A ressurreição do comércio

Íamos ao centro da cidade comprar os livros novos para o ano lectivo que começava, comprávamos as roupas novas para o Natal e a Páscoa, percorríamos as ruas a ver montras coloridas de novidades. Todas as compras se faziam naquelas ruas num passado recente, que as minhas memórias não são assim tão longínquas no tempo.

Depois saíram os habitantes, as casas foram ficando vazias de moradores nas ruas mais movimentadas de Guimarães. Depois, em consequência disso, fecharam as padarias, as pequenas mercearias, o comércio de proximidade.

Mais tarde as opções políticas passaram por afastar o mercado dos produtos frescos para um espaço por si só já central, ao lado do shopping, perto do hospital, deixando as ruas, Santo António, Gil Vicente, Paio Galvão e a Avenida Conde Margaride um pouco mais desertas ao longo dos dias.

O título de Património da Humanidade não é suficiente para se fixarem os visitantes que passam admiram as nossas Praças, bebem um café e seguem para outras paragens. Mais uma vez a opção política de não preencher as ruas com actividades e iniciativas de que atraiam e prendam as pessoas à cidade é clara.

Hoje, com a festividade da Páscoa ainda fresca nas nossas memórias percebemos que não se fez mais do que noutras alturas do ano. No Natal pouco se fez para chamar mais gente ao nosso comércio tradicional. Se pensarmos na forma como os grandes centros comerciais se engalanam nas épocas festivas percebemos que também eles necessitam dessas actividades extra para atraírem mais clientes.

Os CTT fecharam em 2016 e, desde então, um edifício enorme ficou abandonado e as ruas mais desertas. O comércio tradicional sofre com as opções políticas nacionais e sofre sobretudo com as opções políticas locais. Nem aquando da aposta na concretização do Festival da Canção para Guimarães, com todos os pontos positivos que teve e que lhe reconhecemos, foi possível ver o executivo camarário a apostar na animação de rua, na “venda” da cidade e dos seus produtos aos jornalistas, no envolvimento de todos os vimaranenses num momento que seria de festas.

Na Páscoa de 2018 os comerciantes assumem que as compras desta época festiva foram fracas, as ruas estiveram desertas e sentem-se abandonados tanto pelo poder local como pela ACIG (Associação Comercial e Industrial de Guimarães) que os devia promover e defender. No entanto, da parte desta associação apenas ouvimos o seu presidente a dizer que os portugueses ainda não têm poder de compra. Só podemos concluir que ainda vamos ver a ACIG lado a lado com os sindicatos a revindicarem melhores salários, e em primeiro lugar para o comércio, para assim darem o exemplo.

Quanto à Câmara Municipal de Guimarães e o seu papel no apoio ao comércio local e na promoção da cidade de Guimarães fora do Turismo Porto e Norte estamos falados. A CDU sempre denunciou que o comércio tradicional estava a passar por momentos difíceis, que era necessário repensar outros planos de atracção. Nunca fomos ouvidos, muito pelo contrário fomos sempre confrontados com números que apenas enchem os “olhos” de quem os lê.

Números que parecem não ser suficientes para os comerciantes da cidade, que dão vida e servem Guimarães há décadas, saírem do sufoco em que se encontram e ressuscitarem ao menos na quadra pascal.

Mariana Silva, 34 anos, licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos, na Universidade do Minho. É eleita na Assembleia Municipal de Guimarães desde 2009, eleita na Assembleia da União de Freguesias Oliveira do Castelo, São Paio e São Sebastião desde 2013 e membro do Conselho Nacional do Partido Ecologista “Os Verdes”.
Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.