As eleições em Itália e a União Europeia

Todos os que acompanham a evolução da política na União Europeia têm consciência das enormes fragilidades que ela revela, em vários domínios. Na defesa, após o Brexit e a consequente saída do Reino Unido, a União Europeia viu fragilizada a sua capacidade defensiva. Na concertação de políticas comuns, o seu núcleo duro já não consegue impor-se aos que não respeitam as medidas antes consensualizadas no seu seio. É disto exemplo bastante a conduta de alguns países nórdicos e da Europa de Leste.

As pretensões de E. Macron, que procurou a parceria da Sra. Merkel, temporariamente incapaz de decidir, amarrada durante meses, em busca de uma solução governativa, mostram-se frágeis para levar por diante um projeto de reabilitação do poder na União Europeia. Aguardava-se, com expectativa, o resultado das eleições Italianas que, a serem ganhas pelas forças político-partidárias consonantes com a estratégia de E. Macron e da Sra. Merkel, fariam renascer as capacidades que a União Europeia já revelou e que, hoje tão dividida, não possui.

Em Itália, a vontade dos seus eleitores surpreendeu, como tantas vezes aconteceu ao longo da sua história recente, e não cumpriu a estratégia antecipada por E. Macron e a Sra. Merkel. Os propósitos anteriormente delineados pelo eixo Paris-Berlim não se viram ali sufragados e ruíram fragorosamente com os resultados eleitorais do passado dia 4 de março.

Os resultados eleitorais em Itália estão “alinhados” com que se passa na Europa e no mundo. De facto, caminha-se a passos largos para a criação de condições para a constituição de regimes autocráticos. Os valores que fizeram da Europa e, particularmente, os valores fundamentais em que se suporta a União Europeia estão a ser abandonados, até pelos seus originais defensores. À democracia opõe-se a autocracia, à solidariedade opõe-se a avareza, à fraternidade opõe-se o egoísmo. Quo vadis, Europa?

 A Europa está militarmente desprotegida, após a subida de Trump ao poder, nos Estados Unidos, e a consequente perda de capacidade militar da NATO. E mais frágil ainda se tornou com um BREXIT, agora mal amado por muitos cidadãos britânicos, que receiam o seu futuro num Reino Unido fora da União Europeia. Os efeitos destas situações novas e inusitadas interferem já, de uma forma evidente, nesta instabilidade larvar, reinante nos países do velho continente.

Putin dá-se ao luxo de mexer nas pedras do seu tabuleiro, como bem quer e entende, já que sente a Europa tão esvaída de força. Esvaída de força de ideias e de ideais, de poder e de união. Fê-lo ontem na Crimeia, e fá-lo agora também na Síria, onde todos parecem querer assentar arraiais. Uns e outros, afinal todos dão ao mundo uma imagem de profundo desprezo pela vida humana, trocando tamanha crueldade pela afirmação de interesses estratégicos que todos querem assegurar naquela região para, na hora certa, fazerem o “assalto” final à Europa. A Síria é um mero palco de guerra de ensaio para uns e outros medirem forças.

As populações de África e de alguns países do Médio Oriente fogem à fome, à guerra, à seca, à doença, à insegurança, ao medo no seu sentido lato. Têm da Europa a imagem do paraíso. E surgem aos milhares agora, mas, de acordo com as previsões de especialistas, em poucos anos, serão milhões. Este êxodo e a consequente “invasão” dos países europeus destes milhões de refugiados, abalam as suas frágeis e impreparadas estruturas, despertando a intolerância e a rejeição por parte dos cidadãos europeus.

Dada a sua localização, a Itália é, neste particular, um país estratégico para se percecionar as sensibilidades dos povos e países europeus. As eleições do passado dia 4 de março, ainda que venham a ter que ser repetidas, deixam-nos a certeza de que a maioria dos seus eleitores conflitua com a política europeia de acolhimento dos refugiados. Para arquitetar um projeto, ainda que defensivo, no seio da União Europeia, para arrostar com os problemas que aí virão, a União Europeia não pode contar com a Itália, tal como se pode inferir dos recentes resultados eleitorais.

Daqui resulta que a importância da Itália na lógica do trabalho tentado por E. Macron e pela Sra. Merkel perdeu-se com os resultados eleitorais recentes. Estes impõem àqueles governantes europeus uma nova estratégia para consolidar a visão e o poder de uma União Europeia que, organizada, ainda terá voz, força e prestígio, à escala mundial.

António Magalhães, 72 anos, foi presidente da Assembleia Municipal de Guimarães no mandato 2013-2017. Liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).