GENTE VIGENTE | João Rocha Silva

Por César Elias

Creio que muitos ficarão surpreendidos com o convidado que hoje apresentamos. Outros, talvez, menos surpresos e orgulhosos.

Esta é a regra que costuma prevalecer quando ouvimos sobre mentes brilhantes; o esplendor de uma vida simples, de uma forma de se estar no mundo imaculadamente recatada e prendada por um irónico anonimato.

João Rocha Silva é uma das poucas exceções (vimaranenses) que conheço, quando falamos de uma assoberbante paixão e qualidade artística racionalmente equilibrada.

Apesar de momentos verdadeiramente cáusticos no seu caminho, João, nunca, jamais, ousou deixar de derramar “dedilhados” no piano. Fá-lo desde os sete anos de idade e, hoje, com dois belos tentáculos de si, há planos e projetos que mantém vivos, assim, como tudo que se quer na vida, com tempo, amor e esperança…

“Tenho 35 anos e dois filhos, a Isabel tem dez anos e o Luís cinco. Tento ao máximo transmitir-lhes o quanto a música é importante na vida e no futuro, mesmo que não seja essa a profissão desejada, é algo que nunca nos abandona e que ajuda a superar as dificuldades que possam surgir, para assim as enfrentar com um forte e decisivo carácter”.

A primeira peça foi no ano de mil novecentos e noventa e nove, um prelúdio para piano em Lá menor, e hoje existem coisas incríveis de seus dedos emaranhados como “Viagem”, uma composição romântica e erudita que nos leva a não acreditar de que se trata de uma mente tão contemporânea; basta que escutem temas como “ Suite Noturna”, “Pó de pedra” , “Terra do Longe”, e outros mais (eu diria todos) como o assombroso “Machina”, que faz até acreditar que se trata de uma reencarnação de Rachmaninoff, ou a voluptuosidade de “O Príncipe”.

Não, não estou a exagerar. João Rocha Silva é um pianista gigante, uma dádiva da nossa terra, um criativo que cede a alma ao imortal classicismo e ao esplendor musical da orquestração.

Trabalhou como serralheiro civil, emigrou para o Reino Unido, e durante muitos anos laborou também no mundo da fotografia. Hoje, João é professor de piano e formação musical em Guimarães e no Porto. Compôs dez livros com cerca de sessenta peças, tanto para piano como para outros instrumentos, peças que, apesar de terem tido pouca luminosidade pública, estão aí, bem guardadas, como pérolas em estojos de cetim.

Mas recuso-me, recuso-me endiabradamente a deixar que suspirem e digam: “ah, então está tudo bem, o João Rocha Silva é um professor de piano”. Não. Esqueçam lá isso. O homem precisa é de comer! E dar de comer! E comigo tenho muitas mãos cheias de gente vimaranense que me afirmam as palavras, essas mesmas gentes que se deliciavam em tardes e noites no Círculo de Arte e Recreio com as espontâneas pantufadas do João no piano velho! O João de Locus Horrendus! O pianista!

Três composições para o décimo livro, para quarteto de cordas e piano, e um ciclo de recitais, é o que se pode esperar do futuro breve do nosso convidado: João Rocha Silva.

P.S.: por aí se fala de uma tal lista com o nome de todos os artistas vimaranenses e que se encontra bem acomodada numa gaveta importante? Hum… talvez seja mais sensato vasculharem o arquivo do DUAS CARAS adiante uns anos. Poderão encontrar qualquer coisa. 😉

GENTE VIGENTE: Música. O teu universo paralelo. Deste lado da realidade crua existe um homem firme e que luta por uma bela vida familiar. Como fazes a separação entre o artista e o homem?

JOÃO ROCHA SILVA: O universo da música, para mim, é, e será sempre um retrato do que vivo e experiencio, verdade que nem sempre é possível dedicarmos a esse universo a tempo inteiro, como maioria dos músicos deve saber. Os caminhos são muito diversificados, pois somos feitos das nossas opções. O que gostamos de fazer às vezes tem de vir em segundo plano. Acredito que não conseguiria fazer uma separação dessas ambições, constroem-se uma à outra. O artista depende do homem e do que ele vive, e isso será projetado na sua obra. O homem, por outro lado, nem sempre precisa do artista. Eu preciso de ambos, transmitir a paixão do que faço é um retorno do que me dão todos os dias.

As minhas maiores paixões, são os meus filhos, a minha família, os meus alunos, e a composição. É uma luta recompensadora quando se consegue transmitir e receber bons princípios e valores.

GENTE VIGENTE: Nunca te deste por um criador vencido. Qual é a tua opinião sobre as oportunidades e caminhos que existem para um músico como tu?

JOÃO ROCHA SILVA: Nunca somos vencidos, mas às vezes o caminho é longo, mas também nos faz aprender e crescer nesse percurso. As oportunidades não são muitas é verdade, é por isso que devemos insistir e optar sempre pelas melhores. O caminho é aquilo que fazemos com ele.

É natural existirem alturas que as oportunidades são escassas, mas é tudo uma questão de não desistir, não ficar à espera que as coisas aconteçam, e também paciência e paixão pelo que fazemos, é o que faz mover as coisas, e acaba sempre, mais cedo ou mais tarde, por haver um retorno.

GENTE VIGENTE: A tua arte é tão bela quanto anciã. O que sonhas para o futuro?

JOÃO ROCHA SILVA: O meu futuro é feito das pessoas que me rodeiam e que são importantes para mim, tenho projetos que vão sendo construídos com esses valores. Profissionalmente quero continuar a fazer o que mais gosto, que é dar aulas e compor. Tenho alguns recitais ainda sem data marcada para realizar em Guimarães e não só. O repertório será constituído por peças já antigas, outras inéditas e mais recentes.

GENTE VIGENTE: Como pianista e criador vimaranense, qual a tua relação com a cidade?

JOÃO ROCHA SILVA: Sempre tive uma grande conexão com Guimarães. Embora já tenha vivido noutras cidades, como, Bognor Regis em Inglaterra, Vila do Conde e Maia. Os meus amigos são de Guimarães, grande parte são de longa data. Desde cedo, quando estudava no conservatório e no Liceu, sempre me mantive ativo, nos acontecimentos culturais e não só, em Guimarães. Como ouvinte e executante.

Participei em vários recitais, saraus musicais (como no Circulo de Arte e Recreio), concertos de gala, entre outros. Sempre foi uma cidade que me inspirou, com as suas ruas antigas, com a união das pessoas, e a sua vontade de conhecimento e experiências. Ainda tenho muito que contribuir. Mesmo estando a maior parte do meu trabalho na área do grande porto, é aqui que nasci e que vivo atualmente, sendo a cidade parte da localização dos meus projetos.

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