Mar, ciprestes altos e grilos cantantes

Quando aterrou no seu destino de férias, ainda não estava em si. A adrenalina da última semana de trabalho ainda lhe corria no sangue e o ter tão pouco tempo para preparar as malas e as férias em si, roubaram-lhe o tempo de preparação mental para estar de férias.

Acordou repentinamente do que lhe pareceu um longo sonho e estava do outro lado da Europa, numa esplanada à beira-mar a beber uma cerveja alemã, num país onde não sabia falar a língua local e nem sabia qual a moeda corrente. Finalmente, sentiu todos os seus músculos a descontraírem. “Estava longe, tão longe de tudo…” pensou.

Não esperou muito até entrar no mar, naquele mar…. a ondulação serena, temperatura amena e a quantidade fora de vulgar de sal permitiam-lhe passar horas flutuar naquelas águas. Volta e meia, vinham-lhe os problemas que tinha deixado em Portugal à cabeça e ela pedia-lhe com delicadeza aos seus pensamentos que fossem embora. Era imperativo desligar. Não ver televisão, não ouvir rádio, não ter ligação à internet, não ver emails, não ver redes sociais. Cada vez que mergulhava, sentia que respirava melhor e o cansaço do último ano aos poucos saía-lhe do peito, das costas, dos ombros. Nadar lembrou-a que o corpo dela não era apenas uma extensão de uma secretária, que tinha pernas e braços compridos, que estes tinham articulações que permitiam vários movimentos. Era como se o corpo se encontrasse numa espécie de leve rigor mortis na posição “sentada-numa-secretária-mãos-no-computador” e a água permitisse que esse rigor se fosse desvanecendo… Ah, o alívio. O alívio e a alegria de sentir o movimento voltar ao corpo e sentir o mesmo corpo esticar-se e encolher-se conforme a parvoíce que lhe apetecesse fazer dentro de água.

Esta estadia permanente dentro de água era apenas interrompida por momentos de viagem de carro. Percorria a costa daquele país da ponta sul à ponta norte. Sempre na costa, sempre com o mar do lado esquerdo. No lado direito, as montanhas altas entrecortadas por vales verdes. A paisagem não variava muito. O mar, as montanhas, os vales e os ciprestes muito altos que pontuavam a viagem. Quanto a temperatura lhe permitia, as janelas abertas do carro deixavam entrar o incessante cantar dos grilos, que reclamavam o território e lhe lembravam que estava num país estranho.

Sentada a uma secretária, ela recordava os dias de férias como dias em que se permitiu não ser ela.  Os ombros estavam pesados novamente e as costas já acusavam que se tinham desabituado àquele número de horas numa secretária à frente de um computador.

De vez em quando, cometia a rebeldia de se espreguiçar longamente e aproveitar para esticar o corpo todo. No breve alívio que sentia, o pensamento fugia-lhe para aquele mar, os ciprestes altos e os grilos que cantavam incessantemente.  Ah, que pena que a delicada leveza do ser é sempre vencida pelo quotidiano.

Luísa Alvão, 32 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha em cinema, como produtora no FEST – Festival Novos Realizadores | Novo Cinema, em Espinho, e como programadora do Shortcutz Guimarães.