‘Maria da Ponte’: A veterana da cozinha das Festas

Maria Marques Fernandes, conhecida como ‘Maria da Ponte’, 71 anos, mãe de três filhos e avó de três netos, é “veterana” na cozinha das Festas em Honra de Nossa Senhora da Luz levando já 25 anos com tarefas que vão desde a louça aos bolos com sardinhas ou de carne que têm a sua assinatura e merecem rasgados elogios.

Ao longo de cinco dias – sim, porque a o cartaz assinala três mas a preparação e os arrumos exigem mais dois à malta que nos bastidores dá o corpo ao trabalho – Maria Marques Fernandes passa mais horas no monte da Senhora da Luz do que em casa mas a força não lhe falta, garante.

É capaz de sair da barraca de comes e bebes à meia-noite ou à uma da manhã, passar pelo mercado às seis da madrugada e estar de volta à cozinha das Festas ainda antes de almoço. E se os afazeres no mercado de Guimarães não a obrigarem a comparecer no fim-de-semana reservado à Senhora da Luz, “pica o ponto” na barraca às oito.

“Para a Senhora da Luz nunca faltam as forças. Não sei porquê mas chega aquela semana de ir – quinta, sexta, sábado, domingo e segunda – e nunca me lembro de estar cansada. Chego àquela semana e sinto-me cinco estrelas”, conta.

Tudo começou faz um quarteirão de anos: o pai de ‘Maria da Ponte’, Joaquim Fernandes ou ‘Quinzinho da Ponte’ como também era conhecido, foi um dos pioneiros da organização das Festas em Honra de Nossa Senhora da Luz. Ele e mais uns quantos homens de família de Creixomil recuperaram a Capela, reavivaram a devoção à Santa e iniciaram uma tradição que ano após ano se repete sempre no fim-de-semana a seguir à Páscoa.

A Dona Maria Marques Fernandes era novinha nessa altura mas cedo acompanhou o pai para ajudar no que fosse preciso. Agora tem “lugar cativo” na cozinha das Festas. Ao lado de muitas outras “mulheres de garra”, como descreve, vai passando de comissão em comissão. Não há grupo de mesários que se atreva a dispensar estes dois braços cheios de força que também ainda se dedicam à lavoura.

“A gente vem para casa à meia-noite ou uma hora e no outro dia quando se vai outra vez não nos lembramos se dormimos muito ou pouco. É pela Senhora da Luz… Já me disseram para descansar, mas eu respondo ‘se é para descansar, mandem-me embora que eu não posso parar’. A força dá-nos a Senhora da Luz”, repete.

Da cozinha da barraca saem pratos como bacalhau, carne assada, rojões, massa à lavrador, entre muitos outros. O preferido da ‘Miquinhas da Ponte’ é a vitela assada. E aquele que mais faz é o bolo com sardinhas ou de carne que no segundo dia de Festas é muito requisitado. Ao sábado nem o forno nem quem coze a massa têm parança.

Qual o segredo dos bolos? “Não tem segredo, é amassar, tem de ser uma farinha boa porque se não a obra não fica em condições, e vai ao forno um minuto ou dois. É muito rápido”, descreve, modesta mas orgulhosa da sua iguaria.

Mas antes desse “Sábado Grande” já houve quinta-feira, dia de descascar tudo, pôr as carnes em tempero e levar as pingadeiras para assar na padaria. E depois do “Domingo de Pascoela” ainda vem a segunda-feira, altura em que se arrumam panelas, fogões e mesas, sobrando tempo para cantoria e bailarico.

“O convívio também é importante. Arrumamos e canta-se e dança-se. É o fim mas estamos ali e parece que nada se passou. Não há peso nas pernas”, aponta quem ao longo do resto dos dias admira a festa aos bocadinhos, de soslaio, mas não abdica de visitas à Capela de Nossa Senhora da Luz para rezar o terço ou ver a procissão passar.

A boa disposição e o empenho da ‘Miquinhas da Ponte’ valem-lhe, ano após ano, elogios de comissões, colegas, familiares, clientes da barraca, romeiros quer de Creixomil quer de fora da freguesia, e até dos artistas convidados… Nos anos 90 a artista Ágata pegou no ramo de flores que lhe foi oferecido pela organização e procurou a nossa “veterana” da cozinha.

“Disse-me ‘o ramo é seu’. E eu disse-lhe ‘muito obrigado mas porquê?’. E ela, que é uma cantora muito simpática, disse que eu estava toda sorridente. Pois claro que estava: são as Festas! É a Senhora da Luz. Tinha de estar”.

Maria Marques Fernandes trabalhou na cozinha que antes era montada junto ao coreto e agora não falta à que é montada no monte. Morou no Paço até aos 14 anos. Não usa despertador para saltar da cama e acudir ao que for necessário.

Da autoria de Paula Fernandes Teixeira, originalmente publicado na revista anual da  Comissão de Festas em Honra de Nossa Senhora da Luz |Creixomil, 2017.