Politicamente correcto

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De acordo com o Cambridge Dictionary, a definição de politicamente correcto é a crença de que a linguagem e as acções podem ser ofensivas para alguns grupos de pessoas, ou que excluem esses mesmos grupos, marginalizando-os e insultando-os, especialmente aqueles que se definem pelo sexo ou pela etnia. Esta expressão é usada de forma pejorativa muitas vezes como se fosse de alguma forma limitadora ou se interferisse na nossa liberdade de expressão. Este é o argumento de alguns conservadores nos países anglo-saxónicos, onde a discussão sobre o politicamente correcto está ao rubro.

Vejamos Donald Trump, que ganhou as eleições sendo aquilo que muita gente chama de politicamente incorrecto, por “dizer as coisas como elas são”. Quando confrontado com algumas afirmações pouco felizes sobre mulheres, Donald Trump afirma que “o grande problema deste país (EUA) é ser politicamente correto”. Durante a sua campanha, Donald Trump afirmou que os imigrantes mexicanos eram violadores, defendeu o veto à entrada de muçulmanos nos Estados Unidos e insinuou que uma jornalista o tinha tratado com rispidez porque estaria menstruada. Aparentemente, foi exactamente este tipo de comportamento que aproximou o eleitorado.

O uso do politicamente correcto veio pôr uma capa bonita nos discursos, que não estão obviamente em concordância com aqueles que são os pensamentos e valores reais. Saber que não se deve dizer uma coisa, não é o mesmo que escolher não dizer uma coisa.  O advento de liberais anglo-saxónicos que defendem que o politicamente correcto é uma ameça à liberdade de pensamento e expressão está a pôr à superfície o que existe debaixo dessa mesma capa: pessoas assustadas.

Somos seres assustados e inseguros. Preferimos ter a sensação de que estamos certos do que reconhecer que não sabemos, não conhecemos e mostrarmos vontade em conhecer aqueles que por alguma razão, desconhecemos. É mais fácil estarmos sentados no sofá a emitir juízos de valor sobre pessoas que não conhecemos ou situações das quais nada sabemos. E enquanto puxamos a mantinha e nos aconchegamos, há uma parte da sociedade que se sente excluída, que não se sente integrada. Temo que se não fizermos um esforço colectivo para uma sociedade mais coesa, o preço a pagar será demasiado alto.

Luísa Alvão, 33 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha como programadora e produtora do Shortcutz Guimarães. É também fundadora e presidente da Capivara Azul – Associação Cultural.