles. Os outros não têm direito à individualidade. Isso é coisa para branco ocidental.

Precisamos de reagir a esta vaga de violência e ódio com conhecimento. E este pensamento leva-me para “As Mil e Uma Noites”.

Li os livros por volta dos 12 anos e adorava todo aquele imaginário exótico com as mulheres sempre de rosto velado, não por imposição, mas para não serem identificadas. A seguir a todas as princesas da Disney, finalmente tinha encontrado uma história onde era uma mulher a salvar o mundo. Sheherazade reage à vaga de violência do Rei Shariar da antiga Pérsia – que após descobrir que a sua primeira mulher o traía com um servo, prometeu casou com todas as virgens do reino e executá-las na manhã seguinte – com conhecimento: oferece-se para casar com o Rei e de manhã, mesmo antes do Sol raiar começa-lhe a contar uma belíssima história, ficando o Rei tão curioso que decide executá-la apenas na manhã do dia seguinte. Sheherazade contava tão bem histórias e tinha tantas histórias para contar que esta estratégia durou 1001 noites, depois das quais o Rei já não tinha vontade de executá-la nem de desposar e executar mais nenhuma virgem do reino.

A cultura permite-nos muita coisa, confronta-nos connosco próprios, obriga-nos a questionar o nosso papel no espaço e no tempo em que vivemos, mas também nos permite conhecer o outro. Estou convencida que é da cultura que vem a empatia e basta recordarmos a Alemanha Nazi para percebermos de que são capazes humanos sem empatia.

Luísa Alvão, 32 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha em cinema, como produtora no FEST – Festival Novos Realizadores | Novo Cinema, em Espinho, e como programadora do Shortcutz Guimarães.