GUIMARÃES

Guimarães tira-me do sério. Todos os dias. O trânsito é, para a dimensão da cidade, caótico. Guimarães não faz tudo o que pode pelo seu potencial. Guimarães, refém de uma moda passageira, exibe as cores da saia alheia, ansiosa por validação externa. Guimarães tem, amiúde, vergonha do que é seu porque quer ser, à força toda, algo que, marcadamente, não é.

Guimarães não consegue distinguir entre bairrismo saudável e tacanhez grosseira. Guimarães é, dizem-nos, má mãe (e boa madrasta).

Contudo, Guimarães, Terra onde começa a Terra, é um Amor que nos come as vísceras. Dizemos mal de Guimarães, mas não queremos que outros o façam.

Guimarães, com o seu corpo de granito, desafia os invernos. Guimarães, Coração de Portugal, Avó do Mundo e do Horizonte, não se esgota. Porque não pode (e duvido que o quisesse).

Em Guimarães, as crianças são filhas de Novembro: Nascem munidas de invisíveis baquetas, tocando, logo de berço, a música que um dia lhes preencherá a Alma.

Guimarães segue, de geração em geração, o seu trilho de sonho desassossegado, missão às cavalitas do destino.

Guimarães existe para que se saiba que é possível haver um lugar que habita nas veias de um povo, para o bem e para o mal.

Paulo César Gonçalves, Dramaturgo

NOTA SEGUNDA: Por expressa decisão do autor, este texto não obedece às normas do novo acordo ortográfico da Língua Portuguesa.