O ataque de Toronto e as mulheres

No final do mês passado, um homem, conduzindo uma carrinha branca alugada, galgou o passeio em Toronto, Canadá e atropelou várias pessoas, deixando 10 mortos e 15 feridos para trás.

Dias depois, os media chamam a atenção para a ligação deste homem com um grupo radical chamado INCEL, ou celibatário involuntário. Bastou-me uma pequena pesquisa no google para ficar com os cabelos em pé. Dentro dos movimentos alt right, existe todo um mundo de comunidades, fórum de direitos dos homens, comunidades anti-feminismo, sendo este movimento INCEL o mais extremo de todos. Este movimento está também ligado outro homicídio em massa na Universidade da Califórnia, Elliot Rodger.

Tanto o assassino de Toronto, Alek Minassian, como Elliot Rodger auto-intitulavam-se de “Supremo Cavaleiro”. Assim como muitos destes homens que participam nestes fóruns. Se numa hora são “supremos cavaleiros” e “nice guys” a quem as mulheres nunca ligam, por outro lado defendem o fim dos direitos das mulheres à reprodução, à educação, à própria vontade sexual e, muitas vezes, à vida. Consideram-se vítimas de um sistema de supremacia genética onde eles são deficitários e que a sociedade quer abater. Consideram-se vítimas onde as mulheres, devido ao avanço dos movimentos feministas, escolhem os seus próprios parceiros e eles são postos de lados. Defendem muitas vezes casamentos forçados, casamentos com adolescentes, a existência de governaments wives.

Fico muito assustada quando vejo estas coisas, quando me apercebo da quantidade de ódio de que algumas comunidades se alimentam. Comunidades estas espalhadas pelo mundo em que a sua base de união é o ódio. Como sociedade, temos de arranjar forma de quebrar esta corrente de ódio e voltarmos a falar uns com os outros. Não podemos apostar todas as nossas fichas online na forma de como chegarmos aos outros. Os algoritmos que correm nas redes sociais e em motores de busca fazem com que todas as nossas ideias sejam reforçadas uma vez que apenas nos devolvem reflexos de nós mesmos.

A escola tem aqui – tem que ter! – um papel fundamental. A educação para a cidadania e para os direitos humanos precisa e urgentemente. Não podemos relegar esta tarefa para a esfera privada da família.

Algumas reações a estas comunidades acontecem no extremo oposto. Imagens destes rapazes / frases suas são publicadas online com mensagens de ódio e ameaças. Não estou certa que esta seja a resposta mais adequada. Ódio apenas gera mais ódio, assim como violência de qualquer das suas formas, só gera mais violência. Temos de encontrar outras formas de lidar uns com os outros.

Luísa Alvão, 33 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha como programadora e produtora do Shortcutz Guimarães. É também fundadora e presidente da Capivara Azul – Associação Cultural.