Pássaros e gaiolas

Acabei de ver a autobiografia de Maya Angelou “Sei porque canta o pássaro na gaiola”. Fui arrebatada, completamente. Pela Maya, pela sua escrita, pelo a forma como ela descreve a mulher negra, um fardo duplo na primeira metade do século no sul dos Estados Unidos da América. Todo o contexto político, social e económico é uma gaiola gigante onde Maya cresceu e é inspirador ver a forma como a mesma se libertou da gaiola e voou.

“Sei porque canta o pássaro na gaiola” faz parte do currículo do ensino secundário norte-americano, o que gera alguma contestação dado o seu conteúdo sexual.  A autora descreve a violação de que sofreu aos 8 anos de idade e descreve também como o despontar do seu desejo sexual a levou a uma relação pontual que dá origem ao seu primeiro filho. E conta-nos isto da mesma forma com que nos retrata o que é ser uma criança negra no Sul racista onde os linchamentos eram quase diários, a vida dos apanhadores de algodão e o papel doméstico que as mulheres (no seu universo, as mulheres negras) se remetiam.

Esta obra está no top das obras mais banidas nos Estados Unidos da América. Após a sua aprovação para fazer parte do currículo escolar nos anos 80, logo em 83 foi banida pelo Alabama State Textbook Committee por incentivar amargura e o ódio pelas pessoas brancas. Foi banida pelo conteúdo sexual, alegadamente explícito. Foi banida por conteúdo racista, por falar em abuso sexual, por linguagem explícita.

Esta obra é a primeira de uma série de autobiografias e relata a vida da escritora desde a sua primeira memória, até aos 17 anos idade em que foi mãe.  Apesar do meio em que cresceu e da violência que sofreu, tornou-se uma activista pelos direitos civis, tornou-se a primeira mulher negra a trabalhar nos autocarros em São Francisco, escreveu, ganhou uma voz – que aparentemente é ofensiva agora. Ganhou uma voz que está a ser silenciada, uma vez que não se adequa àquilo que aparentemente as pessoas gostam de ouvir. Entre 1990 e 1999 foi a terceira obra mais banida pelos Estados Unidos da Améria.

A gaiola em que Maya Angelou e os pares cresceram não é bonita. Hoje mães e pais nos Estados Unidos têm medo que os ouvidos imaculados dos seus filhos descubram a fealdade do mundo. É pena. Queremos encaixar pessoas em gaiolas, por mais bonitas que estas sejam, não pode dar bom resultado, inclusive impedir-nos de ver as gaiolas dos outros.

Luísa Alvão, 33 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha como programadora e produtora do Shortcutz Guimarães. É também fundadora e presidente da Capivara Azul – Associação Cultural.