O centésimo aniversário da Batalha de La Lys

Em meados da segunda década do século XX (1914) eclodiu a Primeira Guerra Mundial, que envolveu países de vários continentes e que tomou proporções de catástrofe até aí nunca vistas. Portugal, que se manteve neutral durante os primeiros anos da mesma, apesar das divergências no seio do governo republicano de então, pressionado pela Inglaterra, eterno aliado, acabou por participar nela enviando um contingente militar. Esta força era tutelada pelas forças militares Inglesas, sendo instalada na frente da Flandres, reforçando os Aliados do outro lado do Canal da Mancha.

Sem querer ser exaustivo, convém referir que a preparação militar do nosso contingente foi apressada e pouco profissional. Para além da falta de preparação militar, as nossas tropas não dispunham de armamento adequado, não possuíam fardamento capaz e nem sequer tinham rações de combate fundamentais numa guerra com as características daquela. Algumas destas fragilidades foram supridas pelas autoridades militares Inglesas. Todavia nem isso permitiu suprir tantas fragilidades evidenciadas pelas nossas tropas, sobretudo na frente de batalha.

O terreno onde combateram, numa linha da frente maioritariamente defendida pelos Ingleses, revelou-se um obstáculo tremendo para os nossos homens, dadas as suas características morfológicas e climatéricas. O clima inclemente que foram encontrar e a que não estavam, de todo, habituados, fragilizou-os de tal forma, provocando centenas de baixas, vítimas de todo o tipo de doenças. A acrescer a isto, não havia rotação do contingente, o que originou um enfraquecimento continuado e deserções de toda a natureza. O desânimo tomou conta das fileiras das nossas tropas.

Apesar de todas as vulnerabilidades, os primeiros recontros, segundo vários historiadores, não provocaram marcas muito significativas no contingente Português. Porém, com o decorrer do tempo, as fragilidades foram-se acentuando e agravando e, ao ver as tropas Inglesas serem rendidas, a moral dos Portugueses fraquejava dando origem, aqui e ali, a sublevações de mal-estar.

Até que a rendição tão esperada do nosso contingente da linha da frente foi marcada, precisamente para dia 9 de abril de 1918. Nos dias que antecederam esta fatídica data, os nossos soldados prepararam-se para a rendição. Encaixotaram armas, munições, mapas, e outro material de guerra que possuíam. A frente Alemã distava da frente Anglo-Portuguesa entre cem e quatrocentos metros. Os Alemães, ou porque tivessem observado o inusitado comportamento das nossas tropas, ou por informação dos soldados Portugueses desertores, ou mesmo por informação de Franceses, conforme alguns historiadores, resolveram atacar na hora de maior vulnerabilidade das tropas opositoras. Para agravar a já de si grave situação, na manhã de 9 de abril um intenso nevoeiro abateu-se sobre toda a região. Estavam criadas todas as condições para um ataque eficaz das tropas Alemãs.

O historiador Português, Filipe de Meneses, a viver na Irlanda, estudioso do tema há já vinte e cinco anos, cruzou dados recolhidos na Inglaterra e em Portugal. Na sua obra “De Lisboa a La Lys”, Filipe de Meneses afirma que os Portugueses tiveram um comportamento digno nos pequenos recontros que foram travando com as forças inimigas e aí aprenderam a fazer a guerra. Reconhece, porém, que para a dimensão da ofensiva da batalha de La Lys, pelas razões atrás invocadas e pelos repetidos ataques do contingente Alemão, não tiveram quaisquer hipóteses para se lhes oporem.

A maioria dos historiadores descreve a derrota dos Portugueses como clamorosa, praticamente sem resistência. Ao fim de pouco tempo o nosso contingente foi destroçado no campo de batalha, deixando centenas de mortes e milhares de prisioneiros às mãos do inimigo. O historiador já citado, ao contrário de outros, não aceita que o desastre militar de La Lys tenha sido uma vergonha nacional, antes prefere designá-lo como “um fenómeno que aconteceu”.

Este curto texto não pretende fazer História, já que a matéria tem sido objeto de estudo de vários historiadores de diferentes nacionalidades e de reconhecido mérito. No centésimo aniversário da Batalha de La Lys quero prestar uma homenagem aos homens que serviram a pátria e a causa das forças aliadas. Dentre estes, uma especial evocação ao soldado Brás de Oliveira, meu tio paterno, natural da freguesia de Fermentões, Guimarães, que, ainda menino, conheci numa cadeira de rodas. Dele ouvi as memórias dos horrores que os soldados, como ele, então viveram na frente da Flandres, ao mesmo tempo que não escondia laivos de vaidade pelas suas prestações no combate ao inimigo Alemão.

As nações, e Portugal também, por vezes esquecem-se dos seus filhos que deram a vida ou sacrificaram a juventude e a saúde pela Pátria. Ao evocar a Batalha de La Lys não calamos a memória e prestamos homenagem, ainda que singela, aos milhares de soldados que nela participaram.

António Magalhães, 72 anos, foi presidente da Assembleia Municipal de Guimarães no mandato 2013-2017. Liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).