A luta que deveria ser de todos

Nunca será demais falar de uma chaga social que começa a ganhar contornos de tragédia, inimagináveis há uns anos atrás.

A violência doméstica, infelizmente, para uma sociedade que se pretendia sã, tem um passado nada recomendável, que não merece quaisquer eufemismos para a denunciar publicamente. Todavia, este tipo de subversão, que vai crescendo, mesmo em meios sociais de caraterísticas díspares, exige reflexão profunda de governantes de vários ministérios, de especialistas, das forças de segurança e de outras entidades que se confrontam com este distúrbio social. Há que ponderar, particularmente, a abordagem ao tratamento a dar às suas vítimas.

Julgo poder afirmar-se que as alterações da sociedade em que vivíamos há largos anos, e a evolução que na mesma se verificou para chegar até aqui, estará também na origem deste perverso fenómeno. Alteraram-se conceitos, comportamentos sociais e cívicos, as questões laborais evoluíram e, sobretudo, foram conquistados direitos com suporte legal que durante tantos e tantos anos foram sonegados às mulheres.

A luta legítima que estas travaram e continuam a travar para a sua emancipação é de aplaudir e incentivar e conduzirá a uma sociedade de iguais direitos e deveres de cidadania que lhe feneceram, durante séculos e séculos de menorização.

A luta foi dura, lenta, incompreendida mas contínua. Não se alcançou, ainda, o patamar de igualdade do género reclamada por uma sociedade evoluída, cuja postura se deve cultivar sem resquícios de um passado tenebroso que urge vencer.

Tive a oportunidade de viver, em meados da década de setenta do século passado, um período onde esta dura batalha assumiu redobrada força na sociedade portuguesa, graças ao movimento libertador do 25 de Abril de 1974.

Num órgão de soberania que, à data, tinha tão poucas mulheres, foram alguns homens que se juntaram a este pequeno grupo e abraçaram a causa nobre de pugnar por ela, transformando os avanços que iam conseguindo, em força de lei. O que se pretendia vinha ao encontro das exigências, não de alguns, mas de muitos outros que reclamavam tão necessária evolução.

O trabalho foi duro, às vezes perturbado por mesquinhos dichotes de uns quantos que, nem por isso, travaram o caminho que foi sendo percorrido com resultados positivos nos anos que se seguiram.

A força dessas mulheres e, particularmente, a sua competência, de nomes que me escuso de citar, foram capazes de ir palmilhando um caminho adverso mas sedutor, cujos resultados, paulatinamente, vieram até aos nossos dias.

Sabemos que as reivindicações continuam mas, o que hoje nos fragiliza já não é o legítimo combate que se trava mas o furor que, com tanta frequência, emerge no seio da nossa comunidade.

O que está em causa agora não são as conquistas que se obtiveram, mas a evolução dramática que se vai sentindo no nosso meio. O que se torna insustentável e que prejudica uma sociedade sã é o eclodir da violência doméstica com desfechos tão trágicos, impensáveis há décadas. As consequências dos que sofrem estas tragédias que atinge tantos, particularmente os filhos menores para além das vítimas, perturbam ou devem perturbar a sociedade em geral.

O país que chora, maioritariamente ainda que à distância, estes repetidos crimes merece que o poupemos a esta persistente dor coletiva.

Reiteramos o apelo às autoridades que referi no início destas considerações. As vítimas, mas também o cidadão comum, que cultiva o sentimento do infortúnio de tantos e tantos irmãos nossos, merece atenção especial para o tema, que civicamente, se exige.

Que este nosso alerta, como aliás o de tantos outros, não caia em saco roto. O clamor que tal conduta origina, conduz-nos à perceção que é Portugal que o reclama.

António Magalhães, 72 anos, é presidente da Assembleia Municipal de Guimarães desde 2013. Liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).