Oh Vitória, Meu Vitória…

Caro Vitória,

A madrugada já vai longa e eu estou deitada na cama à espera que o sono apareça, mas ele persiste em fugir-me porque tu não me sais da cabeça. Andei um mês inteiro a tentar não pensar em ti, não falar em ti, a tentar ignorar-te, mas vamos ser sinceros: isso é impossível.

Oh Vitória, Meu Vitória, hoje é literalmente o primeiro dia do resto da tua vida.

A época passada foi óptima, maravilhosa, inesquecível, indescritível – todos os adjectivos positivos que existam e mais alguns – e repeti-la parece algo tão improvável como eu ganhar o euromilhões. Vais ouvir mil e uma pessoas a dizer que não és capaz, que o teu histórico te vai perseguir, que não tens uma equipa forte o suficiente para fazer uma boa campanha europeia e mais mil e uma coisas… Ignora…

Não vai ser fácil. Já estivemos juntos nesta posição muitas vezes. Fizemos uma época fantástica, acima das expectativas e na época seguinte perdemos elementos fulcrais, fomos para um grande desafio e falhámos gravemente…

Em 2008 depois de uma época de sonho, ao estilo fénix que renasce das cinzas, estávamos na pré-eliminatória da Champions League. O sonho estava tão perto que conseguíamos ver estrelinhas a brilhar no estádio, sentir os pelos a ficar completamente arrepiados ao som do hino da Champions… O sonho estava tão perto que o conseguíamos sentir. Era o momento de dar o salto, o momento de provar que o Vitória tinha vindo para ficar e se queria afirmar não só como um grande de Portugal, mas como um grande da Europa. O sonho estava tão perto que ainda hoje consigo fechar os olhos e voltar ao estádio do clube-cujo-nome-não-deve-ser-pronunciado e estar novamente no meio daquele povo – o meu povo, o teu povo, o NOSSO povo – cheio de esperança que de tanto de amar fez-se ouvir no meio daquele estádio cheio de gente do clube adversário. Ainda consigo sentir o momento em que as nossas vozes se silenciaram, os nossos olhos ficaram humedecidos e os nossos sonhos morreram.

Podemos passar a vida a culpar o árbitro – e iremos fazê-lo -, mas todos sabemos que aquela eliminatória podia ter sido resolvida em casa, no meio dos nossos que não se calaram um único segundo para te apoiar…

Seguiram-se anos difíceis. O ioiô tornou-se o nosso passatempo preferido. Épocas interessantes seguiram-se de épocas fracas ou assim-assim. Chegamos pela primeira vez a uma final da Taça de Portugal em duas décadas, mas naquele dia esquecemo-nos de ir jogar… Acordamos por uns segundos, mas voltamos ao nosso estado de hibernação que nos atormentou até 2013.

2012/13 foi mais uma tentativa de afirmação. A aposta na formação que tanto desejávamos foi obrigada a acontecer por força do destino (ou do mercado – como lhe quiseres chamar) e acabaria por nos dar a maior das felicidades. Ainda hoje me faltam as palavras para descrever aquele dia. Felicidade soa tão insuficiente para descrever o que senti. Ver aquela taça decorada de preto e branco a ser levantada pelo Alex continua a ser a minha memória feliz e é tão forte que seria capaz de defrontar qualquer batalhão de Dementors.

Depois veio, como sempre, o ano seguinte. Sem qualquer conexão com a época anterior, vimos a equipa de sonho – baseada na formação que tanto almejamos – ser desmantelada e o sonho europeu a ser, mais uma vez, destruído. Doeu ver-te assim: destruído, indefeso, perdido…

O ano seguinte sem sido sempre o maior dos nossos pesadelos e o pior de tudo é que eles se têm tornado sempre realidade.

Acho que ambos concordamos que está mais do que na hora de pararmos de brincar ao ioiô – é engraçado, conseguimos fazer alguns truques, passar algumas horas de diversão, mas consegue tornar-se cansativo em pouco tempo – e avançarmos para algo mais sério.

Oh Vitória, meu Vitória, hoje é efectivamente o primeiro dia da tua (NOSSA) vida e tens de agarrar esta oportunidade como se a tua (NOSSA) vida dependesse disso. Nós precisamos disso. Nós precisamos que este seja o ano de dar o salto, o ano da continuidade, da estabilidade, da evolução.

Já chega de “anos zero”, de “quases”, de “para o ano é que é”. Este tem de ser o ano. O ano em que mostramos que o sucesso não é fruto do acaso, mas sim de planeamento, de estratégia. O ano em que mostramos que somos uma grande potência do futebol português e que faremos história na Europa.

Não vai ser fácil, eu sei que não vai, mas acredito em ti, acredito em NÓS. Eu acredito que esta época não vai ser mais um “ano zero” onde se tudo se constrói de raiz. Esta vai ser uma época de continuidade, de afirmação. Eu acredito tanto nisso que até soa absurdo, mas acredito.

Olha para a tua História, olha para a tua gente e vai para cada uma das batalhas que se avizinham com a certeza que nunca caminharás só, que onde quer que estejas terás uma cidade inteira (e muito mais pelo país e mundo fora) a apoiar-te, a acreditar em ti, a gritar por ti até que a voz lhe doa.

Não deixes que as glórias da época passada te subam à cabeça, nem que o nível de exigência para esta época se torne num peso tão grande que te deite abaixo. Acredita em ti, acredita em nós e vai para a guerra. Mostra a este país e ao mundo porque é que tens um exército atrás de ti para onde quer quer vás. Mostra a este país e ao mundo porquê que a chuva para nós é sol. Mostra a este país e ao mundo porquê que somos CONQUISTADORES!

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.