Diana, Diana, Diana

Amanhã, Guimarães

Em breve deixo Berlim.

Finalmente decidi mergulhar nesta aplicação que me obrigou a deixar os cadernos lá em casa. E não é assim tão mau. Gosto das breves solidões neste aeroporto, do cheiro cremoso daquela humilde imitação do Starbucks. Mais difícil será ter bateria suficiente para o que quero confessar. Calvários de um iPhone.

Deixo Berlim por uns dias rumo à minha terra natal, ao meu berço. Já vos conto. Deixo Berlim, deixo aquilo que no instante é a minha vida, a minha turbulência, aquele quarto, aquele apartamento, todas aquelas coisas carregadinhas de história para contar, empoiradas quando regressar. Lá em casa existem muitas coisas importantes. Coisas que silenciam muito ar que se respirou desde as últimas brisas do ano de dois mil e doze depois de Cristo. Podia, e seria muito engraçado, ter em cima do piano um ou mais copos com veneno. Mas não tenho. Em cima do meu piano há mais do que um retracto, há vários, aliás, pelo menos quatro, que reflectem rostos daqui, rostos de Berlim desde o ano de dois mil e doze. Sim, quatro retractos, quatro sorrisos; se bem que um, particular, claramente não será de sorriso; quatro faces, quatro pessoas que certamente me farão muito vos dizer.

Após os próximos trinta minutos deixo Alemanha por um mês e tantos dias, mas não é sobre este lado que hoje vos quero contar. Vou voando por esses nenúfares de nuvens em direcção à cidade onde nasci, ao lugar onde fui estupidamente feliz. E a meia noite não está longe. Portanto, amanhã, Guimarães.

Falar sobre isto não é fácil, sabiam? Como poderei explicar-vos o reconforto das ruas da minha cidade, das gentes do lugar onde vi a bola pela primeira vez, onde assisti ao Titanic, onde sentei em tanto medo no meu primeiro teleférico, onde me alcoolizei pela primeira vez como se o amanhã fosse como uma incontornável vida do Super Mário? Como poderei eu contar-vos o calor dos lugares? Como poderei acreditar que em mim acreditarão se vos disser que visitar o grande cemitério daquela cidade é o bastante para que se apaixonem pela aura de um vale?

Pelo certo não será fácil que vos conte tudo sobre mim, sobre os segredos que me fogem, sobre as pessoas que guardo, sobre as coisas que vão mudar o mundo. Certamente. E, homogeneamente, não será fácil contar-vos tudo sobre Guimarães. Tentarei. E aqui fica prometido algumas páginas sobre isso assim que a terra pisar.

César Elias, 31 anos, escritor vimaranense. licenciado em Estudos Culturais pela Universidade do Minho, editou em 2010 “secretária antiga” (poesia), em 2012 “América” (romance), “A Cova da Moura”, (guião, bienal de Cerveira 2012). Publica contos, poemas e crónicas em alguns jornais.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.