Dia da Mulher

Num dos primeiros casamentos em que fui, ouvi alguém a cumprimentar o noivo com palmadinhas nas costas e a dizer qualquer coisa como “vais-te enforcar, pah! A vida boa acabou!” E risos, muitos risos. Com a noiva, o discurso era o oposto, toda a gente dá os parabéns, emociona-se, diz-lhe que parece uma princesa e que a sua vida está a começar agora.

A noiva era pouco mais velha do que eu, por isso, muito nova. Saía da casa da mãe e ia “tomar conta” de uma nova casa – teria a sua casa. O noivo saía da casa da mãe e ia para a casa da mulher, mas de algum modo, era a “boa vida” dele que acabava ali.  Havia ali alguma coisa que não me parecia bem.

No artigo publicado o ano passado, mesmo antes da eleição do Donald Trump, revela-se que em 2009 o número de mulheres solteiras (aqui inclui-se as que nunca casaram, divorciadas, separadas e viúvas) é maior do que o número de mulheres casadas pela primeira vez na história.

Os movimentos feministas ao longo dos anos trouxeram imensos avanços legislativos e sociais para as mulheres, casadas ou solteiras. Hoje, as mulheres não precisam de casar para terem estabilidade económica, também não têm de estar sobre a alçada de um pai ou de um marido, podem viver sozinhas, têm direito à propriedade e podem trabalhar. Em suma, podem escolher estar solteiras ou casadas.

Para além das questões amplamente discutidas no que diz respeito ao casamento, estudos revelam que o casamento não é um bom negócio para as mulheres, pelo menos no que toca às suas carreiras. Estudos do outro lado do Atlântico, mostram-nos que o casamento – ao contrário dos homens – torna a progressão na carreira das mulheres casadas mais lenta do que as carreiras das mulheres solteiras. O mesmo acontece quando falamos na maternidade. Ao contrário dos homens, que tendencialmente ganham mais quando são pais, as mulheres vêm os seus rendimentos diminuírem à medida que têm filhos. Quando as carreiras colidem, há também a questão de qual deve ser salvaguardada. A norma é a mulher subordinar-se às escolhas profissionais dos parceiros em detrimentos dos seus próprios recursos profissionais.

Muitos anos passaram desde aquela primeira ida a um casamento, mas a estranheza continua presente. Num casamento, o papel e as expectativas que há sobre cada um são muito diferentes e, para não variar, a mulher normalmente não fica com o melhor prato.

O machismo continua bem presente e impregnado em nós e em todas as nossas acções. Hoje, o dia em que se comemora a luta das mulheres para a igualdade de direitos civis, económicos e sociais, não precisamos de ser tratadas como princesas, com rosas e jantares foras. Precisamos de não ser penalizadas por sermos mulheres ou por sermos mães profissionalmente. Precisamos de nos lembrar que somos guerreiras e que a luta continua para que todos, homens e mulheres, consigamos construir uma sociedade mais justa e mais igualitária.

Luísa Alvão, 33 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha como programadora e produtora do Shortcutz Guimarães. É também fundadora e presidente da Capivara Azul – Associação Cultural.