Alcochete, futebol e a media

A semana passada brindou-nos com uma sucessão de caricatas surpresas ligadas ao futebol que, com tal dimensão e gravidade, raramente têm lugar no nosso país. Os apaixonados pelo desporto rei e muitas outras pessoas que vivem o fenómeno desportivo pressentiam já que algo corria menos bem para os lados de Alvalade. O presidente do Sporting deixava adivinhar uma instabilidade de comportamento, com laivos de prepotência, exigindo prestações dos seus atletas que só casualmente acontecem. A noção das capacidades do clube de eleição não pode ser obnubilada ao ponto de se lhe exigir vitórias perante adversários de outro potencial, que só excecionalmente se verificam.

A um líder sensato impõe-se a ponderação de vários fatores nas expectativas que coloca: a categoria dos adversários, a competitividade do país onde atuam, os orçamentos chorudos de que dispõem, e se tudo isto se reflete numa grande capacidade competitiva. De quando em vez, perante adversários daquela dimensão é possível alcançar uma ou outra vitória. Mas é a exceção e não a regra, como aconteceu em Madrid. Culpabilizar os atletas de falta de profissionalismo face à derrota e instigar os sócios a menoriza-los, por vários processos, não se ajusta à liderança de um clube com a dimensão do Sporting. Se esta loucura toma proporções de assalto às instalações do clube, em dia de treino, com indícios de verdadeiro terror, como foi testemunhado, então, o inimaginável aconteceu.

Sem pretensões de grande rigor descritivo, já escalpelizado até à exaustão no país e no estrangeiro, convém analisar o tratamento que a media deu a tudo isto, ao longo de uma penosa semana. O tema tomou conta do espaço mediático e parece nada mais ter acontecido no país, durante este período, para lá da crise leonina, com epicentro em Alcochete.

Todos nós sabemos que, hoje, o futebol profissional não é um desporto, mas sim um negócio chorudo, com vários alçapões e galerias subterrâneas que escondem as perversões que por lá passarão. A comunicação social dá palco e tempo desmedido a discussões fúteis e estéreis, a destilar pesporrência clubística, vestidas de boçalidade primária, que tem como consequência imediata o estímulo à agressividade e à violência. As discussões subalternizam a real importância do jogo em si e ecoam nas gentes simples que se deixam fanatizar por tão ridículas prestações verbais.

Acresce ainda a triste imagem das claques enclausuradas na sua caixa policial, em jogos especiais, que, com a linguagem “tribal” que as carateriza, nos dão um espetáculo definidor do que é negativo numa sociedade que deve preservar outros valores. Os participantes não demonstram um amor ao seu clube de eleição, como nos querem fazer crer. De facto, iniciado o jogo, muitos destes viram as costas ao espetáculo desportivo e assumem-se líderes de um outro, o seu, afinal o que os leva até ao estádio. São os petardos, as fumarolas, os cânticos rascas, para eles a verdadeira festa.  O jogo é só um pretexto para a exaltação do primarismo mais básico que cultivam.

Há uma franja maioritária da nossa população que clama contra o massacre televisivo que nos impingem quase diariamente, mas sem êxito. Mesmo que se goste do futebol e do desporto, em geral, não é admissível a tortura a que nos sujeitam. A força do negócio que enroupa o desporto está na primeira linha dos obstáculos a transpor. Os potentados da comunicação mandam às malvas a pedagogia que lhes devia caber. Em vez disso protegem este estado de coisas, dando palco à verbalização da intolerância, dos falsos valores, do que é mais rasca, sabendo que, com estes métodos, seguram as audiências, como lhes convém.

Numa situação extrema como a da semana passada, aos olhos dos incautos, o país parou. Alcochete nunca se viu tão propagandeada como então. Os feitos relatados não abonam a favor dos seus executores e todos compreendemos que a vila de Alcochete nada tem com a arruaça de que foi palco. O que se passou vitimizou o Sporting, clube com dimensão e estatuto reconhecidos, que alguns órgãos sociais do clube não souberam respeitar, por demérito de uns e inação de outros.

Perante tudo o que se passou, que levou até à intervenção das mais altas figuras do Estado, algo há a fazer no que à legislação que rege o desporto profissional diz respeito, muito particularmente ao futebol. A imagem do país não merece isto e o desporto enquanto mobilizador dos adeptos também não. O que se dispensa é o fanatismo cego e irracional impingido todos os dias, de uma forma larvar, que não pode continuar. A manter-se tal estado de coisas, dada a projeção mediática do futebol, o ridículo atinge-nos a todos e predispomo-nos a ser alvo de chacota no país e além fronteiras.

Guimarães, 24 de maio de 2018

António Magalhães