Diana, Diana, Diana

Na Virgindade do Ar

E se alguém me dissesse que assistir a um filme, ainda que mais ou menos bom, na liberdade do espaço, na virgindade do ar, seja não mais do que uma indubitável desculpa para ter as pessoas bem perto, eu acreditaria.

Isso, aqui pela terra, é já mais do que um culto ou uma boa tradição. É uma necessidade austera.

Recebi o convite para o cinema ao ar livre numa mensagem de uma aplicação. Eu que até pensava ser possível que batessem à porta para tal solicitude. Que inocência a minha. Mas tudo bem. A duríssima realidade é que se a felicidade se transformasse num lençol, ou na manta de uma poltrona, ou numa casa recheada, grande parte de nós seria verdadeiramente feliz. E que bastasse um pequeno livro de ler ou de Sudoku para o desenjoo de tanta coisa boa a acontecer na simples atitude de nada se fazer.

O cinema fresco tem essa coisa ainda melhor. A preguiça alérgica e contagiante fica detida ao fim  da rua pelo polícia do ressentimento e da vergonha, e lá se pode libertar no regresso vagaroso até casa, não vá o sono faltar.

O cinema que se perde no vento tem o dom de obrigar àqueles sorrisos dormentes, bons, mas que não nos podem distrair das falas trémulas da película e das legendas baças. Tem o dom de nos fazer rodar o pescoço e afagar a quietude dos outros com a rapidez das pálpebras. Ouvir as histórias que contam uns e contam outros, histórias que nos chegam ao entendimento muito distorcidas e alheias mas que nos reconfortam a noite.

Hoje recebi com bom grado o convite para o cinema. Foi uma noite boa e quente. Regresso sem ter que salvar nenhum ressentimento detido, que sono, ora essa, quase me falta nunca. Talvez hoje deslaçarei, finalmente, um dos envelopes com o meu nome.

César Elias, 31 anos, escritor vimaranense. licenciado em Estudos Culturais pela Universidade do Minho, editou em 2010 “secretária antiga” (poesia), em 2012 “América” (romance), “A Cova da Moura”, (guião, bienal de Cerveira 2012). Publica contos, poemas e crónicas em alguns jornais.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.