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Li, que, com a reeleição de Domingos Bragança e o reforço da maioria absoluta do partido Socialista na Câmara do Município de Guimarães, se viveu a festa da democracia. Com alguma distância, a leitura dos factos leva-nos a perguntar se antes não se deu a festa do populismo e da demagogia. Entre cartazes e lonas, entrevistas nas rádios, nos jornais e nas televisões, a campanha eleitoral atingiu dimensões de comunicação nunca vistas a nível local. As redes sociais ampliaram os efeitos comunicacionais, e aí, os indivíduos digladiaram-se no seio de discussões que, em muitos casos se ficaram por considerações partidárias que em nada favoreceu o debate sobre o projeto para o conselho. Há que lembrar, também, o contexto nacional que ajudou a consolidar o voto útil no PS por exclusão da direita em coligação.

Agora, assumido que está o respeito pelo resultado eleitoral, surgem algumas questões que emergem da consideração da forma como se desenvolveu a campanha eleitoral, dos resultados eleitorais e de alguns acontecimentos posteriores às eleições que, inevitavelmente, terão efeitos no debate futuro.

Assim, relembrando a campanha e os meios que serviram para influenciar o voto, concluímos que em algumas circunstâncias a campanha foi pouco ortodoxa, sobretudo se pensarmos que, ao político compete convencer e não manipular. Verificamos, então, que o Partido Socialista, a exercer o poder na autarquia, decidiu poucos dias antes das eleições, com a chancela da autoridade administrativa que lhe era conferida, distribuir ingressos gratuitos para um jogo de futebol. Por muito oportuna que possa ter sido a medida para os beneficiários, é no mínimo um ato de honestidade intelectual, admitir que tal prática é manipuladora e tem por objetivo influenciar o voto. No limite, não seria um problema se todos os candidatos estivessem em igualdade de circunstâncias e pudessem utilizar os meios públicos como o foi o orçamento da Câmara Municipal. Outro facto, não inédito, mas espantoso, é o de um candidato a uma junta de freguesia distribuir notas-moeda à boca das urnas, acontecimento que consta em ata da Comissão Nacional de Eleições. Mais difícil, mas a observar mais atentamente em próximas eleições, seria, agora, comprovar o efeito da propaganda institucional da Câmara Municipal em período pré-eleitoral. Em resumo, quem está no poder parte indubitavelmente em vantagem.

Os resultados eleitorais confirmam a clivagem que se assiste há anos no conselho entre a população do miolo urbano, onde não ganha o PS, e das restantes freguesias. Essa diferenciação, expressa, na tendência de voto não é recente e foi sempre explicada através dos perfis socioeconómicos, de idade e tradição política. Já lá vão quase trinta anos. Será que esses factores continuam, por si só, a explicar a diferença de resultados?

É muito provável que o discurso político tenda a explorar essa clivagem. É assim há muitos anos, pois na probabilidade de um resultado eleitoral desfavorável no miolo urbano, foi assegurada a base leitoral do PS nas freguesias da periferia. Esse objetivo, exemplarmente capturado por Domingos Bragança chegou para garantiu a sua ascensão a líder do PS e sucessor de António Magalhães. Nesse trabalho político, qual é o discurso proferido, em que se centra, o que se promete?

Mas os projetos sufragados de maior impacto no devir do município situam-se no miolo urbano. Sem desmerecer as necessidades de outras zonas do concelho, e são muitas, os projetos para a cidade terão um impacto irreversível que mudará a paisagem, os percursos, intensificará determinados sectores de actividade em detrimento de outros e transformará a forma de vida dos habitantes do miolo urbano histórico, com grande impacto nas zonas tampão. Pergunta-se se para melhor. Se atendermos à extrema escassez de habitação que se impõe, a resposta é não. Haverá outros resultados relativamente positivos na intensificação do turismo. Mas a que preço? Esse será o debate que se seguirá.

A título ilustrativo, o projeto iniciado do parque de estacionamento para o quarteirão Camões/Caldeiroa/Liberdade, ficará como o marco a partir do qual nada do que foi dito deve ser tido em conta. O discurso oficial centrado na necessidade de estacionamento foi uma mentira servida de entrada, até para aqueles de fora a quem se defendeu o direito a disfrutar da cidade, porque o prato principal, afinal, surge com o arranque da conversão da zona envolvente de acordo com o interesse imobiliário especulativo, intensificado pela retoma económica. Não seria um drama se o discurso tivesse sido pautado pela verdade, pela honestidade.  Ora hoje, sabe-se que não o foi ou as lideranças entenderam que os cidadãos não seriam capazes de perceber os factos, uma vez que foi sonegada informação relevante sobre o processo. Esse último aspecto reveste-se de um paternalismo de outros tempos, inaceitável. Sabemos, também, que a construção do Pingo Doce adjacente à ilha de Vila Verde também mereceu reparos por entidades oficiais e que, afinal, essa construção foi defendida já em 2012, quando a Câmara Municipal tão propagava a intenção de recuperar a zona de Couros e da sua candidatura a Património da humanidade. Hoje percebo, que tudo não passou de um jogo de forças entre vários lóbis. E pergunto-me desde quando ficou decidido preferir o interesse imobiliário e não qualificar a zona de Couros como zona protegida para a tal candidatura à UNESCO? A festa da democracia reduzida a populismo, pode ter assinado de cruz.

Paula Magalhães, licenciada em Ciências Económicas e Empresariais, contabilista, professora e formadora para as áreas de formação de Economia e Contabilidade, foi, entre outras intervenções políticas, deputada municipal na Assembleia Municipal de Guimarães, colaborou na redação do jornal O Povo de Guimarães, desde 1989 até ao seu desaparecimento, foi ainda diretora e presidente da direção da cooperativa, já extinta, O Povo de Guimarães, CRL.