O dia em que Guimarães ocupou o trono do voleibol

A 19 de abril de 2008, o Vitória sagrou-se pela primeira e, até agora, única vez campeão nacional de voleibol, em seniores masculinos, ao vencer o jogo decisivo da final em Espinho, por 3-1. Foi o auge de uma modalidade que se aproximara gradualmente do sucesso, desde a sua reativação em 1998, e arrastava multidões ao pavilhão. Dez anos depois, cinco testemunhos de quem esteve por dentro recordam ao Duas Caras a época gravada a letras de ouro na história do clube.

Por Tiago Mendes Dias

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Quando Nélson Brízida puxou atrás o braço direito para um remate que o bloco do Sporting de Espinho deflectiu para longe da quadra de jogo, os passos ascendentes do Vitória desde 1998, valorizados por molduras humanas que se destacavam dos demais pavilhões nacionais, transformaram-se numa correria dos jogadores vestidos de branco para a zona onde se encontravam os mais de 100 vitorianos presentes no antigo pavilhão Joaquim Moreira da Costa Júnior, em Espinho.

Foi precisamente há 10 anos que D. Afonso Henriques se sentou pela primeira e, até agora, única vez no trono do voleibol português. O êxito que fugir antes, quer nas finais do campeonato, quer nas da Taça de Portugal, e estivera tão perto de se voltar a escapar nessa época, quer nas meias-finais contra o Benfica, quer na final contra os tigres, coube, desta feita, à equipa trajada de branco.

A eternidade chegou depois, com a festa que começou ainda no reduto do adversário e viajou, depois, pela auto-estrada até ao clímax vivido no pavilhão, com os jogadores e os cerca de quatro mil adeptos, todos eles campeões, em comunhão. “O pavilhão estava a abarrotar. Foi um sentimento indescritível”, recorda Nélson Brízida. Com o seu ponto, que carimbou o 3-1 sobre o Sporting de Espinho no quinto e decisivo jogo da final do ‘play-off’, o Vitória atingiu o estatuto inédito de campeão nacional sénior numa modalidade coletiva, algo que só repetir-se-ia em 2010/11, com o futebol de praia.

Nova época, nova tentativa

O Vitória apareceu novamente como candidato ao título na época 2007/08. Depois de três quartos lugares e um terceiro nas quatro primeiras temporadas ao mais alto nível em Portugal, Guimarães pôde pela primeira vez participar no momento decisivo, em 2005/06. Na primeira de quatro finais consecutivas com o Sporting de Espinho, o sucesso esteve perto, mas o fator casa prevaleceu: os vitorianos venceram os dois jogos no berço, mas perderam os três a jogar longe de casa, o último deles por 3-1, depois de terem estado a vencer por 1-0. Na época seguinte, a final resolveu-se em quatro jogos, com o Espinho a garantir o 15.º título nacional com um triunfo por 3-1 num pavilhão cheio de vitorianos, a 01 de maio de 2007.

“Tínhamos muita gente nova. Jogávamos contra um Espinho há muito tempo rotinado. Era uma equipa habituada a ganhar títulos. E a nós, por vezes, faltava-nos essa experiência de, nas horas decisivas, o raciocínio ser o certo”, considerou Eurico Peixoto, o único dos campeões que integrou a primeira equipa do Vitória na Divisão A1, em 2001/02, tendo depois vestido de branco por várias épocas e ficado por Guimarães.

O título nacional já era, por essa altura, um objetivo, assume um dos directores do voleibol de então, Aníbal Rocha. “Tínhamos perdido duas finais antes. Para sermões campeões, tínhamos de andar sempre lá em cima. As coisas tinham de acontecer naturalmente”, recorda. Foi, aliás, com esse intuito que o Vitória recrutou o treinador Marco Queiroga ao Leixões, em 2003/04, para substituir José Moreira.

Na quinta época com o treinador brasileiro no comando, o plantel foi construído de forma a “misturar alguma irreverência de alguns jovens com a maturidade de outros jogadores já com muita experiência a nível de finais”, explica o antigo seccionista, um dos responsáveis pela reativação do voleibol do Vitória, em 1998, um ano depois da inauguração do pavilhão.

O clube reforçou a juventude, proveniente sobretudo da formação – Fernando Ribeiro, Bruno Oliveira, Diogo Antunes e Mário Pinto -, com Pedro Sousa, que jogava no Castêlo da Maia, Frederico Lages, ex-Leixões, e Jonatas Nascimento, brasileiro que jogara na Madeira, ao serviço do Machico. À experiência dos habitualmente utilizados Hugo Gaspar, Filipe Cruz, Allan Cocato, Pedro Azenha e Eurico Peixoto juntaram-se Flávio Cruz, de regresso após uma época no Piacenza, de Itália, o brasileiro Ildnei Oliveira, que voltou a Portugal numa fase tardia da carreira para tentar um novo título, antes conseguido pelo Castêlo da Maia, e Nélson Brízida.

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Hugo Gaspar e Pedro Azenha, à esquerda, com os reforços para 2007/08, Jonatas Nascimento e Nélson Brízida, à direita

O oposto de Esmoriz, que cumprira toda a formação e os primeiros anos de senior no clube da terra, cumpriu um objetivo que já acalentava, pelo menos, desde 2005, quando rumou à Maia. “Desde que saí de Esmoriz, a minha intenção era vir para o Vitória. No primeiro ano de contrato com o Castêlo da Maia, o Vitória queria trazer-me. Eu também já vivia cá. Mas o Castêlo não me deixou sair e pediu uma cláusula de rescisão de 15.000 euros”, recordou o atleta que representa o Famalicense, da Segunda Divisão, após dez épocas consecutivas de rei ao peito.

Um dos motivos que o fazia querer jogar em Guimarães era a lotação e o ambiente do pavilhão que até então sentira apenas como adversário. “Quando estava cheio, ao rubro, eu não conseguia falar com o meu colega do lado. É claro que os adversários sentiam pressão. Era logo uma vantagem em relação à equipa que vinha cá jogar”, descreveu.

Além da mescla de juventude e de experiência, o plantel, com exceção de Ildnei e de Azenha, congregava jogadores que nunca tinham sido campeões nacionais, destaca Allan Cocato. Campeão brasileiro nos anos 90 e internacional por uma das melhores seleções do mundo de então, que chegava a ter cinco mil adeptos à porta dos hotéis em que estagiava, o central transferiu-se, em 2002, do Nacional da Madeira para o Vitória, acabando por se radicar em Guimarães.

A preparação para essa época, recordou, foi normal, mas Marco Queiroga e o adjunto, Paulo Poeiras, conheciam “cada vez mais a equipa”. Nos jogadores, quer os que provinham da formação e que viviam em Guimarães, quer os que todos os dias se deslocavam da zona do Porto para Guimarães, notava-se igualmente uma vontade de “remar para o mesmo lado” e de “querer ganhar”. “Houve muito sacrifício de toda a gente – treinadores, jogadores, direção, adeptos – ao longo da época”, realçou o ex-atleta e treinador vitoriano, de 47 anos.

A fase regular do campeonato arrancou a 06 de outubro de 2007, com uma vitória no terreno da Académica de Espinho, por 3-1, e terminou a 09 de fevereiro de 2008, com um triunfo por 3-0 na receção ao Vilacondense. Ao longo das 22 jornadas, o Vitória perdeu as duas partidas com o Benfica e a que se disputou no terreno do bicampeão Espinho, todas pela margem máxima. As 15 vitórias por 3-0 garantiram, porém, o segundo lugar pelo terceiro ano seguido, atrás dos tigres. Os pupilos de Marco Queiroga acumularam os mesmos 41 pontos e a mesma diferença entre sets conquistados e concedidos (44) do Benfica, mas apresentaram um melhor coeficiente de sets face às águias (4,38 contra 3,93).

Pedras no caminho

A 17 de fevereiro, começava mais um ‘play-off’ do título, com o Vitória de olhos postos na final que atingira nos dois anos anteriores. O primeiro adversário era o Castêlo da Maia, a melhor equipa nacional no arranque da década – tetracampeã, de 2001 a 2004. As dificuldades não se fizeram esperar para a turma de Marco Queiroga, que teve de contornar uma desvantagem de 2-1 para se colocar na frente da eliminatória, ao vencer na ‘negra’ por 15-12. O favoritismo vitoriano confirmou-se, uma semana depois, na Maia, com um triunfo mais tranquilo, por 3-1.

Seguiu-se o Benfica, adversário das duas meias-finais anteriores. Na turma orientada por José Jardim, ainda hoje o técnico das águias, pontificavam jogadores tanto nacionais como Manuel Silva, André Lopes e Carlos Teixeira, líbero que já passara pelo Vitória, como internacionais como Fábio Jardel, Evandro Batista e Luís Samuels, e os problemas sentidos nos duelos da fase regular voltaram à tona. Perante um opositor forte junto à rede, os homens do berço ainda recuperaram de uma desvantagem de 2-0, mas, no quinto set, muito disputado, perderam 17-15, depois de terem estado a vencer 14-13.

Após a derrota caseira de 01 de março, a vitória em Lisboa tornara-se obrigatória para o sonho continuar vivo. As contas, porém, complicaram-se, quando o Benfica chegou ao 2-0, com parciais de 25-22 e 27-25, e ficou a um set de uma final que atingira pela última vez em 2005 – foi campeão, então. “O ‘speaker’ do Benfica disse: “Estamos a um set da final”. São coisas que ficam marcadas. O Samuels já estava a comemorar em direção à bancada”, recorda Allan.

Deu-se, porém, a reviravolta. O segredo para inverter o rumo da eliminatória esteve na motivação e na confiança que reinava no seio do grupo. “Recordo-me de estarmos a perder e de, no banco, de estarmos todos tranquilos. Normalmente, quando já se está a prever o final, as pessoas ficam de cara baixa e mostram um comportamento mais relaxado. Mas recordo-me que – e não era só eu a sentir isso – as coisas estavam na nossa mão”, recordou Eurico Peixoto.

A capacidade para rodar os jogadores para além do ‘seis’ e manter o grupo “dentro dos mesmos níveis” também ajudou a nau vitoriana a encontrar bons ventos rumo à final. Com pontos atrás de pontos de Hugo Gaspar (24) e Flávio Cruz, o Vitória empatou o jogo e impôs-se na “negra”, levando a decisão para Guimarães.

Com vários elementos da equipa de futebol a assistir, o pavilhão encheu para empurrar o Vitória para a terceira final consecutiva na noite de 12 de março, uma quarta-feira. A equipa jogou de preto, recorda Allan Cocato. “Lembro-me de jogar com a camisola número 7, porque a camisola 2 que mandaram fazer ficava muito curta. Deu sorte. Ganhámos 3-1”, conta.

Apesar do equilíbrio, os pupilos de Marco Queiroga nunca perderam o controlo do jogo. A euforia rebentou nas três bancadas, quando a equipa fechou o quarto set por 26-24 e fez o 3-1. A terceira final estava garantida, contra o adversário de sempre.

Casa, para que te quero

Antes, porém, de iniciarem a disputa de mais um título nacional, Vitória e Sporting de Espinho encontraram-se na final da Taça de Portugal, no Peso da Régua, a 16 de março. Após derrotas em 2003, em Santo Tirso, e em 2004, em Lisboa, sempre diante do Castêlo da Maia, o Vitória viu de novo a Taça escapar-se-lhe. O Espinho de Miguel Maia, Sandro Correia, Roberto Reis, Hugo Ribeiro, Kibinho e Jacques Yoko foi superior e venceu pela margem máxima, graças a um triplo parcial de 25-22.

“Aquele embalo quebrou ali e lá veio o fantasma do Sporting de Espinho. Surge o tal fantasma”, considera Nélson Brízida. As memórias dessa final não são particularmente felizes para o oposto, que quase não jogou. “Não percebia porque é que não estava a jogar. Entrei só nas partes finais do set. Levámos 3-0, e estava furioso. Depois, existiu a conversa com Marco Queiroga. Tive de aceitar”, diz.

Eurico Peixoto, por outro lado, recorda que, na antecâmara daquela final nunca houve aquele “sentimento de voltar a perder”. “ O grupo não tinha essa forma de pensar, de desistir”, diz.

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Flávio Cruz e Allan Cocato blocam remate de Jacques Yoko, num dos jogos da final, em Espinho.

A verdade é que a decisão do título começou um triunfo claro do Vitória em Espinho, por 3-1, após parciais de 22-25, 25-23, 21-25 e 25-27, com Allan Cocato a considerar que o adversário talvez tenha encarado o jogo com algum excesso de confiança. “É possível que tenham entrado a pensar que tinham ganhado 3-0 na Taça e que podiam fazer um jogo tranquilo”.

O jogo trouxe mudanças na equipa, incluindo o regresso de Nélson Brízida ao ‘seis’ para se assumir como o melhor pontuador (15 pontos). “Tive de provar que merecia titularidade, que tinha razões para poder jogar e os meus atributos para poder colaborar com a equipa. Foi um dos meus melhores jogos desse play-off”, considerou.

Esse encontro foi também marcante para Filipe Cruz, líbero que cumpria a segunda época em Guimarães. Titular no primeiro ano, o jogador que cumprira quase toda a carreira no Esmoriz, clube pelo qual fora vice-campeão em cinco ocasiões, perdeu o lugar para o jovem da casa Fernando Ribeiro em dezembro. “Foi uma época diferente, porque passei grande parte dela sem jogar regularmente. Sentia-me cansado, porque fazia todos os dias a viagem de Esmoriz para Guimarães”, afirma.

Apesar de nunca ter sabido a razão para estar tão poucas vezes em campo, o jogador regressou em pleno para os confrontos decisivos ante os tigres, mesmo com a falta de ritmo. “Entrei com um bocado de medo do jogo. Parecia que estava a começar a jogar novamente”, diz.

Com o triunfo em Espinho, o emblema de D. Afonso Henriques precisava apenas de vencer os jogos no seu castelo para conquistar o primeiro título. “Olhando para trás e vendo os campeonatos anteriores, na nossa cabeça já estava a ideia de que só tínhamos de seguir o caminho normal, ganhar os jogos em casa e já está tudo feito”, lembra Eurico Peixoto.

O segundo jogo voltou a contornar tal lógica. As expetativas altas dos vitorianos que encheram o pavilhão saíram frustradas por um Sporting de Espinho superior, que venceu por 3-1 (18-25, 25-20, 23-25, 20-25) e igualou a final. No jogo que se seguiu, em Espinho, o Vitória foi incapaz de repetir o feito do primeiro jogo, ao sair igualmente derrotado por 3-1 (25-19, 25-20, 22-25, 25-19). A equipa regressava a uma posição que bem conhecia: tinha de ganhar para sobreviver na luta pelo título.

O jogo (praticamente) decisivo

Quando se atingiu o primeiro tempo técnico do terceiro set, no quarto jogo, com um 8-4 para a equipa treinada por Rui Pedro, já se antecipava o tricampeonato do Sporting de Espinho. O Vitória perdera os dois primeiros sets por 25-20 e 25-16, e a derrota parecia então iminente. “Os adeptos do Sporting de Espinho já estavam na bancada a fazer a festa”, disse Filipe Cruz. Esse tempo técnico foi o ponto de viragem. “O Azenha revoltou-se no banco. Disse que estávamos a passar vergonha em casa e que era preciso reagir”, recorda Allan. O distribuidor vitoriano colocou o marcador em 9-8 com uma série de cinco serviços seguidos, antes de ser substituído por lesão, tal como Jonatas Nascimento.

Naquela tarde de 12 de Abril, Marco Queiroga contornou as dificuldades com as entradas da Allan, cuja acção no bloco foi decisiva, e de Eurico Peixoto, que teve de jogar num lugar que não era o seu. “Fui jogar para oposto, ficámos a jogar com três zonas 4. Fizemos a gestão lá dentro da forma que melhor entendíamos. Não sei porquê, isso abalou um pouco o Sporting de Espinho, e a coisa caiu para o nosso lado”, recorda.

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Jogo da final do ‘play-off’, em Guimarães

Houve, depois, um lance no decurso do set que levou todos os jogadores vitorianos a sentirem que o jogo seria deles: Miguel Maia e Hugo Ribeiro hesitam na defesa de uma bola aparentemente fácil, e a bola cai na área do Espinho. “Olhámos para aquilo e pensámos: para esta bola cair, o jogo vai cair para nós. Sentimos isso”, recorda Nélson Brízida. Já para Filipe Cruz, esse foi o lance decisivo de todo o ‘play-off’,

Os homens do berço venceram os restantes três sets, por 25-23, 29-27 e 15-13, forçando o quinto e decisivo jogo, em Espinho, no dia 19. Mas, para Allan Cocato, o quarto jogo acabou por ser praticamente decisivo. “Acho que o Espinho perdeu o campeonato nesse jogo em Guimarães. A questão psicológica conta muito nas horas decisivas”, disse.

Com o moral em alta para o último duelo da época a preto e branco, a equipa viveu uma semana com a tranquilidade que a união vivida no seu seio durante toda a época lhe garantia. Nessa semana, recorda Filipe Cruz, a equipa concentrou apenas a preparação em si e não no adversário, que já era mais do que conhecido. “Quando chega o quinto jogo de um ‘play-off, já não se consegue ouvir falar dessa equipa”, disse.

Essa coesão em torno do objetivo foi acentuada pelo trabalho da equipa técnica, que, além de preparar o trabalho técnico e tático, focou sobretudo o aspeto motivacional. “Houve um trabalho excecional por parte do treinador. Chegámos a uma altura em que, em vez de vermos os vídeos dos adversários, víamos vídeos motivacionais, em que eles apelavam a um sentimentos dos atletas e a uma entreajuda entre nós. Aquilo era um jogo, mas havia coisas mais importantes. Isso efetivamente foi resultando. Eles perdiam horas e horas a fazer esses vídeos motivacionais”, descreveu.

Na antecâmara do jogo, o plantel assistiu a um vídeo com mensagens de apoio da família e dos amigos. “Mexeu muito connosco. Vê-se a mãe do Jonatas, a esposa do Nei, a esposa do Azenha, a namorada de um, a namorada de outro. Arrepia sempre que tocamos no assunto”, recorda Allan Cocato. A batalha do título estava à porta.

Campeões

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Marco Queiroga levantado aos ombros, na festa do título nacional, em Espinho

Os 75 quilómetros que separam Guimarães de Espinho foram percorridos com toda a normalidade, no então recém-estreado autocarro do clube. O que mais queríamos é que não houvesse fatores diferentes. Fizemos, como nos outros jogos, a viagem tranquila até Espinho. Não havia nenhuma expetativa, não havia ‘champagne’ na bagagem. Tentámos que fosse tudo normal”, recorda Aníbal Rocha.

À chegada, já havia “muitos adeptos à espera da equipa”, apesar de ter sido difícil arranjar bilhetes para todos, dada a lotação reduzida do pavilhão Joaquim Moreira da Costa Júnior. Em conjunto com Alberto Esteves e Carlos Silva, os outros dois responsáveis do voleibol vitoriano, Aníbal Rocha assistiu à final na bancada, juntamente com mais de 100 vitorianos.

De lá, viu a equipa trajada de branco dominar quase por completo os homens equipados às listas verticais pretas e brancas: ganhou o primeiro set facilmente, por 25-18, perdeu o segundo nas vantagens (26-24), após ter estado na frente, e voltou a ganhar no terceiro, por 25-21. A marcha do quarto set foi muito semelhante à do terceiro, com os pupilos de Marco Queiroga quase sempre no comando.

A bola de campeonato chegou então, num serviço de Miguel Maia. “Lembro-me do último lance. Foi uma receção que eu fiz, e o Pedro Azenha passa para o Nélson Brízida. O Nélson Brízida ataca com um bloco alto para fora. O jogo fecha aí. Foi o delírio total, uma festa imensa”, descreve Filipe Cruz.

Nélson Brízida já sabia, antes do serviço, que ia receber a bola de Pedro Azenha: “lembro-me do Azenha passar por mim, virar-se e dizer: vou-te passar a bola, vai ser para ti. E eu disse: passa, que eu vou meter. E fui. Quando ele passa a bola, eu nem olhei para a bola. A bola sai, vai para a bancada e eu fico incrédulo”.

A celebração do ponto decisivo consumou-se com a corrida do oposto rumo à bancada, para festejar com os adeptos. Outros juntaram-se-lhe numa comemoração com lágrimas, gritos e risos. “A primeira reação de todos foi correr para a bancada. Isso diz muita coisa, não é? Poderíamos ficar no meio do campo, mas saltámos uns para os outros e depois seguimos para a bancada, porque sentimos que aquilo também era para os adeptos. Isso também fazia parte do esforço deles”, lembra Eurico Peixoto.

Para Allan Cocato, aquele foi um “momento de transe”, onde confluíram as memórias da opção por rumar a Guimarães para apostar no projecto do Vitória, o trabalho que os seccionistas todos os anos tinham de desenvolver para levar a equipa a bom porto. “Não falei com a minha esposa, não fui a correr para a bancada. Só falei com a minha esposa depois de tomar banho. Eu estava ali, mas a pensar num monte de situações”.

O central, juntamente com o veterano Ildnei Oliveira, foi um dos primeiros a confortar a equipa que o Vitória acabara de derrubar do topo.

A equipa número um do país morava agora em Guimarães, e, para Aníbal Rocha, esse feito justificava a ida à Liga dos Campeões, prova que nunca contara com nenhuma equipa portuguesa. O dirigente recorda-se de, ainda no pavilhão, durante a festa ligar ao presidente Federação Portuguesa de Voleibol, Vicente Araújo, para lhe pedir que tentasse um ‘wild card’ – havia dois – junto da Confederação Europeia de Voleibol.

“Toda a gente nos dizia que era impensável face às exigências. Havia dois ‘wild cards’ disponíveis para campeões nacionais de países que não tinham o acesso direto. Ele disse-me que ia fazer tudo para conseguir, e assim foi”, recordou. 

O pavilhão serviu de Toural

A festa prosseguiu pela auto-estrada, com o autocarro e os carros que se lhe seguiam numa marcha triunfante. Na rotunda de Silvares, os campeões nacionais tiveram pela primeira vez a noção daquilo que os aguardava. “Aquilo estava parado completamente, com gente de todas as idades”, recorda Nélson Brízida. A rotunda estava inundada de viaturas, tal como a variante de Creixomil. “Eu lembro-me de ver, olhar para o lado, e de ver pessoas mais velhas com a bandeira do Vitória, a festejar ali na zona de Creixomil”, acrescentou o oposto.

Pairava, contudo, uma dúvida no ar: Toural ou pavilhão? Aníbal Rocha confessou que a primeira intenção da equipa era passar no centro da cidade, mas, após uma conversa com o então presidente do clube, Emílio Macedo da Silva, os planos tiveram de ser alterados. “Disse-lhe que estávamos a chegar a Guimarães e que íamos passar pelo Toural. Ele disse-me para não passarmos pelo Toural, porque podíamos ficar lá presos, e que o pavilhão já tinha mais de quatro mil pessoas à espera”, recorda.

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A chegada dos campeões à rotunda de Silvares

A chegada ao pavilhão continua bem viva na memória de Allan Cocato. “Lembro-me de um senhor, já falecido, infelizmente, que morava aqui perto do complexo. Estava com o cachecol, voltado para o autocarro, a gritar campeões”. Para Eurico Peixoto, qualquer pessoa que tivesse passado pelo que a equipa passou ficaria “rendida” ao clube e à cidade.

No interior do pavilhão, os jogadores, no terreno de jogo, e os cerca de quatro mil adeptos nas bancadas para se unirem a uma só voz no festejo de um título já ansiado em épocas anteriores. Apesar de não ter tido o gosto de passar pelo Toural, Nélson Brízida descreve a festa do Vitória, como algo “inesquecível”. “Foi o sentimento mais forte que já vivi. Sagrei-me também campeão de vólei de praia, após alguns anos a tentar, mas é algo mais individual, sem a abrangência de um clube. Este título foi algo excepcional. É um marco”, disse.

A comemoração do título ficou ainda marcada, para Nélson Brízida, pela deslocação à Penha a pé que fora prometida para o dia seguinte, onde teve a companhia de Filipe Cruz e de vitorianos. “Fomos descansar um bocadinho após a festa. Fui eu, o Brízida e mais três adeptos. Subimos a pé e descemos de teleférico”, contou o líbero.

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Receção aos campeões nacionais no Estádio D. Afonso Henriques, a 27 de abril de 2008, no intervalo do Vitória – Porto

Passados dez anos, o título de 2008 é olhado por Nélson Brízida como a obra de um núcleo de jogadores que colocou os “objetivos do colectivo” acima de tudo e foi “inteligentemente criado”, que misturava juventude e experiência e contava com vários elementos da seleção nacional. O orgulho, esse, permanece, fruto do ambiente que se vivia em torno do clube, então ímpar no país. “Ser campeão nacional pelo Vitória é diferente pela envolvência do clube, da cidade, das pessoas. É um clube único a esse nível. E passa uma energia extra para os jogadores.

Eurico Peixoto voltou a sagrar-se campeão nacional três anos depois, mas, nos Açores, ao serviço da Fonte do Bastardo, da ilha Terceira. O atleta disse ter sentido à mesma o “prazer de ganhar”, ainda para mais “não sendo o favorito” no duelo com o Benfica, mas a celebração do título naquele “meio mais pequeno e rural” teve uma “envolvência social completamente diferente” da vivida na cidade-berço. “Havia colegas meus da seleção que diziam que gostavam de vir jogar para Guimarães, mais não fosse só pelo ambiente”, disse.

O Vitória “enchia os pavilhões” como nenhum outro clube o fazia. “Não acontece em lugar nenhum ter um pavilhão cheio, nem em Espinho, nem no Benfica, nem no Sporting. Com a estrutura que eles têm, não enchem o pavilhão. Num jogo razoável, com uma equipa média, tínhamos mais gente do que nos jogos das fases finais agora”, recorda, sublinhando que aquele título, acima de tudo foi merecido.

“Tinha de ser muito comemorado. A palavra-chave é merecimento. Todos mereciam: jogadores, treinadores, directores, adeptos. Muita gente teve de deixar a família de lado para estar sempre ali, para acompanhar o voleibol”, frisou a antiga glória do voleibol vitoriano, mas também brasileiro.