Do lado feminino da luta

O Dia Internacional da Mulher transformou-se num momento de jantares femininos, de descontos e ofertas nas lojas e de entrega de flores e chocolates. Não tenho nada contra o convívio saudável e se a mesa estiver cheia de mulheres de certeza que acaba em festa e gargalhadas.

Mas eu, as flores, prefiro os cravos, acompanhadas com as palavras de ordem que gritamos na rua para relembrar os direitos que ainda não foram conquistados. O direito a um salário digno, o direito a menos horas de trabalho, o direito a acompanhar a família, o direito à participação cívica, o direito à maternidade, todos os direitos que ainda não foram conquistados e que deveriam ser direitos adquiridos à nascença.

Por isso, é importante continuarmos a lutar nos 365 dias do ano, mas no dia 8 de Março é o momento em que gritamos mais forte e aproveitamos os holofotes das estatísticas.

Estatísticas tristes que alguns optam por ignorar, e que mostram o fosso que Portugal cava cada vez mais na diferença que existe entre o salário dos homens e das mulheres para a mesma tarefa. Para além disso são as mulheres que mais sofrem com o desemprego, e com o desemprego de longa duração. As trabalhadoras vêm o seu trabalho a ser desvalorizado de dia para dia com o salário mínimo que lhes é pago durante 30 e 40 anos na mesma profissão, e com a experiência e a capacidade de trabalho deitada ao desprezo pelo patronato.

É necessário alcançar a igualdade nas diferenças naturais entre mulheres e homens. Pensamos nos cargos de chefia e de direcção, hoje tão em moda, mas pensamos primeiro nas mulheres que sofrem com os salários baixos, os contratos precários e a impossibilidade de proporcionar uma vida melhor aos seus filhos.

Apesar dos avanços conquistados no que ao lugar da mulher na sociedade diz respeito, muito caminho há ainda para percorrer. Um caminho que se quer, sobretudo, de igualdade na legislação e na vida, no trabalho, no lazer.

Noutro campo, infelizmente, depois de muitas lutas, de muitas campanhas, de muitos anúncios de medidas contra a violência doméstica, os números de mulheres vítimas de namorados e maridos continua a ser elevado. Demasiado elevado, intolerável é o número de mulheres que perdem a vida nas mãos dos seus companheiros.

Razões bastantes para que neste 10 de Março de 2018, quando me lerem, eu estar na Manifestação Nacional de Mulheres, promovida pelo Movimento Democrático de Mulheres, nos Restauradores, em Lisboa, ombro a ombro com um enorme grupo de mulheres que não desistem das lutas que as mulheres enfrentam todos os dias, nos seus locais de trabalho, nas escolas enquanto alunas, nas ruas onde muitas vezes se sentem inseguras e vulneráveis por serem mulheres, afirmando que essa luta tem valido a pena!

Para que as dúvidas não se perpetuem em declarações inconsequentes sobre o lugar da mulher, até porque o lugar da mulher, e do homem, é onde cada um quiser. Isso sim, é que é igualdade e é por isso que continuaremos a celebrar o Dia Internacional da Mulher.

Mariana Silva, 34 anos, licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos, na Universidade do Minho. É eleita na Assembleia Municipal de Guimarães desde 2009, eleita na Assembleia da União de Freguesias Oliveira do Castelo, São Paio e São Sebastião desde 2013 e membro do Conselho Nacional do Partido Ecologista “Os Verdes”.
Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.