Mulheres, futebol e Vitória

O Bruno Gaspar é daqueles jogadores que vão ficar para sempre na história da história da gente. Nós vimos aquele menino crescer e tornar-se o jogador que é hoje. Nós vimos aquele menino a vestir a camisola do Rei com orgulho. Nós vimos aquele menino a correr atrás de cada bola como se a sua própria vida estivesse em jogo. Nós vimos aquele menino a tornar-se um de nós, a sofrer como nós. Nós queríamos ter visto aquele menino com a Taça na mão a 28 de Maio, mas vimos aquele menino imerso em lágrimas que não conseguia controlar porque amava verdadeiramente o Vitória.

Esta semana nós vimos aquele menino (sinto muito, vais ser sempre menino) a despedir-se e tivemos que aceitar e deixá-lo partir desejando-lhe apenas toda a sorte do mundo e relembrando-o de que será sempre um Conquistador. Ser um Conquistador significa pertencer a uma grande família e numa família – até o Stitch sabia – ninguém é deixado para trás, ou é esquecido. Continuaremos a aplaudir os seus maravilhosos lances, continuaremos a desejar o seu sucesso e festejaremos as suas vitórias.

Quando na segunda-feira o Florentina anunciou a sua contratação nas redes sociais senti necessidade de lhe ir deixar uma palavra de agradecimento e desejos de boa sorte para esta nova fase da sua carreira. Um hábito totalmente normal para alguns vitorianos…

Até aqui tudo bem… O que me surpreendeu foi a resposta absurda que recebi a esse mesmo comentário… Um adepto do Florentina (acho eu) dizia que as raparigas estavam todas a comentar aquela publicação porque estavam interessadas no Gaspar não como jogador, mas pela sua figura física e chegou mesmo a dizer-me diretamente que eu estava demasiado longe para “correr atrás”…

Há algum tempo que planeava falar sobre esta realidade do futebol, mas nunca sabia exatamente como pegar no assunto…

A realidade é que as adeptas femininas do futebol masculino têm de suportar muita coisa sem nexo por parte dos adeptos do sexo masculino para poderem assistir ao desporto que amam. Acusações de que apenas vamos aos jogos por causa dos nossos namorados, que não percebemos nada do que se passa no relvado ou que vamos aos jogos para apreciar a figura física dos jogadores fazem infelizmente parte da realidade de muitas mulheres que amam futebol… Muitos homens sentem necessidade de colocar as mulheres à prova constantemente, de fazerem questões sobre este e aquele jogador, esta e aquela tática, sobre quem marcou este e aquele golo… Como se o facto de eu saber que o Paulinho Cascavel marcou um hat-trick ao Braga na época 1986/87 fizesse de mim mais ou menos vitoriana (a propósito, eu não sei, mas a Internet é um sítio maravilhoso e a minha memória é um local muito estranho)…

Como o futebol é dominado pelos homens, as mulheres têm a tendência para ser mais cautelosas e fazer de tudo para sentirem que pertencem ali…

Já ouvi relatos de situações extremamente absurdas e, como é obvio, também já participei de algumas discussões deste teor, mas de todas a que ficou marcada na minha memória foi uma discussão cujo assunto já não me recordo, mas na qual a expressão “és mulher, não percebes nada de futebol” foi usada como resposta à minha opinião e terminou no momento em que mencionei que era do Vitória – ao que a outra pessoa retorquiu “Ah, és de Guimarães, lá as mulheres vão todas ao futebol…”

Aquela discussão acabou comigo a rir à gargalhada e a sentir-me, mais uma vez, verdadeiramente orgulhosa de ser do Vitória e não de outra equipa qualquer.

Eu tenho de admitir que nunca me senti inferior, ridicularizada ou inquirida no meio dos vitorianos só porque era menina/mulher (note-se que tudo isto é baseado na minha experiência pessoal e lamento profundamente se houver casos de mulheres que tiverem vivências totalmente contrárias à minha).

Desde o primeiro minuto que entrei no D. Afonso Henriques que me senti parte integrante e respeitada. Nunca senti necessidade de ser cautelosa em fazer qualquer coisa que seja mais “feminina” no meio deles, nunca tive de pensar duas vezes no tipo de roupa que iria usar para ir a um jogo, nunca fui acusada por nenhum vitoriano de estar lá apenas para ver os rapazes bonitos (por falar nisso, é possível fazer as duas coisas).

Muito pelo contrário, ainda continuo a achar hilariante quando um homem diz algo menos apropriado na minha presença, se lembra que está uma mulher ao lado e pede desculpa (não é necessário, somos todos iguais, todos nos deixamos envolver no jogo e acabamos sempre por dizer coisas que noutros ambientes não seriam “aceitáveis”).

Não me arrisco a dizer que a nossa massa associativa tem um número igual de homens e mulheres, mas a realidade é que a presença feminina nos jogos do Vitória é bastante significativa e elas (nas quais me incluo) estão lá para apoiar a melhor equipa do mundo, para discutir jogadas, jogadores, decisões dos árbitros, o onze inicial, etc…

Desde pequenas que as mulheres são encorajadas a ir ao estádio. Em Guimarães, os pais e mães tornam os filhos/as sócios/as desde o momento em que estes nascem independentemente do seu sexo e fazem questão de os/as levar ao estádio para assistir aos jogos assim em que lhes é permitido fazê-lo legalmente.

O declínio da associação dos adeptos do Vitória a atos de violência, assim como a ideia de que existem muitas mulheres no estádio e que não se irão sentir desprezadas nem sexualizadas, faz com que haja cada vez mais mulheres nos estádios (nos jogos no D. Afonso Henriques e nos jogos fora) a gritar mais alto, cada vez mais orgulhosas e menos apologéticas pelo fato de que elas gostam de futebol.

Esta é mais uma daquelas coisas que torna este clube especial: as mulheres, tal como os homens, têm um interesse genuíno no jogo e um amor incondicional pelo Vitória (e sabem respeitar-se mutuamente). Naquelas bancadas pintadas de preto e branco não há homens, nem mulheres, não há adultos nem crianças: há vitorianos!

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.