Os nossos sapatos

Invariavelmente, ouvimos, semana após semana, dizerem-nos que a indústria do calçado, outrora em sérias dificuldades, está bem e recomenda-se. Isso é bom.

Abrimos os jornais e sabemos que as exportações estão a aumentar, que nunca se produziram tantos sapatos, que Portugal é o segundo país com o maior valor por par de sapato exportado, ficando apenas atrás da Itália. Isso é bom.

Passamos por diversas lojas, em vários pontos do país e sabemos que aqueles sapatos, aquelas botas, aquelas sandálias ou sapatilhas são feitas na nossa região, no nosso concelho, quem sabe mesmo, na nossa freguesia. Sãos nossos embaixadores. Isso é bom.

São vermelhos, amarelos, azuis, com fivela ou atacador, de sola de couro ou de borracha, rasos ou com um elegante tacão, com enfeites ou apliques, com materiais dos mais diversos aos quais se juntou ultimamente a nossa cortiça, a cortiça portuguesa. Isso é bom.

Dizem-nos que celebridades de todo o mundo calçam português e não dispensam nas suas toiletes um par de sapatos do nosso país, com os quais se passeiam pelos principais palácios e eventos da Europa e do mundo, e com os quais reúnem e almoçam e jantam com reis e princesas, com Presidentes da República e Primeiros Ministros. Isso é bom.

Tempos houve em que os defensores dos tempos modernos, nos diziam que isso das indústrias ditas tradicionais eram coisa do passado, e que o futuro só tinha lugar para a informática e para indústrias de ponta e para os serviços e para o turismo. Entretanto, e mesmo que já não sejam habituais os casos como o da Senhora Imelda Marcos que, nos tempos em que o seu marido era o ditador de serviço nas Filipinas, ostentava três mil pares de sapatos no seu armário, todos nós usamos todos os dias pelo menos um par e a procura continua e a necessidade de serem produzidos também. E isso é bom.

Perante um tal retrato que, seguramente, orgulha os empresários portugueses e seguramente não deixa indiferente nenhum de nós, resta apenas a questão de se saber porque é que os operários, em grande parte mulheres, que produzem estes sapatos, que passam horas atrás da máquina de costura, na zona de corte, à frente de máquinas com altas temperaturas, a inalarem as colas, não são devidamente recompensados por esse esforço.

Porque razão continuam, na sua maioria a ganhar pouco, muito pouco acima do salário mínimo nacional? Porque razão muitos deles e muitas delas, demasiados deles, não podem comprar os sapatos que produzem? Infelizmente temos que concluir que isso não é bom!

Mariana Silva, 34 anos, licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos, na Universidade do Minho. É eleita na Assembleia Municipal de Guimarães desde 2009, eleita na Assembleia da União de Freguesias Oliveira do Castelo, São Paio e São Sebastião desde 2013 e membro do Conselho Nacional do Partido Ecologista “Os Verdes”.
Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.