Festas da Senhora da Luz: Nos bastidores do cortejo…

Domingo, dia 18 de março… O cortejo já esteve marcado para a semana anterior, mas a chuva não permitiu que os carros saíssem. Hoje vai sair! Partirá depois de almoço da Cooperativa, ali tão perto da Igreja Paroquial, e seguirá rua fora até ao Monte de Nossa Senhora da Luz, onde se realiza o leilão com o despique habitual entre lugares da Freguesia. São 10:30 quando a jornalista chega, mas os carros já estão a ser preparados desde bem cedo. E as prendas foram angariadas muito antes pelas mulheres de Creixomil que – faça chuva ou faça sol, com mais ou menos genica nas pernas e lábia na voz para convencer toda a gente a ajudar – se esforçam ano após ano… E venha a Festa!

“Ontem andei nervosa todo o dia porque as coisas não apareciam”, conta Maria Alice Alves da Silva, ‘Licinha’ para família e vizinhos. Mora na Rua dos Cutileiros há 35 anos. Ajuda a fazer o carro há 15. “Gosto muito disto. De poder ajudar para se ter uma festa boa”, acrescenta.

Em causa está juntar oferendas que podem vir de particulares ou empresas que depois são leiloadas e o dinheiro reverte para as Festas de Nossa Senhora da Luz. Há quem ofereça fruta ou bolos e frangos assados… A lenha é sempre rainha. E também chegam colchas das fábricas e produtos de beleza dos cabeleireiros, animais vivos… Até uma vaca faz a “procissão” pelas ruas fora com o rancho folclórico a embelezar e a animar a malta.

“Quando fui convidada a participar, achei piada, mas é muito stress. Às vezes há situações ingratas. Tem de se envolver mais gente e incentivar os mais novos a ajudar”, defende Paula Guimarães, ‘Paulinha’ para os amigos, que participa na organização há quatro anos e é a mais jovem angariadora e leiloadora do cortejo. Vive porta com porta com ‘Licinha’ e praticamente de frente para o antigo café S. Miguel onde Laurindinha Almeida, conhecida por ‘Brasileira’, geriu negócio durante quase duas décadas.

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Desfile decorreu há uma semana

“Sou creixomilense, sou da Freguesia, em primeiro lugar está sempre a minha terra. Porque é que me envolvo nisto? Porque tenho gosto na festa”, diz a Dona Laurinda, horas antes de partir para o Monte onde além de comprar promete atirar valores para altear o custo da prenda. [Chama-se ‘picar’… Já lá vamos…] Concorda que faz falta meter gente nova nisto, mas depois de 20 anos a morar em França e a vir à terra religiosamente nesta altura, garante que “enquanto for possível a tradição não termina”.

E é verdade que todos os lugares querem ter o melhor carro? Na Rua dos Cutileiros admitem que sim. Têm esse gosto e não negam que querem sempre que o seu carro seja o primeiro, o mais bonito, mais composto e mais lucrativo. Mas na Senhora da Luz, Quitéria Rodrigues ou ‘Quiterinha’ aponta que “há falatório e critica-se muito, mas no fim o importante é que a festa corra bem”.

“Não temos rivalidades. Fazemos o que podemos. Faço isto para que a festa não acabe”, conta, enquanto arruma magotes de panos de cozinha ao lado de Conceição Freitas, a ‘Saozinha’ que até pede prendas no trabalho e no mercado. “Digo: dê lá qualquer coisa à Senhora da Luz, olhe que a Senhora ajuda. E aos poucos vamos conseguindo encher o carro”. Ambas nascidas e criadas em Creixomil, preparam o carro que junta a malta que vive junto à capela e as famílias do Alto da Bandeira e de Santa Teresinha. Concordam que “é difícil cativar os mais novos” e já andam a chamar as crianças da zona “para ver se começam a ganhar gosto”.

Descemos até à Pisca em busca do carro do Rio de Selho e da Boavista… Nesta zona já se fizeram dois carros, mas, entretanto, optou-se por rechear bem um que vai rodando de pouso ao longo das ruas.

Custódia Ribeiro Araújo, ‘Custodinha’, 76 anos, insiste que já está fraca das pernas, mas é imprescindível para a organização. Então lá aceita continuar a ajudar. Carrega a sabedoria de quem já organizou cortejos para as obras do cabide, para as obras do coreto e agora a favor das Festas.

“Se for preciso passar o testemunho, passo. Mas trabalho por vontade e tudo o que puder fazer, faço”, afirma à porta de casa que fica a dez ou vinte passos, mais coisa menos coisa, da casa da sua maior cúmplice nestas andanças, Antónia Maria Fernandes Pereira, conhecida como ‘Toninha’, que, por sua vez, concorda com a necessidade de puxar para a organização gente nova…

“Eu até faço isto para passar o tempo. Quero que o carro saia destacado e faça vista. Quero que as festas corram bem. Mas as pessoas mais velhas já precisam de ajuda. Há que chamar os mais novos”. Prece ouvida! Senhora da Luz bendita! Eis que na Travessa da Pisca 2 passa, à hora da entrevista, Emília Pereira que ali mora desde que nasceu e é carinhosamente descrita como “uma moça nova e amiga que ajuda sempre em tudo”.

“Gosto muito da Senhora da Luz. Tenho uma imagem em casa e ofereci uma a cada irmão. Pediram-me para entrar nisto e entrei porque a Senhora nunca me faltou”, refere Emília que na véspera tinha estado na casa da Dona ‘Toninha’ noite dentro a organizar caixas e caixas de jogos de banho e roupa de cama.

Rumamos a Eiras… O carro deste lugar fica estacionado no pátio da família do Sr. Mendes, no Passo de Baixo… Ana Lopes Mendes (nora), Ana Mendes (filha) e Ana Carina Azevedo (neta) são as ‘Anas’ que angariam prendas, embelezam e carregam o carro e têm no Monte gente a leiloar, a entregar o artigo e a ‘picar’.

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O leilão comunitário coroa o final da festa

“Picar” – técnica usada para aumentar as licitações. Desenganem-se os inocentes e não se escandalizem os puritanos. No Monte de Nossa Senhora da Luz há sempre quem esteja camuflado entre a multidão para lançar números e altear o valor das prendas. É para angariar dinheiro para as Festas ou não? Vale sim, vale tudo!

“Desde pequena que me lembro de ver o carro aqui parado e chegavam os vizinhos com as prendas. Acompanhei o meu avô nos peditórios, já enfeitei o carro, já vendi e já comprei… Isto está nos genes. A gente dedica-se porque tem gosto na Freguesia e nas Festas, mas também cansa”, conta Carina que espera a mãe que, exatamente na manhã do cortejo, tinha ido buscar prendas.

A canseira é diária. E o número 1207 da Rua de Eiras conhece-a há várias décadas. Concordam que é preciso integrar a juventude, razão pela qual este carro desfila apenas com crianças dentro e estas distribuem samagaio ao longo do percurso.

Há que adoçar a futura clientela… E afinar gargantas para o leilão… E agora que a chuva deixou o cortejo sair e o ‘picanço’ rendeu… Faça-se a Festa!

Parabéns às mulheres e homens de Creixomil que permitem que a tradição continue! A juventude haverá de pôr os olhos, E AS MÃOS, nisto!

Texto e fotos (2017): Paula Fernandes Teixeira – Creixomilense, autora dos textos originalmente publicados na revista da Comissão de Festas de Nossa Senhora da Luz