Desordenamento

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À boleia das reflexões recentemente publicadas por Samuel Silva (“Nenhuma ideia de cidade” in Reflexo – https://reflexodigital.com/nenhuma-ideia-cidade/), Filipe Fontes (“A projecção das cidades” in Correio do Minho) e Tiago Laranjeiro (“Duas ideias de cidade” in Mais Guimarães – https://maisguimaraes.pt/duas-ideias-de-cidade/) aproveito para deixar o meu contributo focado em três áreas.

Em primeiro lugar, os instrumentos de gestão do território, nomeadamente o Plano Director Municipal (PDM). Sendo um importante instrumento de planeamento da utilização do solo e de ordenamento do território, foi tratado pela CM Guimarães com um desprezo tal que hoje obriga a mesma CM Guimarães vir publicamente admitir que não existem terrenos para instalar empresas de grande escala e dimensão em Guimarães.

Ao fim de 30 anos de poder absoluto do PS são cada vez mais nítidas as virtudes e os defeitos das opções políticas. No que respeita ao planeamento e ordenamento do território a falha é clamorosa e com impacto muito significativo na economia local, principalmente na capacidade por competir por certo tipo de investimento. Detenho-me neste ponto para focar apenas um dos vários impactos negativos da irresponsabilidade política de quem desprezou instrumento tão fundamental para a implementação de políticas de planeamento, ordenamento e coesão do território.

Em segundo lugar, recordar que para quem não sabe para onde quer ir qualquer caminho serve.

Ainda sou do tempo em que se vendia a ilusão da cidade dos 100.000 habitantes.

Também me lembro do tempo em que se vendia a ideia de que Guimarães passaria a viver do turismo.

Depois veio o tempo em que a moda era defender as indústrias criativas como catalisador da transformação económica de Guimarães.

Entretanto alguém lembrou que Guimarães tem uma forte vocação industrial e vai daí o regime passou a apontar à captação de investimento e ao desenvolvimento do tecido industrial do concelho.

Obviamente não é possível definir um ordenamento do território minimamente capaz quando se está constantemente a mudar o foco do desenvolvimento e a reorientar o caminho a fazer para áreas tão distintas e em tão curto espaço de tempo. Voltarei à questão do conceito/ideia/visão abaixo.

Em terceiro lugar, os “agentes de urbanismo”.

Se a classificação do Centro Histórico de Guimarães como Património Mundial da UNESCO (Dezembro 2001) foi o corolário da aposta numa determinada visão para o urbanismo, tão ou mais importante foi o efeito de contágio que induziu naquilo que passaria a ser o conceito de cidade.

A ascensão de Alexandra Gesta ao lugar de vereadora reflectiu precisamente essa circunstância e foi natural a continuidade que se verificou na ideia de cidade e, por conseguinte, nas acções do município que nessa área mantiveram alguma coerência com a intenção de acrescentar cidade histórica à cidade cujo melhor exemplo será talvez o trabalho realizado na zona de Couros.

(Talvez a transferência do Mercado Municipal tenha sido a decisão mais incoerente neste âmbito. O Futuro o julgará.)

Hoje não há a mínima noção da cidade que podemos esperar.

De Domingos Bragança é normal esperar chavões sobre a cidade, é um hábito.

Mas de Seara de Sá não. E infelizmente não se lhe conhece a ideia de cidade que preconiza.

Exceptuando talvez a ciclovia que a atravessa e de que se sabe ser adepto. Ou do estudo que realizou nas vésperas das autárquicas sobre o estacionamento em Guimarães para ajudar a defender o ponto de vista do executivo municipal sobre a construção do parque de estacionamento de Camões/Caldeiroa – sendo que semanas depois se candidataria a Vereador da versão 2.0 desse executivo – obra que pode colocar em causa precisamente a classificação e o crescimento da cidade histórica…

Concluo da seguinte forma: será importante utilizar bem as ferramentas de planeamento e ordenamento do território e de gestão urbanística para promover a qualidade de vida nas suas diferentes dimensões, tendo noção de que o seu impacto é de médio/longo prazo e que servem para apoiar a materialização de uma ideia de cidade e de território que tem que ser debatida entre a sociedade que dela/dele usufruiu e o Município que a promove e implementa, contando necessariamente com “agentes de urbanismo” comprometidos com um desígnio e uma missão muito maior que o seu próprio tempo e momento, por um território com qualidade logo futuro.

 

Alexandre Barros Cunha, 34 anos, engenheiro civil de formação abraçou a gestão de operações por vocação. Tendo liderado a JSD em Guimarães e no distrito, é hoje deputado municipal, vice-presidente do PSD Guimarães e membro do Conselho Nacional do PSD.