O REVISIONISMO HISTÓRICO CHEGOU ÀS FESTAS DE SÃO NICOLAU

Hoje, a caminho de Braga, vi-me confrontado com uma pergunta:

– Qual é a origem do Traje dos estudantes de Guimarães?

De início, e por achar que seria mais comum as pessoas questionarem-se acerca das origens do chamado “traje de trabalho”, principiei logo por esse lado. Fui imediatamente ‘corrigido’:

– Não! Não é a desse. Refiro-me ao Traje da Capa e Batina.

Fiquei muito baralhado. Como, origem?, questionei. A resposta veio de seguida:

– Tive uma grande ‘discussão’. Tem sido dito, em certos círculos, que as Nicolinas são uma versão fraudulenta da Tradição de Coimbra, que o Traje é uma cópia e que as Festas foram criadas por ronha de não haver cá algo parecido.

Que parvoíce! As ideias que me passaram pela cabeça foram tantas, mas, depois, lá me recompus. Há gente que não tem o que fazer ao tempo.

No ano passado, li num jornal afecto à Universidade do Minho uma entrevista feita ao proprietário da Tasca Expresso, em Guimarães. O Senhor disse só haver cinco pessoas ‘autorizadas’ a falar sobre as Nicolinas. Ainda que só existissem cinco, vou permitir-me citar duas (que caberiam, de caras, nessa tal contagem):

“Um outro estereótipo recorrente, que, pelos vistos, também é absorvido por investigadores que procuram analisar o fenómeno das Nicolinas, é aquele que relaciona a origem das festas dos estudantes de Guimarães com as dos estudantes da Universidade de Coimbra. Não me parece que isto faça muito sentido. As festas de Guimarães são muito mais antigas do que as de Coimbra, que terão começado em meados do séc. XIX, e não se perfilam na linha das festas das velhas universidades europeias, mas sim nas tradições com que os meninos do coro das antigas catedrais celebravam o seu patrono, S. Nicolau.”

António Amaro das Neves (retirado de “Memórias de Araduca”)

“O TRAJE ACADÉMICO EM GUIMARÃES (FESTAS NICOLINAS)  

Em Guimarães preserva-se o uso do Traje Académico Português pelos alunos do ensino secundário. Assim mantém esta cidade mais uma tradição que se perdeu em todos os outros pontos do país.

O traje dos alunos vimaranenses não é mais que aquele vulgarmente designado por capa e batina.

A Cidade-berço é dos poucos locais em que se mantém o uso desse traje pelos alunos do secundário, costume que foi já usual noutros Liceus/escolas secundárias, mas que entretanto se perdeu (*). 

Desfaçam-se ideias feitas:

O traje é académico, não é só universitário!

O traje é nacional, não é só de Coimbra ou do Porto!

O traje académico é uno!

 O costume do uso do traje é atestado pelo Ministérios da Instrução Pública, aos 12 de Novembro de 1924, no decreto n.º 10:290 que afirma no seu artigo 1º ser “permitido aos estudantes de ambos os sexos das Universidades, liceus e escolas superiores o uso da capa e batina, segundo o modelo tradicional, como traje de uso escolar”. O mesmo decreto avança ainda que “a todas as pessoas que indevidamente enverguem capa e batina são aplicadas as sanções estabelecidas pela legislação penal para o uso ilegítimo de uniformes, fardamentos e distintivos”. 

Em Guimarães onde se realizam as Festas Nicolinas, as mais antigas festas académicas do país, o trajar assume, desde sempre, um significado especial. Nos dias que correm, o uso do traje no ensino secundário limita-se praticamente à Comissão de Festas Nicolinas, que procura respeitar o cânone, embora, como veremos, em situações específicas, haja variantes no seu uso.

No Cortejo do Pinheiro que congrega novos e velhos estudantes nicolinos vimaranenses, é usual ver-se antigos alunos envergarem a sua velha capa de veterano e a mitra na cabeça.

(*)O outro exemplo conhecido é o da Tuna do Liceu de Évora que enverga o traje nas suas atuações.” 

Miguel Bastos (retirado de http://www.nicolinos.pt)

Com estas duas citações (ou partes delas), construí o meu raciocínio para responder quer à pergunta original, quer à tentativa de revisionismo histórico de que se fala. Não é preciso mais.

As Nicolinas são, sem sombra ou margem para dúvidas, as Festas estudantis mais originais deste país, Talvez não fosse má ideia aos desdenhosos dedicarem-se a outras assimilações mais verosímeis. Ficam aqui alguns exemplos:

– A vinda da praxe e do álcool (a rodos) para o seio das Festas após a massificação do ensino superior;

– A semelhança entre o Fado de Coimbra e as Festas Nicolinas (costumes populares);

– O Traje ‘tricórnio’ ficcionado;

– A antiguidade da Associação Escolástica Vimaranense em contraponto à da Associação Académica de Coimbra;

A escolha é farta.

Paulo César Gonçalves, Dramaturgo

NOTA SEGUNDA: Por expressa decisão do autor, este texto não obedece às normas do novo acordo ortográfico da Língua Portuguesa.