O Abuso de Poder

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Todos nós temos, parece-me mais ou menos evidente, um ideal sobre como deve funcionar a democracia, como devem ser as relações entre poder e oposição, como a comunicação social deve ser isenta e imparcial na cobertura dos actos políticos deixando para comentadores e cronistas o tomar de posição a favor ou contra aquilo que vai acontecendo.

E esses ideais fundam-se no prático funcionamento de democracias mais avançadas, como por exemplo a inglesa ou a sueca, e nos bons exemplos que de lá nos vão chegando.

Mas estamos em Portugal.

Onde quarenta e quatro anos de democracia já nos habituaram a tudo.

Na política, no desporto, no mundo das empresas, na comunicação social, nas comunidades.

Mas se por um lado nos habituaram a tudo (e às vezes ao seu contrário…) continuam a existir fenómenos para cuja explicação as décadas de democracia continuam a ser insuficientes para nos oferecerem uma explicação cabal do porquê acontecerem.

Um desses “fenómenos” é a arrogância dos “poderosos” e dos seus jovens aprendizes.

Aqueles que detêm qualquer forma de poder e que uma vez investidos nele, seja por votação democrática seja por nomeação por quem de direito, acham de imediato que esse poder vem revestido de uma aura de infalibilidade, do direito a veneração respeitosa por parte de quem os rodeia e essencialmente da impossibilidade total de serem criticados, contestados ou verem-se alvo de propostas e entendimentos alternativos aquilo que fazem o favor de decidir e resolver.

Não suportam a crítica, não admitem o contraditório, não reconhecem aos outros, aos que pensam diferente deles, o elementar direito de se pronunciarem seja de que forma for.

Fazendo do poder um tabu, que não se discute e muito menos se contesta, quase defendendo que quem não pensa como os “poderosos” é melhor tomar posição sobre a metereologia, a botânica, os dinossauros extintos ou os novos telemóveis da Apple passe a publicidade.

Até dos orgãos próprios para a discussão (quando existem) tem a visão de uma “igreja” de religião única, de verdades absolutas, de dogmas incontestáveis.

E ai do “herege” que, aqui ou ali, diga que o rei vai nu.

Na falta de uma Inquisição que o excomungue de imediato, como tanto gostariam, socorrem-se do ruído de maiorias ocasionais para tentarem diminuir o direito à expressão de quem professa “heresias”.

Ferozes seguidores de George Orwell acham-se no direito de serem os “Big Brother” das comunidades e convivem mal, cada vez pior diria, com os que lhes “fogem” à ortodoxia.

Têm naturalmente os seus seguidores.

Não deles (como descobrirão um dia que o percam) mas do poder que ocupam temporariamente.

E esses seguidores, como é normal de quem se move por interesses meramente materiais, são mais fanáticos, mais intransigentes, mais ameaçadores do que os próprios detentores dos tais poderes variados.

São, em suma, gente de quem lhes paga!

Caso para dizer que passados 44 anos de democracia, e os capitães de Abril que me perdoem, foi mais fácil tirar Portugal do “estado novo” do que tirar o “estado novo” da mentalidade de alguns portugueses que nos vão rodeando.

Que prezam a democracia por lhes ter permitido chegar onde estão mas no dia a dia são seguidores fieis de “Frei Tomás” e do seu “olha para o que eu digo mas não olhes para o que eu faço”.

Em Guimarães, onde por norma as modas chegam tarde mas acabam por chegar, esses tiques de arrogância pouco democrática vão-se fazendo paulatinamente sentir com uma forte conotação geracional.

Eles são os artigos de opinião nos poucos jornais que restam no concelho, eles são os posts e comentários a posts alheios nas redes sociais denotando uma vigilância quase persecutória às opiniões de quem não apaparica o poder, ele é aquela exibição tão confrangedora de uma certa forma de “poder” nas reuniões de câmara com uma “nuvem” de assessores dos “poderosos” sentados em segunda fila por trás dos representantes eleitos do povo.

Portugal vive em democracia.

Democracia conquistada a 25 de Abril de 1974 , garantida a 25 de Novembro do ano seguinte quando as forças democráticas derrotaram os totalitários de esquerda que hoje (ele há cada paradoxo…) se encontram a apoiar o governo de um partido que foi decisivo para a sua derrota de então, e que se tem vindo a aperfeiçoar ao longo das mais de quatro décadas decorridas.

Mas há outras formas de democracia em que estamos ainda a precisar de evoluir mais depressa e mais profudamente.

É o caso da cultura democrática.

Aquela em que um dia todos perceberão que se a quantidade de votos distingue quem vai governar de quem vai fazer oposição, a essência dos mesmos votos irmana-os a todos na legitimidade de representarem por igual os cidadãos que neles confiaram.

Luís Cirilo Carvalho, 58 anos, é deputado municipal eleito pelas listas do PSD. Já liderou a concelhia do partido e foi deputado à Assembleia da República 1999 e 2005 na bancada social-democrata. Foi governador civil entre 2002 e 2003. Passou pelo Vitória Sport Clube como dirigente.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.