Onde eu estava quando foste pra segunda?

“Onde eu estava quando foste pra segunda?
A apoiar-te como sempre na bancada.”

Responder a esta pergunta sobre a equipa de futebol sénior é extremamente fácil. Estava na parte superior da bancada norte, sem perceber muito bem porque tinha sido inundada por uma tristeza profunda quando o árbitro apitou para o final da partida com o Estrela da Amadora.

Lembro-me que fui ver o jogo com várias amigas. Lembro-me que aquele era o meu terceiro jogo do Vitória e da forma como me estava a irritar essas pessoas conseguirem estar felizes no intervalo e no final do jogo (à excepção da pessoa que já era sócia do Vitória há muito tempo e nos convidou a todas para o jogo).

Eu não percebia muito bem (em termos técnicos) o que aquela “descida de divisão” significava, mas naquele dia eu já me sentia (mesmo que de forma muito insignificante) parte desta família e aquele sofrimento inundou o meu Ser…

Responder a esta pergunta sobre a equipa de voleibol sénior masculina é extremamente complexo.

Eu não estava no Pavilhão Unidade Vimaranense para apoiar o Vitória Sport Clube no sábado à tarde. Eu não estava lá em quase todos os jogos desta época (penso que só fui a um jogo). Na realidade, o mesmo se repete com o basquetebol (dois jogos esta época no pavilhão e algumas visualizações de jogos online). Não faço a mínima ideia do calendário e da posição do polo aquático, vou acompanhando as conquistas do Kickboxing, senti o maior orgulho do mundo ao ver o Manuel Mendes a vencer a primeira medalha olímpica do clube..

A realidade nua e crua (da qual me envergonho e que infelizmente é a de muitos vitorianos) é que não faço das modalidades a minha prioridade. Sinto-me orgulhosa pelos seus feitos, festejo-os, mas, ao contrário do que acontece com o futebol, eu não estou sempre lá.

Não vou dar aqui uma série de desculpas, tenho uma vida como todos os outros, obrigações como todos os outros. Todos temos.

A velha máxima do “quem quer faz, quem não quer arranja desculpas” aplica-se como uma luva aqui.

Eu sou capaz de mudar toda a minha agenda para ir ver um jogo da equipa A, mas não o faço para as restantes equipas de futebol, nem para as modalidades.

Soa ridículo, até sinto que faz de mim uma má vitoriana, mas esta não é, com certeza, apenas a minha realidade. Se o fosse, o pavilhão estaria sempre cheio para apoiar as modalidades, as piscinas teriam de sofrer alterações para albergar todos os vitorianos interessados em assistir às competições e o próprio clube já prestaria maior atenção às modalidades na comunicação…

Sábado foi um dia muito triste para o Vitória. Todos nos sentimos tristes com a descida de divisão do voleibol…

Penso que mais do que lamuriar, este é o momento certo para percebermos o quê que falhou. O quê que leva a equipa sénior masculina do voleibol do Vitória a descer de divisão?

Na realidade, este é um momento de repensarmos todas as modalidades. O que pretendemos afinal das modalidades? Queremos cumprir a nossa função enquanto clube socialmente responsável e manter ativa a nossa ação formadora (de atletas e de pessoas) ou pretendemos manter equipas seniores na primeira divisão sem existência de formação?

Queremos gastar 80% do orçamento de uma modalidade (valores meramente especulativos e sem qualquer conhecimento da realidade) nas equipas seniores ou queremos que esse valor seja investido no futuro e na formação de jovens atletas?

Sem ter um conhecimento profundo sobre a situação atual das modalidades do clube, mas tendo consciência da sua polarização de comandos, penso que se torna evidente a necessidade de que, mais do que eu adepta torne as modalidades a minha prioridade (não querendo fugir às minhas responsabilidades como sócia), que a direção do clube veja as modalidades como uma prioridade e assuma os comandos das mesmas.

Diariamente há pessoas que trabalham arduamente para manter as modalidades activas, para as fazer crescer, mas acima de tudo, para que estas sobrevivam. É um trabalho intensivo, que todos os vitorianos devem agradecer e glorificar, mas que precisa de ser valorizado e, acima de tudo, gerido pela direção do clube.

As modalidades não podem ser “pequenos clubes independentes” que depois vestem o emblema do Vitória. As modalidades têm de ser geridas de forma profissional da mesma forma que o futebol é. Acho que está na hora das modalidades serem geridas pelo clube com o apoio dos dirigentes de cada modalidade e não o contrário em que os dirigentes de cada modalidade é que são responsáveis por geri-la e depois vão pedir auxílio à direção. A gestão precisa de funcionar no sentido contrário.

Para mim, a principal função das modalidades é a formação de atletas (e pessoas). Honestamente, não me interessa ter uma modalidade com uma equipa sénior a ser campeã se nos esquecermos do melhor que o clube tem: as crianças, os jovens que querem praticar desporto, jogar voleibol, basquetebol, judo, kickboxing, pólo aquático, usarem o emblema do Rei e divertirem-se no clube da sua terra ou região, onde jogaram os avós, os pais, familiares e amigos, isto numa 1ª fase, a fase do lúdico e da animação.

O Vitória de ser parte integrante e ativa na sociedade, tem que acompanhar as crianças que são o futuro e ajudá-las a crescer a ver o desporto como uma coisa boa e não como um problema ou um negócio.

Temos de voltar à velha história do amor à camisola, o desporto tem de ser defendido pelos seus verdadeiros amantes, através da formação e de equipas com elementos da sua terra/região, para atraírem mais pessoas, mais famílias ao pavilhão.

Onde eu estava quando foste pra segunda?

Não estava lá. Não estava na bancada a apoiar. Como vitoriana, eu sinto que falhei às modalidades. Como vitoriana, hoje peço desculpa.

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.