«Lo que toca, toca!»

 

Acordo a pensar no treino. Aliás, deitei-me a pensar nele! Dormi com e sobre ele! Investi as horas de sono num empréstimo a fundo perdido. Acordo a pensar no treino. Tomo o pequeno-almoço a pensar no treino. Treino a pensar no treino e, quando colocar uma das outras máscaras do quotidiano (esposa, filha, amiga, professora, dona de casa, paciente, …), continuo a pensar no treino. E voltarei a deitar-me com ele.

Houve um tempo em que os dias eram preenchidos por esse T. O plano de treino converteu-se n’ O plano de Vida. Todas as decisões, mesmo as mais profundas, aquelas sobre a família e a carreira, tiveram o T no leme. Tinha a convicta certeza de que chegaria a bom porto e de que a sorte me daria muito trabalho a conquistar.

Depois vieram as circunstâncias e o mundo como ele é! E aí, o que fazer?

Não posso mudar nenhum dos dois. «Lo que toca, toca!» Não posso mudar as circunstâncias mas sei que não quero ser refém delas. Não posso mudar o mundo como ele é de uma só vez mas posso erodi-lo.

O que acontece é que nada disto é tão simples de praticar quanto de escrever. A Psicologia Cognitiva é muito bonita e encanta mas acordar, ter força para sair da cama, passou a ser o primeiro desafio do dia a ultrapassar e não há “powerbank” que supere 15h de atividade quando o chip fundiu.

Eu não achava que ser atleta fosse mais exigente do que ser mãe ou pai. Nunca sobrevalorizei o esforço dum atleta em detrimento do do varredor do lixo, do sapateiro, do médico ou do astronauta. Eu sempre achei que tudo se media pela atitude: a responsabilidade, o mérito, o valor seriam medidos pelo nível do compromisso assumido e respeitado. Eu não achava… Até que o chip fundiu!

O chip fundiu. Aqueles «30.000 vatios» que me caracterizavam, aquele ânimo que é quem sou, aquela feminina vontade, já não tinham forças para sair do leito e desejava dias rápidos preenchidos de horas cheias de nada, de tarefa nenhuma, de treino algum, de uma aula que fosse, zero encontros ou jantares de sábado n’O Oriente.

Mas o que faz um atleta quando o chip funde? Faz o que fazem As-Pessoas-Grandes. «Lo que toca, toca!» Há que fazer o que tem que ser feito! Eu sei-o e enquanto o saiba sou eu que estou no leme. Morram as ratazanas que eu sei onde é o porto! Não quero desculpas. Não para mim! Das justificações fiz a força de procurar a ajuda porque eu não quero estar doente! Estar doente é não ser atleta, não ser esposa, não ser filha, amiga, professora, dona de casa, … Estar doente é não ir a «30.000» e ter uma cara de melão.

Eu escolhi ser atleta e podia ter sido outra coisa qualquer. Eu escolhi ser atleta! Não ser a louca da casa! Pensar sem estar doente dos olhos! Eu escolhi dizer não às desculpas e às enfermidades, seguir de sorriso largo, de bem com a vida, agradecida pelo que e por aqueles com quem me cruzo.

E tu, o que escolheste para ti?

Ilda Pereira (http://ildapereira.com), 36 anos, licenciada em Ensino de Português e Inglês, na Universidade do Minho, e em Artes, na Escola Superior Artística de Guimarães. Foi oficial da Força Aérea e é corredora internacional de ciclismo desde 2010.