A “desvantagem” de ser do Vitória

“Há Benfica, Sporting, FC Porto e depois…a «desvantagem» de ser do Vitória”

-José Peseiro

Oh triste sina a nossa de existir na constante bipolaridade do futebol. A mistura de emoções, as passagens brutas de momentos de euforia para momentos de tormenta que parecem não ter fim.

A eterna esperança do “desta vez é que é de vez” que nos aquece os corações a cada início de época e que nos faz sentir desolados no final de determinadas épocas…

Oh Mar de mágoas sem marés, oh triste fa(r)do este o nosso de sentir a alegria em plenitude, de quase tocar o céu e de depois ter de descer ao inferno sem sequer uma pausinha para tomar café na terra…

Acabámos a época num céu cor de cinza de lés a lés onde não há qualquer sinal de porto. O caminho faz-se caminhando, mas nós preferimos ir dançando numa roda viva de emoções, num desconfortável trás para frente numa “rotina rotineira” que já nem nos apercebemos que acontece.

Acreditamos sempre que somos capazes de parar a roda, de a virar e lhe dar um novo rumo, mas a roda persiste em voltar e nós vemo-nos incapazes de mudar. Somos os seres que achamos que conseguiremos escrever uma história diferente fazendo sempre o mesmo.

A época “não” chegou ao fim, a nova face da moeda está a caminho. A época “sim” virá para encher os nossos corações, para nos fazer sentir os mais poderosos dos poderosos, o “exército de sem-medos” comandado pelo Rei.

As nuvens irão desaparecer, o céu vai pintar-se de azul, os pássaros voltarão a ter permissão para cantar na Cidade Berço e os sorrisos voltarão a ser, junto com os nossos cachecóis, o nosso principal acessório.

Oh triste sina a nossa de nascer numa cidade com uma mentalidade bairrista, com um orgulho do tamanho do Mar onde se respira apenas Vitória (Dizem os estudos que temos o “ar mais respirável” de Portugal. Será coincidência? Claro que não).

Oh que triste sina a nossa de viver numa cidade onde defender o clube da nossa cidade não é sequer uma opção, é uma forma de vida, é algo que faz parte da nossa existência.

Oh triste sina a nossa de “só ter uma oportunidade de ser feliz ao fim-de-semana”, como disse José Peseiro.

Oh triste sina a nossa de viver esta coisa do futebol intensamente, de ter a capacidade de amar pelos dois, mas nunca querer saber o que é ter dois amores (e duas oportunidades de ser felizes ao fim-de-semana).

O nosso coração tem duas cores e tem a capacidade de amar pelos dois, mantendo esta relação viva até mesmo nos maus momentos em que parece que apenas na bancada bate este coração. O nosso coração terá sempre o poder de manter este clube vivo, esta paixão acesa até mesmo quando em campo a garra, a paixão e a entrega deixaram de existir. Este coração pode amar pelos dois, mas este coração jamais poderá amar dois clubes diferentes.

Oh triste sina a nossa de amar sem pedir nada em troca. Este amor é merecedor de mais. Este amor, este coração, este povo merece mais, muito mais. Merece um coração a bater igualmente intensamente como o nosso naquele relvado.

Este coração, que até consegue amar pelos dois, precisa e merece que se acabem os altos e baixos desta relação. Este coração merece uma equipa que deseje tanto ver aquele Toural vestido de preto e branco para festejar o Vitória Campeão quanto nós.

A grande desvantagem de ser Vitoriano é que poderá demorar uma eternidade para que o Toural, também ele coração desta cidade, um dia seja insuficiente para juntar todos aqueles que irão querer lá estar para celebrar o Vitória campeão.

O resto? O resto são histórias, são batalhas travadas e por travar. O resto são apenas obstáculos que iremos enfrentar sempre com a cabeça erguida porque um Conquistador só baixa a cabeça para beijar o símbolo do Rei.

Não sei se algum dia iremos conseguir mudar o sentido da roda. Não sei se algum dia esta triste sina do iô-iô irá acabar, mas sei que um dia o “desta vez” vai ser mesmo de vez e a única desvantagem de ser vitoriano vai ser não saber o que fazer com todas aquelas emoções que irão inundar este coração que nunca sentiu a felicidade imensa porque não se contenta com a felicidade dos outros, este coração que sempre soube amar pelos dois.

P.s.: A época de Murphy está oficialmente terminada. Encontramo-nos de novo na próxima época para voltarmos a ser felizes com o Rei ao peito.

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.