As pessoas na sala de jantar.

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A estranheza começou quando era pequenina e entrava em casas estranhas. Não havia estantes com livros, discos, posters, nada. O vazio. Depois fui crescendo e reparando em pessoas, na sua rotina diária.

Crescer, estudar, trabalhar, comprar carro, casar, ter filhos e envelhecer. Trabalhar sobretudo. Pessoas que não “trabalham muito” são muito mal vistas. Além de trabalhar o necessário, é preciso trabalhar mais. Produzirmos sem parar. Sermos o viciados no trabalho.

Não termos tempo para nós, para a família, para os amigos, dizem que é assim a vida adulta. Trabalhamos para podermos comprar casa e carro, para podermos passar as nossos 15 dias de férias como reis. O resto do ano vivemos como formiguinhas. É assim que nos ensinam desde pequeninos, não é?

Depois de carro comprado, empréstimo da casa a meio, importa começar a poupar para os dias de reforma. Ambição é termos a conta bancária recheada, o carro último modelo, o iCoisa último modelo, o plasma cada vez maior e em 8K. Termos coisas, portanto, muitas coisas.

Durante isto, a vitalidade da juventude esvai-se. Onde no meio disto demos tempo a nós próprios para gozarmos da família e dos amigos, para explorarmos as nossas paixões, para nos tratarmos bem, ou mesmo para nos darmos ao luxo do ócio?

A vida não é uma corrida. Convém aproveitar bem enquanto cá estamos. Rodearmo-nos de quem gostamos, aproveitarmos os amigos e a nossa família. Experimentarmos coisas novas, rirmos, cantarmos, dançarmos e explorarmos as nossas paixões. Passearmos, nadarmos, aproveitar a natureza e tudo de bom que ela tem para nos dar.

Senão, seremos apenas “pessoas na sala de jantar ocupadas em nascer e morrer”.

Luísa Alvão, 33 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha como programadora e produtora do Shortcutz Guimarães. É também fundadora e presidente da Capivara Azul – Associação Cultural.

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