Viemos Ajudar a Roubar

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Nota prévia: O presente texto não iliba os jogadores, a(s) equipa(s) técnica(s) e a direção do Vitória Sport Clube da responsabilidade de obter bons resultados esta época.

O Senhor árbitro não viu aquela cotovelada discreta e já só reparou no jogador a rebolar no relvado? Não se preocupe, o vídeo-árbitro ajuda.

O Senhor árbitro tem dúvida se foi mão na bola ou bola na mão? Não se preocupe, o vídeo-árbitro ajuda.

O Senhor árbitro tem dúvidas se foi penálti? Não se preocupe, o vídeo-árbitro ajuda.

O Senhor árbitro tem dúvidas se foi golo? Não se preocupe, o vídeo-árbitro ajuda.

Tal e qual como o maravilhoso utensílio de cozinha que faz mil e uma coisas (e que torna cozinhar a coisa mais fácil do planeta) apresentado nas televendas nas madrugadas dos canais nacionais, o vídeo-árbitro foi apresentado aos portugueses como o salvador do futebol, a revolução tecnológica que vinha devolver a VERDADE DESPORTIVA ao futebol português.

Evitei falar nele o máximo possível. Tratando-se de uma experiência, achei que lhe devia dar algum tempo para se adaptar e funcionar adequadamente, mas a verdade é que o seu processo de adaptação foi bem mais curto do que seria de esperar.

Pouco tempo foi necessário para que o vídeo-árbitro se tornasse num objeto de desculpa para a incompetência dos árbitros nacionais.

Admito que, erradamente, quando se começou a falar de vídeo-árbitro – há alguns anos – eu pensei que o sistema era uma espécie de versão evolutiva do Olho de Falcão em que a tecnologia estava efetivamente ao serviço do futebol e em que a tecnologia demonstraria o erro cometido obrigando o árbitro a corrigir a sua atuação.

As minhas dúvidas quanto à utilidade do vídeo-árbitro apareceram no momento em que descobri que todas as decisões passariam por humanos e pioraram no momento em que me apercebi que os humanos responsáveis pela análise e decisão da utilização do vídeo-árbitro eram os mesmos dos quais nos queixávamos no passado por cometerem erros que influenciavam direta ou indiretamente  vários resultados finais de jogos nacionais.

Se os árbitros cometiam erros dentro das quatro linhas, o que nos faria acreditar que estando dentro de uma sala com várias televisões isso iria mudar? Se o árbitro em campo tem o poder de decidir se quer consultar ou não o vídeo-árbitro (mesmo depois de ser aconselhado a fazê-lo), o que nos faria acreditar que ele iria querer consultá-lo para o bem do jogo?

Sei que o nível de desconfiança dos portugueses em relação ao vídeo-árbitro sempre foi bastante elevado, mas a realidade é que este sistema nunca nos deu verdadeiros motivos para confiarmos nele.

No que diz respeito ao Vitória, foram vários os momentos em que o vídeo-árbitro influenciou o resultado final. Foram vários os pênaltis não assinalados a favor do Vitória e alguns assinalados de forma duvidosa contra o Vitória. Em Paços, mesmo sendo parte das regras do vídeo-árbitro, vimos um golo a ser anulado por uma falta que o árbitro não viu no início da jogada, permitindo que o jogo continuasse, mas que depois resolveu anular… Na Luz vimos um penalty a ser assinalado pela existência de uma mão na grande área e, no sábado, vimos, mais uma vez, uma mão a servir de motivo para anular um golo. Em ambas as situações, as imagens demonstram a não intencionalidade do uso da mão tornando a decisão do árbitro absurda e facilmente corrigida com a devida utilização do vídeo-árbitro. A constante não decisão de usar o vídeo-árbitro demonstra o seu principal problema: a demasiada influência humana no sistema, tornando-o dispensável.

Com quase um ano de video-árbitro e 31 jornadas da Liga NOS jogadas, o vídeo-árbitro demonstrou-se ineficaz no que diz respeito à devolução da Verdade Desportiva ao futebol português e tornou-se apenas num instrumento de justificação dos erros dos árbitros, não acrescentando qualquer tipo de valor à competição.

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.