Voltar ao centro da questão

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Na última semana não houve artigo, como habitualmente à quarta-feira, por estar ausente de Guimarães. Esta pausa levou-me a uma reflexão sobre a centralidade na discussão do modelo de cidade que preconizamos.

A discussão do futuro das Cidades faz-se sob a perspetiva de uma panóplia abrangente de temas. Saber o que se pretende para um Território implica ter soluções que vão da Economia à Ação Social, da Saúde à Educação, do Planeamento Urbanístico à Mobilidade, do Desporto à Cultura.

Sendo certo que não se pode gerir o presente e planear o futuro sem respostas para todas as áreas, o modelo de desenvolvimento de um espaço territorial, a qualquer dimensão, tem que centrar-se em pontos essenciais de políticas públicas que agreguem as restantes e lhe deem um fio condutor.

Para lá do modelo de desenvolvimento prosseguido, também a discussão política acompanha, normalmente, as dinâmicas da orientação estratégica que vai sendo plasmada nas iniciativas, projetos e obras de quem toma as opções.

Em Guimarães este facto é absolutamente evidente em duas fases distintas: o pré e pós Capital Europeia da Cultura, e o pós-anúncio da candidatura a Capital Verde Europeia. Durante mais de uma década a discussão esteve centrada na Cultura e Património e nos últimos quatro anos acrescentou-se-lhe a camada da Sustentabilidade Ambiental.

Aceitando que uma série de outros assuntos, mais ou menos passageiros, tenham que estar no centro da discussão, porque há urgência de encontrar respostas para questões como o emprego, o comércio, a saúde ou a ação social, é importante que o debate e a estratégia estejam mais focadas nos motores de desenvolvimento e na ideia de território que se pretende projetar.

Já tive oportunidade nesta coluna de ao longo do último ano procurar desenvolver sobre o modelo que defendo. Não tenho dúvidas que, na sua maioria, este é o modelo que está alinhado com as opções estratégicas de quem detem o poder. Um território moderno e cosmopolita, assente na produção cultural, atento às prioridades que os agentes destas áreas mais valorizam.

A concretização desta visão de cidade comporta em si várias bandeiras que a acompanham, desde logo na Sustentabilidade Ambiental e na Transformação Digital, no que à modernidade e a um território cosmopolita diz respeito. São assim as cidades do Norte da Europa que tanto admiramos.

A concretização desta visão de cidade carrega também consigo a orientação estratégica das restantes políticas públicas. O planeamento do território, a educação, a economia ou o turismo constroem-se em cima destas linhas orientadoras.

Fazer centrar a discussão pública em questões que deviam ser instrumentais, nas políticas que deveriam estar alinhadas, em primeira instância, com o modelo de desenvolvimento do território e deixar para segundo plano a cultura, o património e a sustentabilidade é um erro.

É por isso urgente recentrar a discussão naquilo que mais interessa aos vimaranenses. Rejeitar que passemos todo o tempo a discutir o aumento da população – como se a quantidade significasse qualidade de vida – ou a procura de grandes empresas de mão de obra barata e intensa.

A ausência de discussão sobre estes temas nunca poderá querer dizer apenas que está tudo bem. Em primeira instância porque há sempre espaço para encontrar novas áreas e outros patamares, ou mesmo refletir se faz sentido ir para novas áreas ou alcançar maior especialização, e, por outro lado, porque até da reflexão coletiva sobre aquilo que de bem se faz se podem tirar ilações de aperfeiçoamento.

Vamos voltar a discutir a Cultura?

Paulo Lopes Silva, 30 anos, é Adjunto para a Cultura da Vice-Presidente da Câmara de Guimarães. Líder parlamentar da bancada do Partido Socialista na Assembleia Municipal de Guimarães, de que é membro desde 2009, ano em que foi candidato a presidente da Junta de Freguesia de São Sebastião. Licenciado em Engenharia Informática e Mestre em Engenharia de Sistemas pela Universidade do Minho. Foi Diretor Nacional de Organização do Partido Socialista entre 2011 e 2014.