Carta aberta aos jogadores do Vitória – Parte 2

Caro jogador do Vitória,

No sábado antes do árbitro apitar para o início do jogo nós seremos os vencidos, os perdedores, os derrotados… Os media estão a prever uma goleada, os adeptos estão cheios de dúvidas quanto a esta equipa (depois de “anos zero” atrás de “anos zero” ninguém nos pode culpar por termos medo do que aí vem) e acredito que até tu tens algumas dúvidas se seremos capazes de vencer, se seremos capazes de superar as expectativas elevadas que se criaram depois da época passada, mas eu estou aqui para te dizer não importa o que pensamos. O que importa é o quão bem tu vais jogar, o quanto a equipa vai lutar em campo e, no final de contas, vence quem tiver mais golos marcados quando o árbitro terminar o jogo.

Deixa-me contar-te uma história: em 1139 as tropas comandadas por D. Afonso Henriques (esse senhor que trazes ao peito todos os dias) venceram, mesmo em inferioridade numérica, o exército mouro comandado por 5 Reis. A batalha realizou-se num local que na altura estaria no território controlado pelos mouros, contra um numeroso contingente mouro, mas D. Afonso Henriques venceu-a contra todas as possibilidades.  Não importa se a venceu por proteção divina (como conta a lenda) ou pela valentia dos seus cavaleiros, a realidade é que a Batalha de Ourique se associa à história da aclamação de D. Afonso Henriques como Rei pela nobreza guerreira.  A vitória foi tamanha que D. Afonso Henriques resolveu autoproclamar-se Rei de Portugal.

Desde que David derrotou Golias que a História está cheia de momentos em que o underdog vence. Nada é garantido nesta vida. A vitória na Taça de Portugal não garante uma vitória ao Benfica no sábado. A equipa favorita nem sempre ganha. Quando eles relaxarem e baixarem a guarda, quando eles te derem como certo: joga, vai com tudo, corre, finta, vai em frente, acredita em ti e podemos ganhar. Porque nós podemos vencer e eles podem perder. Todos podem. Nenhuma equipa é invencível. Lembra-te disso.

Grandes momentos nascem de uma ótima oportunidade e no sábado terás a oportunidade de escrever o teu (nosso) nome na História do futebol nacional. Tens uma oportunidade de transformar a chuva em sol. Tens a oportunidade de fazer o que não conseguimos em 2011 e 2013 e de repetir o que foi feito em 1988. Tens a oportunidade de começar a época e de enfrentar a Europa como vencedor da Supertaça 2017. Tens a oportunidade de começar a escrever o “ano dois” e não mais um “ano zero”.

Foram 4 anos de jejum. 4 anos em que a bola persistia em não entrar na baliza do Benfica (acho que ainda não agradeci ao Zungu por ter quebrado a maldição – és grande). Foi difícil, mas sábado não é acerca do passado, não é acerca do futuro: apenas o agora tem importância. Estamos cansados de ouvir falar do quão invencível o Benfica é. Estamos cansados de ouvir que somos o candidato menos provável para ganhar. Estamos cansados de não ganhar, mas este jogo será diferente (acredito verdadeiramente que sim). Sábado é a tua (nossa) noite. É a noite de provares que estás no melhor clube do mundo, que nasceste para ser jogador de futebol e que mereces vestir a camisola do Rei.

Sábado deixa tudo em campo. Sábado a sede de vencer tem de ser tão forte como a necessidade de respirar. Sábado corre atrás de cada bola como se estivesses a correr atrás do teu sonho (ou como se um dragão te estivesse a perseguir – o que quer que seja que te faça correr mais rápido), cruza como se a bola fosse a mensagem essencial para o futuro da humanidade e estivesse dependente de ti para chegar ao seu devido destinatário, defende com o se a baliza fosse a tua casa e o adversário os invasores. Vai, corre, luta: quem resiste, sempre vence. Sábado “põe quanto és no mínimo que fazes” (o Fernando Pessoa dá sempre bons conselhos).

Sábado deixa-os saber que és um Conquistador, rasga o tempo, ergue as armas e segue D. Afonso Henriques campo fora. Não deixes nenhuma dúvida, deixa-os com a certeza de que estão a jogar com a melhor equipa do mundo.

Ouve o grito, ouve a voz da tua gente. Nós faremos a nossa parte nas bancadas, nós vamos apoiar-te 90 minutos sem parar (mais se for preciso – tens tempo, o jogo é num sábado, portanto ninguém tem pressa de se vir embora), mas o marcador e o que acontece em campo acabará sempre por depender unicamente de ti: do teu talento, esforço e dedicação, do teu amor à camisola e da tua capacidade de jogar em equipa. Lembra-te que a união faz a força e que só unidos conseguimos vencer.

Não é fácil pedir a uma equipa que perdeu elementos fulcrais e que está a acolher novos elementos que joguem com a mesma simbiose que na época passada, mas espero sinceramente que o consigam.

Esta é uma batalha singular, aquela em que tens de deixar tudo em campo. A batalha em que nos vamos reerguer e mostrar que o sucesso do ano passado não foi fruto do acaso, mas sim de muito trabalho, estratégia e planeamento. Está é uma batalha pela chuva e pelo sol, pelo preto e pelo branco. Esta é a batalha que transformará a chuva em sol! Nós somos os Conquistadores com cicatrizes de batalhas passadas. Olha para essas cicatrizes com orgulho e permite que elas te deem ainda mais força para lutar. Este é o momento de lutar, de acreditar, de GANHAR.

Sábado, 5 de Agosto de 2017, é o dia de escreveres o teu nome na História do Vitória. O dia de te juntares a nomes imortais como Neno, Nando, N’Dinga e António Carvalho que em 1988 alcançaram a glória com o feito mítico de conquistar aquele que por muitos anos seria o único troféu nacional no museu do Vitória. Aquele troféu que fez gerações sonharem. Sábado é o dia de seres um dos elementos fulcrais para que o nome do Vitória volte a ser gravado naquele troféu.

Lembra-te, sábado é o dia em que nós vamos ganhar. É o dia em que escreverás o nome do Vitória no mural da fama, o dia em que o mundo vai saber o nosso nome.

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.