Diana, Diana, Diana

A morte do homem que morreu

No dia do óbito do homem que morreu já a morte o esperava, serena, expectante, rotundamente concentrada em compactar a ansiedade dentro de si, mesmo que agitada por estar prestes a receber o seu mais fresco companheiro.

Todos os mortos possuem a sua morte. Uma voz ligeira e sossegada, uma voz que nunca excede o timbre daquilo que tem que ser a voz de uma morte, uma voz encoberta por um vulto que não se vê mas que se sente, uma voz que já foi de alguém, em vida, e que se havia transformado na voz da morte de um outro que acabará por morrer. Assim se metamorfoseiam todos aqueles que pela senda da vida vão errando e desferindo males e infortúnios. Ser a morte de uma alma errante que parte, é o mais digno castigo ofertado a essas mesmas almas que viveram e que erraram. Um ciclo imenso. Um ciclo impreterivelmente eterno. Talvez. Assim se consolida o que parece ser o inferno. Uma voz delicada num imenso vazio, aguardando a arribada de seu homólogo. Diz-se que o paraíso existe, que se aparenta tal qual o que se relata em vida, e que alberga todos os que de bondade foram na vivência. Mas deste lado, do lado da morte, nada se sabe sobre tao bela inocuidade. Aos mortos que renascem na morte, é-lhes dada voz para que se redimam de sua história profana, para que ofereçam aos novos errantes que lhes chegam a oportunidade de voltar a viver, na humilde condição de remediarem tudo pelo quanto erraram, ou mesmo condicioná-los a corrigir os erros de um outro errante, seja ele quem e o que for, ou ainda outra coisa qualquer, assim que voltarem a calcar a terra.

No dia em que morreu o homem que morreu, foi a sua morte que primeiro tomou a voz. Como te sentes, agora que terminou, ia falando a medo, Esta é a casa da morte, provavelmente o teu último destino, e eu estou aqui inteiramente para te ajudar, diz alguma coisa, raios. Do homem que tinha morrido via-se uma expressão de autêntico terror. Vagueava perdido na imensidão daquele espaço branco e infinito. O homem que morreu não estava de todo em si mesmo, não entendia de onde nem a razão daquela voz. Onde estou, quem é você, que fizeram comigo, isto é um sonho, certo, e lá estava ele completamente ridículo, atirando perguntas ao ar enquanto rodopiava a cabeça e caminhava aleatoriamente com a camisa despregada das calças e um tanto desabotoada. Tu não estás num sonho nem num pesadelo, dizia a morte já mais esperançosa em acalmar o seu hóspede, Tu morreste hoje, de forma trágica e inesperada, e estás aqui por ser este o lugar que mereces, devias saber que poderia existir algo como um paraíso e qualquer coisa como um inferno. Bem-vindo ao inferno. Aquelas palavras deixaram o homem que tinha morrido inteiramente atónito, apavorado, elevando as mãos ao cabelo crespo e pouco alimentado como um demente que se sente assustadoramente perdido no mundo, inseguro de quantos gramas de loucura se está nutrindo.

Desde os imemoriais tempos em que o homem havia sido prendado com a capacidade de raciocinar, que lendas e mitos sobre o que se avizinha para lá da vida vão chovendo ao longo de todos os séculos e de todas as dinastias. Não mais do que mitos e lendas, porém, decerto, pois nunca esteve o humano preparado para morrer. O que se quer dizer é que, por muito que o Homem prepare a sua morte, por muito que a deseje, por tanto que faça rigor nas suas ações do quotidiano, jamais saberá ele o que irá encontrar. Ainda que pense que vai ser julgado, avaliado, e que teça todo um caminho ladrilhado para no fim ser o distinto samaritano, jamais saberá ele que só depois de findado o seu ciclo é que será exposto perante a prova. Por outros modos dizendo, de nada lhe serve as boas ações, a boa conduta, o amar desenfreadamente, o ser um cidadão humilde ou o pontífice da perfeição, se é aqui, na morte, que começa o seu teste. Assim sendo, há que rasurar a ideia de que se será selecionado para o paraíso ou para o inferno mediante aquilo que se foi enquanto vivo. Um purgatório é coisa da cabeça dos humanos que temem o fim dos seus dias. Esqueça-se tudo o que se diz sobre a prossecução do vivo por outro caminho e apoderado de um outro corpo, a lei dos sete destinos, as almas que roubam rebentos humanos, as fantásticas dimensões paralelas em que comungam todos os espíritos, e todas as contradições eclesiásticas que não passam de pura imaginação, deveras frutífera, é certo. Na realidade, e note-se que esta é a única, apesar de dura, após o nosso falecimento apenas existe a morte. Nós somos a voz da morte de um próximo que morrer e assim sucessivamente, não obstante de haver apenas uma saída para este tenebroso destino. No entanto, esse imaculado escape é de tal forma indigno para uns, injusto para outros, que apenas se conhece um singular caso de um homem, pescador de profissão, que aceitou o desafio de ser testado perante a sua voz da morte, regressando ao mundo dos vivos para cumprir o seu legado. Diz-se que arduamente o cumpriu e que viverá até ao fim do sempre.

O homem que tinha morrido encontrava-se agora de bruços, evidentemente derrotado e esmagado pela realidade que via. De nada serve que te quedes pois o teu destino está ainda em tuas mão, disse baixinho a voz branca da morte do homem que tinha morrido, Diz-me quem tu foste até hoje e logo havemos de chegar a uma conclusão. E o homem morto, após se render a tão incrédula situação, foi soerguendo a cabeça enquanto soletrava algumas palavras, Eu, sempre fui um bom homem, disso tenho eu certeza, e se isto é verdade não entendo porque vim cair no inferno, Ninguém disse que isto é o inferno, meu caro homem, ganhava tom agora a voz da morte do homem que morreu, O que eu disse, foi que este é o único destino de todos os humanos, e se se assemelha a um inferno, que seja então assim chamado, porém, nunca por aqui passou ninguém que nunca tenha errado, e mesmo que esses existam, e supondo que apearam no paraíso, isso nunca iremos saber, pois como te disse nunca por aqui passou qualquer ser perfeito. Diz-me, Morto, que homem havias sido tu nestes longos cinquenta anos, diz-me tudo o que te lembras desde que te lembras de ti. E o homem que tinha morrido recompôs-se, sentado na imensidão branca, pronto para começar a recordar-se de si, De criança são poucas as recordações que me ocorrem, mas lembro-me de ser um miúdo pacato, não muito dado àquelas loucuras de crianças. Uma vez, num daqueles passeios pela aldeia com o meu amigo de sempre, roubei duas galinhas do quintal de uma velha que era cega, até hoje não entendo o porquê de ter roubado e matado as duas galinhas, coisas de criança, é o que penso. A voz da morte não se manifestou, e então o homem que tinha morrido continuou o manifesto das suas recordações. Recordo-me do meu heróico salvamento do meu pequeno irmão que quase tombava num abismo, e de uma outra vez em que quase morria afogado no rio, disto lembrar-me-ei sempre, penso eu. O homem morto aguardava uma reação da voz da morte, mas desta nem sinal se via ou ouvia, e assim continuou lembrando e relatando, o morto errante, Lembro-me da minha primeira namorada, por volta da idade de nove anos, uma menina loirinha e esguia que eu pensava amar loucamente, mas que nunca lhe cheguei a beijar os lábios, e, incrivelmente, a outra namorada que tive é hoje a minha mulher, ah, a minha mulher. E logo após ter dito e lembrado de sua esposa, o homem que tinha morrido depressa se elevou, atónito, nervoso, desesperado, de braços ao alto, gritando repetidamente a frase, a minha mulher.

Quase todos os Homens são pretensiosos quando confrontados com a sua própria infância. É justo. É justo que haja benevolência para com as crias de todos os animais do mundo que, pura e inocentemente, vão cambando pelos atalhos do início da vida. Isto se se entender perfeitamente que apenas aqui se trata de crias, de crianças, de inocência. Mas para a morte as coisas não funcionam assim. Para a morte, que é o ponto mais alto de todos os viventes, todos nós nascemos já vadios, sucumbidos à tentação da beleza do viver. E quem nunca tentou o proibido que à morte arremesse a primeira pedra, salvo-seja. Se mesmo um pensador resume que o Homem é um animal que fala, um animal politico, rola então pelas águas mais profundas a esperança de que haja alhures um cidadão da Terra perfeito. Se mesmo um filósofo arriscou em frisar que o humano é um ser que pensa, como poderá a morte perdoar os que lhe suplicam a vida que tinham, em troca de penitência. Uma criança não passa de um corpo verde, de um bicho ainda tão indiscutivelmente imperfeito em toda a sua demasia. Que seja assim, para sempre e um dia, ou que nasça numa bela manhã de uma qualquer estação, tal humano que tudo isto contradiga, que toda a imperfeição contorne, que todo o belo em si carregue, para que na hora de seu fim possa arrancar uma lágrima à voz da sua morte, não tendo esta outra atitude que não a de lhe ceder o paraíso por um imenso tapete avermelhado, ou mesmo o regresso à pulcritude da vida carnosa.

O desespero do defunto, após ter lembrado o sorriso da sua mulher, era deveras alucinante. O choro daquele individuo adulto já quase se assemelhava ao grasnido intenso de um bebé esfomeado, e vinha o sufoco que tenebrosamente lhe arroxeava a pele da cara e do pescoço. Basta, vociferava de rompante a voz da morte, O que já lá vai deveria ter sido coisa que tu emendasses, o teu tempo de submissão à vida que te escapou terminou. Agora terás que seguir o que te digo, continuarás a recordar tudo aquilo que foste em todo o teu miserável tempo, para que juntos possamos saber se és digno de alguma sorte, caso contrário, é na voz da morte de um próximo que te transformarás e pacientemente o aguardarás neste imenso nada, assim como eu aguardei por ti ao longo destes intermináveis cinquenta anos, e repara que não te quero mal pois assim que decidirmos o teu lugar o meu descanso será tomado, desaparecerei de uma vez por todas, e como deves imaginar, isso é o tanto que desejo há já tempo que lhe perco a conta. O cadáver falante não pareceu ter ficado convencido com a repreenda da voz da sua morte tanto que, aos arrojos a si próprio e esfregando a baba pelos antebraços, depressa se pôs a disparar frases de revolta ao seu único companheiro, É isso que queres, queres descanso, queres paz, eu que nem sequer sei quem és nem o que foste, que nunca pedi que me aguardasses, nem tu nem ninguém, nem nada, digo que pois então a paz eterna tenhas, sua voz irritante, leva-me para o teu lugar, mata-me de uma vez por todas que o teu trabalho saberei eu fazer, e com toda a certeza o farei bem melhor do que tu fazes, vá, acaba com isto, acaba, acaba e desaparece da minha cabeça, que agora sou eu quem te quer ver pelas costas. A voz confessava para si mesma que não esperava que fosse tão penoso fazer entender ao seu morto que não lhe restava outro caminho senão o que ela o ordenava a seguir. Assim, e depois de arremessarem insultos e dizeres um contra o outro, o homem que morreu acabou por ceder à triste realidade e, cabisbaixo e extenuado, retomou a sentar a carcaça morta para que seguisse o raciocínio da narrativa de toda a sua vida, Sempre quis ser médico, sabes, não um médico comum, mas um médico ativo, um médico daqueles que não dorme enquanto não faz uma descoberta, nem que seja uma descoberta na mais pequena das células, mas com a morte da minha querida mãe, e aqui o morto fez uma alongada pausa, olhando em volta como se a voz de sua mãe o perscrutasse algures por perto, e novamente retomou a conversa, Com a morte da minha mãe esse meu sonho foi por água abaixo, tudo mudou, tudo ficou mais complicado, pois vi-me na obrigação de começar a trabalhar, o pouco que ganhava o pobre do meu pai mal chegava para alimentar os três filhos, de modo que trabalhei alguns anos na vacaria do homem mais rico lá da terra, até que surgiu a oportunidade de ir para a cidade distribuir jornais, e foi assim que fugi para sempre da minha aldeia.

O homem é um bicho. O homem é também natureza. O difícil é trazer à baila a sua eterna questão cultural. O homem não é um bicho nem muito menos um pendão da natureza, pois nasce já enlaçado nos tecidos daquilo que vem criando desde que começara a rasurar cavernas. A sua maior ambiguidade é exclamar-se puro, puro pela sua sociedade, puro pela sua religião, puro pela sua família ou pela bondade para com o trilho que se lhe atravessa no caminho. A regra é que se nasça, sobreviva, e que se morra, e estudando levemente essa norma, que final merecerá o que nasce, mata, reinventa sobrevivência, esguarda atentamente os indefesos, e no fim morre brioso. Homens e animais, seres de toda esta Terra, todos eles nascem para morrer. Porém, nenhum deles nasce para sofrer.

Depois de ser um cidadão da cidade a minha vida foi ganhando forma, dizia já bastante recomposto o homem que tinha morrido, Os meus estudos liceais levaram-me rapidamente a interessar-me por política, mas após ter iniciado os estudos em economia essa minha ambição passou para segundo plano. Claro que tive uma juventude bem vivida, ainda que tivesse sempre de auxiliar o estudo com o trabalho, sempre consegui atingir minimamente os meus objectivos. O meu primeiro trabalho sério, a ganhar dinheiro, quero eu dizer, foi na redacção do jornal lá da freguesia. Ocupava-me da coluna económica, que era uma espécie de relato mensal sobre o desenvolvimento económico da região, entre outras coisas mais. O homem que tinha morrido, o economista ultra sucedido, mais uma vez interrompeu o seu discurso para perceber se a morte falante ainda ali se encontrava, atenta à sua vida falecida. Em algumas das vezes em que parava de falar para o fazer, o homem cerrava os olhos com força, com muita força, na esperança de que ao reabri-los se pudesse reencontrar novamente vivo, vivíssimo, acordado de um temível sonho. Claro que isso nunca acontecia. E mais uma vez, o infeliz do cadáver lá voltava às suas lembranças e aos seus dizeres. Conheci a minha mulher numa das voltas dos jornais, e para sempre irei recordar aquele sorriso pequenino, e dito isto o homem que morreu começava a sorrir tenramente, Ela fazia arranjos na loja da mãe, que era uma florista muito bem conhecida naquele bairro, fazia-o todos os dias, nas horas em que não tinha que ir para a escola. Uma pessoa incrível, aquela minha mulher, sempre dedicada com todo o amor ao trabalho e aos seus. Certo dia lembrei-me de lhe endereçar flores, as mais frescas flores que pude encontrar numa outra florista da cidade, e no bilhetinho coloquei o meu nome, perguntando-lhe o seu, e todos acharam tão estranho que alguma florista fosse receber carinhosamente um emaranhado de margaridas e rosas, mas achei que fosse uma boa ideia, e foi certamente, pois em casa do ferreiro o espeto é sempre de pau. E foi como verdadeiramente começou a minha vida, o meu verdadeiro amor, amor que fez nascer duas lindas meninas, as minhas filhas, as minhas queridas filhas. A partir daqui se emudeceu por muito tempo, com mais lágrimas, o homem falecido.

A voz da morte não tinha desaparecido apesar de continuar a fazer jus à sua calada. Tanto um como o outro respiravam agora o silêncio profundo como dois monges que meditam o sentido da existência, como dois fanáticos do xadrez que se contemplam mudos e surdos, meditando para si o jogo de peças que lhes galantearia com a vencida. Meditavam certamente, os dois mortos, como se se tratasse de um jogo importante, em que o primeiro que falasse fosse o mais forte, e mais sábio teria que ser o que seguidamente respondesse. Dois corpos que um dia tinham morrido e que perdidos se viam no imbróglio de estar morto. Saber sobre as coisas da morte só mesmo na experiência, no trabalho de campo, no imenso nada nublado. É essa a grande dificuldade de se ser cadáver, e não o sofrimento que pra trás se deixa, as coisas incompletas, os desejos esvanecidos, os sonhos que ficaram por viver e os filhos que ficaram por nascer. A diferença entre a vida e a morte é bem clara. Uma é-nos dada de mão lambida, bela e enternecida, e nela jorra o cuspo da eterna ingratidão. A outra é-nos imputada como destino, oferecida à força, estampada no nosso rosto desatento. Qual seria afinal o destino do homem que estava a ser julgado pela voz temível da sua morte. O que seria de si depois de tanta luta, justa ou injusta, boa ou má. O certo é que nem o morto nem a sua voz da morte arredavam pé do silêncio. A voz da morte, por querer, talvez, testar mais uma vez o seu turista, ou por estar introspectivamente a tentar concluir o seu juízo final, ou talvez a zelar pelo seu descanso eterno. O homem que tinha morrido por querer forte se revelar, intocável, digno de benevolência, usando assim o silêncio como forma de se proteger da verdadeira morte, criando um muro espiritual que pudesse usar como escudo, quase se intitulando de herói, como herói que foi Breogán quando se lembrara de hastear tal imenso muro para dos seus se dizer protetor, não sabendo ele que não seria um baluarte que criara, mas sim um belo farol com vista para o futuro iluminado.

A voz da morte quebrara o silêncio, enfim. Caro morto, meu caro amigo morto, permite-me que assim te trate. Olha para a minha voz como se meus olhos visses, como se o meu corpo estivesse diante do teu. Basta de rodeios, chega de prantos e de lamentações que das nossas mortes temos de tratar, não desejo menos do que tu o melhor dos destinos, e anseio cegamente o meu merecido repouso que é coisa única que poderei receber depois de minha vida fastidiosa. Se algum sangue de homem nos resta, vamos lá então encarar a verdade verdadeira, agarrar lá este touro pelos chifres. Bem sabemos que não foste nem és diferente de mim, não és diferente de nenhum outro que se já tivesse conhecido nesta mudez de mundo, agora, pois, finalmente, dir-te-ei que o teu destino é que nem o meu, é que nem o de todos. Transporás a uma voz da morte de alguém que virá até ti no falecimento. Lamento. Espero que entendas e acredites verdadeiramente que lamento, pois no fundo até que nos entendemos bem, e ainda poderia dizer que gosto de ti, se pudesse gostar do que quer que fosse. Ora muito bem, conversas à parte, que o nosso tempo se esgota. Como manda a regra terás uma última oportunidade, o tempo que souberes necessário para dizeres alguns dizeres sobre ti. Não pela forma que quiseres mas pelo que te direi agora. Fala-me de dois momentos de tua vida, diz-me qual a coisa que mais te inquieta e a que mais sossega o teu morto coração. Pensa fortemente, pensa com todas as tuas forças em duas coisas que possam ter marcado para sempre a tua pobre existência. Talvez consigamos achar uma deliberação para a morte que não queres sentir, talvez consigas escapar a este silêncio imenso que até hoje vivi, mas aviso-te, cara amigo morto, não julgues que será fácil descobrir tal coisa, não acredites cegamente no que digo.

O homem que inesperadamente tinha morrido estava um morto literalmente devastado, arrasado, sucumbido, uma farrapilha de gente. O lacrimejar seco que lhe eriçava a pele vermelha das pálpebras fazia doer só de olhar. As primeiras palavras das primeiras frases saiam-lhe aos soluços galopantes, contínuos e quase metronómicos, Confesso que, iniciava assim o derradeiro discurso, o desgraçado do falecido, Me custa muito lembrar uma ou outra coisa, talvez por serem as que mais me marcam e que não se me largam da cabeça. Provavelmente, o dia mais feliz da minha vida foi aquele em que nasceram as minhas filhas, os meus anjinhos, tal e qual um como o outro. Naquela noite, naquela maternidade daquele hospital, eu era a pessoa mais feliz do mundo, de verdade que o era, o brilho dos meus olhos até a mim mesmo me surpreendeu. No entanto, para infelicidade de alguém e da minha lembrança, minutos depois da minha tempestuosa satisfação, uma mulher gritava e chorava piedosamente abraçando o berço da sua cria morta. Aquela criança que nada tinha vivido partiu sem sequer abrir os olhos ao mundo, e partiu também o coração de sua mãe, e partiu ainda a minha felicidade durante todo aquele dia. Usei a força da minha felicidade no abraço que dei naquela mulher, e por longos minutos o fiz até lhe sossegar a prantaria. Ainda estás ai, perguntava o morto olhando em todos os ângulos, ao que a morte acabaria por lhe responder com um suave sim, ordenando que prosseguisse. O que te vou contar agora, minha cara morte, fiz promessa de nunca mais remexer, mas vendo o pouco que me resta talvez não custe assim tanto. E depois de um largo suspiro, o homem que tinha morrido e que agora iria ser uma voz da morte, ou talvez não, atirava-se sensível para o últimos de seus contos. Todos sabem que por minha tão grande batalha aspirei a um economista de sucesso, de modo que de meu suor nasceu a mais sólida companhia de seguros do país. Eu dou a cara pela confiança que milhares de famílias depositam na minha empresa, na minha crença, e com isso sinto-me bem, sinto-me bem por saber que faço com que as pessoas se sintam bem, se sintam seguras. Mas ainda assim, há coisas que são difíceis de explicar assim como são difíceis de esquecer. O meu associado, aquele grandioso homem que a meu lado sempre esteve na longa jornada profissional, era para mim como um irmão, como um filho, como parte de mim. Naquela noite feia de inferno, fria e molhada, regressávamos do jantar de convívio de natal da empresa. Tomei a liberdade de levar até casa o meu bom velho amigo que quase já nem se segurava de tão embriagado. Aquela noite. Aquela terrível noite. Até hoje não sei como foi acontecer, não sei como foi surgir aquele animal quadrupede no meio daquela estrada montanhosa, bem na minha frente, enquanto acelerava ansioso por chegar. Ainda me lembro do embate, do enorme veado que se esmurrava violentamente bem diante da minha viseira. Do resto da tragédia tudo se me apagou. Nunca me perdoarei por ter levado o meu grande companheiro até à morte, ao invés de o deitar no conforto da sua poltrona favorita. Nunca me perdoarei. Nunca. Ainda assim, tanto que lutei para que a boa da sua família o menos sofresse. Todas as forças da empresa que, heroicamente, juntos, havíamos criado, se uniram para reconfortar aquele lar. Os milhões que consegui assegurar na conta bancária da família jamais apagarão o choro daquela trágica perda, mas, confesso que isso acabou por acalmar a minha demência para com a tragédia, caso contrário também eu morreria de desgostosos remorsos, se é que não foi por isso mesmo que morri. Terminara assim a suas memórias, o homem que tinha morrido.

A ironia existe. A ironia existe para ser usada. O que nunca se imaginaria é que o ser mais perspicaz do planeta a usasse após o seu óbito. É interessante perscrutar dois machos humanos, em todo o seu vigor, recordando as falésias dos acontecimentos mais marcantes da sua vida com uma ternura tal, imensurável até. Até os traços da cara se amimam, até as palavras de que nunca souberam existir jorraram pela boca daqueles arrependidos. O abuso do uso irónico do amor, da ternura, da compaixão, da lágrima, do sensacionalismo de se ser um simples humano é tão enorme após a morte, é tão reconfortante após a decessa. Mas não. O humano não é assim tão enorme, não tão grandioso assim. Ele é moldado imperfeito, superfluamente imperfeito, e longe de atingir a plenitude da humildade, o trono da bondade. Tanta ironia, e ainda ao centro de todo o teatral post mortem, ele nunca entende o verdadeiro sentido do ser, de saber ter amor. Não amor de cantiga, amor cárita ou de paixão. Amor. Amor.

O nervosismo atacava o homem que tinha morrido. Sabia que finalmente iria morrer. Sabia que iria ser uma voz da morte, caso a sua voz da morte não se manifestasse, ou mesmo que esta se manifestasse, poderia certamente oferecer-lhe uma temível e horrível solução que substituísse o seu já quase certeiro destino. Sentia medo. Sentia muito medo. Sentia medo de criança. Depois do medo, algo muito estranho ocupara inteiramente o trabalha do seu cérebro parado. Lembrara-se de um poema. Lembrara-se de um poema de que não se lembrara de ler, um poema que nunca soube de quem, um poema que bramava bem audível dentro da sua carcaça arruinada, um poema que dizia,

Vem ter comigo, Diabo.

De ti eu sei o que esperar.

Cheira a estalos de tuas faúlhas

Por todas estas ruas,

Por todo os lugares.

 

Só pode ser teu este caminho

Que nos lanha os pés,

Que nos faz arquear o osso

A toda e alguma estrada.

Só pode ser teu, este véu negro

Que se avizinha da estratosfera.

 

Perdoai-os, Diabo.

Pois não souberam de Deus,

Não souberam de si,

Não se souberam amar

Como o crisântemo ama a abelha,

Assim como as rochas amam a espuma,

As miragens a luz,

Os cegos as mãos,

Os homens os vícios,

Os vícios os filhos,

Os filhos as mães,

As mães a radiotelefonia,

A radiotelefonia o caos,

O caos os homens,

Os homens a morte

A morte o Diabo!

Vê como te querem, demónio.

Vê quão impiedoso é teu tempo.

 

E eu,

Eu que de minha mãe não sei,

Eu que sonhei ser um falcão perdido,

Ajoelhar-me-ei.

Ajoelhar-me-ei à nascente de sangue

Que te me trará.

Que te me trará

Um dia para levares o mundo.

 

Ao perceber que o morto parecia já um verdadeiro morto inanimado, a voz da morte respirou, respirou, respirou e respirou, juntou todas as forças que vinha guardando durante o penoso meio século e, finalmente desvendou o que o destino reservara ao seu companheiro da morte. Cabia-lhe, ao morto, rodar a maçaneta desse destino, como havia feito bom velho pescador, ou deixar-se quedar sabe-se lá por quanto tempo, na brancura de ser uma voz da morte de alguém que ainda iria morrer. Porta essa, sem maçaneta que a soubesse abrir. Homem. Chamava a voz da morte, homem morto que me calhou, como não entendeste tu o sofrimento que causou a tua luxuria, perguntava. Sem que notasses, foste como o mais cobarde dos homens que não sabe de amor, de compaixão. Recorda a tragédia que há pouco me relataras, recorda o sofrimento que te causou, recorda o orgulho com que pensaras ter amenizado as dores de todos os que por tua culpa sofreram, recorda que naquele momento fatal destruíras também a vida de um outro animal, e a quem imputaste a culpa do teu erro. Animal que tanto direito à pura vida tinha, animal que para trás deixaste, inconsolado, ferido, amarrotado, acabrunhado pela tua rica humanidade. Pois agora te digo que esse animal vive ainda. Isto, eu sei que não te passaria por essa cabecinha morta. Vive graças ao amor com que os seus o resgataram, apesar de ter inúteis as patas dianteiras, e um desgraçado de um olho laminado pela tua falta de sensatez. Mas ele vive, vive feliz com o que tem, vive feliz porque tem a vida. Um enormíssimo compasso de silêncio se fez sentir no nevoeiro, até que recomeçou e finalizou de uma vez por todas a voz da morte do homem que tinha morrido. Pois então, meu homem morto, eis o que tenho para te dizer, Caso não almejes ser uma morte, uma voz de morte como eu sou de ti, e merecidamente, o teu único caminho será viveres par sempre no veado que a vida destruíste. É isso mesmo, homem, que é a ultima vez que assim te chamo, a escolha está nas tuas mortas mãos. Basta que apenas o penses, basta o teu simples sentir, que o teu destino tomará lugar. E após o discurso da voz da morte, o derradeiro discurso, nada aconteceu. Nada aconteceu até que o homem morto abriu os olhos. Parecia que nada tinha acontecido até que para suas próprias mãos olhou e nada viu, até que seu rosto tentou tocar e nada sentiu, e tentou andar e não se moveu. Branco e silêncio. Apenas brancura e silêncio. O homem que morreu quis chorar e nenhuma lágrima saia, nenhum sentimento remexia. Foi então que descobriu que para sempre deixara de ser Homem. Foi então que entendeu que seria para sempre, para sempre ou até certo dia, a voz da morte de alguém.

César Elias, 31 anos, escritor vimaranense. licenciado em Estudos Culturais pela Universidade do Minho, editou em 2010 “secretária antiga” (poesia), em 2012 “América” (romance), “A Cova da Moura”, (guião, bienal de Cerveira 2012). Publica contos, poemas e crónicas em alguns jornais.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.