Enterra-me com as botas

Há sempre um ponto de viragem nas nossas vidas. Um dia, tudo o que nos parecia estar destinado como algo natural, esfuma-se sem deixar qualquer rasto, nem lamento. É o princípio de um caminho de incertezas, de desafios, de perdas, de erros, muitos certamente, também de alegrias, realização, algumas vitórias e muitas memórias para transmitir. São encontros por vezes inesperados, para mim foi um livro, para outros, poderá ser uma viagem, um local, um acontecimento, a maior parte das vezes, uma pessoa de referência.

A adolescência e a juventude são fases de descoberta. Costumo dizer que sou uma pessoa com muita sorte porque tive de tudo o que é significativo para conduzir a nossa vida. A sorte de viver a adolescência marcada pelos testemunhos dos que viajavam por profissão e nos alimentavam a imaginação de outras vidas, outras formas de estar. A sorte de acordar numa manhã de abril para uma alegria irreprimível e inconcebível, dadas as circunstâncias, porque a dor, também nos bate à porta sem se anunciar. A partir daí, o mundo passou a ter duas faces. Aprendi que sempre que estamos perto de conquistar, temos também de abdicar.

A ingenuidade sobre uma sociedade harmónica e pacífica há muito que embatia nas recomendações de silêncio sobre as conversas em família, as que passavam na televisão e as que se lhe sucediam em casa. Estas deram lugar a outras conversas, sobre temas nunca antes imaginados, a questionar para além do visível, a descobrir que cada um de nós pode e deve ser autor do seu destino, e que o limite é a liberdade do outro.

Já desisti de ler as opiniões dos que tentam dar ainda mais importância aos factos protagonizados por jovens, que não são muito diferentes de outros jovens, de há algumas décadas atrás. Eles também olham para a liberdade como algo a que têm direito.  Só que cresceram sem limites e a liberdade sem a responsabilidade, não é liberdade, é como a igualdade que se proclama, mas não se pratica. O que realmente deve guiar a nossa vida tem sido tratado como tudo aquilo que consumimos, usa-se quando nos é útil, deita-se fora quando nos inquieta e desafia.

Os jovens de hoje estão a precisar de espaço para aprenderem confrontando-se com a realidade, enfrentar a responsabilidade de tomar o poder de conduzir a sua vida e ser parte da mudança, errar e aprender com os erros. Foi sempre assim.

Nos últimos tempos deixamos que conduzissem as nossas vidas e, por isso, não deixamos aos jovens a força do exemplo. Ainda estamos a tempo, de cada um de nós se transformar em alguém ativo, que ajuda a mudar, quer seja contra leis que são contra o interesse geral, quer seja contra o que nos vendem como único caminho. Há muitas formas de intervirmos, hoje mais do que nunca, o que verdadeiramente importa é que façamos as coisas em consciência.

Muito recentemente ouvi um jovem dizer que não há inovação, nem mudança, sem os jovens. Assim como escutei que a Europa, que nos trouxe tanta paz e progresso não pode viver sem amor e ternura. Por vezes, precisamos da ingenuidade com que lemos o livro que nos fez mudar o rumo da nossa vida, precisamos de acreditar que os jovens que cresceram a receber, receber aquilo a que as gerações anteriores não tiveram acesso, são capazes de se reencontrar na generosidade, determinação e entrega que fez de tantos jovens lideres, grandes pensadores ou criadores, cidadãos de um mundo global.

Luísa Oliveira, licenciada em Serviço Social , formadora e consultora. Presidente da Cooperativa Desincoop – Desenvolvimento Económico, Social e Cultural, CRL da qual é fundadora, iniciou  a sua intervenção politica como deputada municipal e anos mais tarde como vereadora da Câmara Municipal de Guimarães.