Cumprir e respeitar Abril

Celebramos ontem Abril. Esta é para mim (e para muitos) uma data muito especial.

De há oito anos a esta parte, de forma quase ininterrupta, celebro-o da mesma forma, com dois momentos marcantes: A celebração do poder autárquico, com a sessão solene da Assembleia Municipal de Guimarães e o almoço do Partido Socialista, onde celebramos os partidos, e a sua importância na construção da democracia.

Este ano foi também, à semelhança de outros anos, a celebração das autarquias locais com a apresentação dos candidatos do PS às 48 freguesias do concelho de Guimarães.

O 25 de Abril desperta em mim duas sensações díspares.

Por um lado, vivo com a alegria de saber que não tive que conhecer a ditadura e o fascismo. Nasci em liberdade e em democracia. A saber que posso votar, que tenho o poder de decidir sobre o futuro da minha freguesia, do meu concelho e do meu país. E que me é permitida opinião. Livre e responsável.

Por outro, invejo todos aqueles que estiveram no combate antifascista nos tempos que precederam aquela noite. Mais ainda, invejo todos aqueles que tiveram um papel absolutamente decisivo numa noite em que se fez história e se começou a construir a democracia que hoje conhecemos.

Estes dois sentimentos são bem representativos daquilo que considero ser o nosso dever diário. Principalmente daqueles, que nos mais diversos patamares de intervenção, detêm cargos públicos.

Abril veio para ficar. Mas temos que o preservar todos os dias para respeitar a memória dos que por ele combateram, e para garantir o futuro daqueles que como eu, nasceram depois de 74, e conheceram assim Portugal.

Para isso temos que saber preservar a democracia, preservando as suas instituições. Respeitando a causa pública e os seus palcos. Mantendo o debate elevado, livre e responsável. Assinado e coerente.

Devemos também ser capazes de respeitar a opinião do outro. A que seja também ela orientada pelos mesmos princípios. Seja ela alinhada com a nossa visão ou crítica do nosso caminho.

Toda a opinião ou ação política de baixo nível, refém de interesses ou anónima deve merecer o nosso combate cerrado. A falta de respeito pela opinião livre e coerente, não alinhada pelo jogo político partidário, deve merecer a nossa reprovação.

Sejamos capazes de perceber as dificuldades que criamos à democracia todos os dias. Quando numa sessão solene do 25 de abril, se faz uma intervenção assente em momentos menores e baixa política, com crítica aberta e dirigida, mas sem direito a resposta. Ou quando atacamos ad hominem quem ouse pensar de forma diferente da nossa, mesmo que sempre de forma coerente e sem alinhar num jogo político partidário.

Não acredito que haja um nascido pós-74 que seja capaz de se interessar pela causa pública em resultado de um destes momentos.

E quando afastamos esta geração da política, estamos a dar uma machadada nas portas que Abril abriu.

Mais cedo do que tarde, perceberemos que já não é cedo para reparar o mal feito.

Cumpra-se e respeite-se Abril. Hoje e sempre.

Paulo Lopes Silva, 29 anos, é membro da bancada do Partido Socialista na Assembleia Municipal de Guimarães desde 2009, ano em que foi candidato a presidente da Junta de Freguesia de São Sebastião. Foi membro da comissão de acompanhamento da Capital Europeia da Cultura na Assembleia Municipal. Gestor de Projetos numa consultora de Software do PSI 20, é licenciado em Engenharia Informática e Mestre em Engenharia de Sistemas pela Universidade do Minho. Foi Diretor Nacional de Organização do Partido Socialista entre 2011 e 2014.