Outra vez o “Diz-se que…”

No primeiro aniversário de artigos de opinião no Duas Caras refleti sobre a responsabilidade que vem com a possibilidade que nos é dada de publicar sem direito a contraditório. (link: https://duascaras.pt/2018/04/11/um-ano-de-muita-responsabilidade/)

Dizia a certa altura que “… nem toda a gente tem a mesma perspetiva sobre esta temática e muitos são os exemplos de quem aproveita os seus espaços de opinião para criarem opinião sobre factos também criados no seio desses textos.”

No discurso da sessão solene do 25 de abril da Assembleia Municipal de Guimarães (link: https://duascaras.pt/2018/04/25/paulo-lopes-silva-todas-estas-conquistas-e-sonhos-de-abril-se-devem-na-sua-maioria-ao-poder-local/), refletindo sobre um tema em tudo semelhante, acrescentei: “A dimensão política e ideológica perde para o imediatismo, e a seriedade e a ética capitulam perante os “Diz-se que…” e os “Sendo verdade…” como prefixos de uma opinião sobre a mais desavergonhada mentira.”

Volvidos quatro meses, deparo-me esta semana num jornal local vimaranense, com um artigo de opinião do candidato à Câmara de Guimarães pelo Bloco de Esquerda, Wladimir Brito, que começa, precisamente, com a primeira expressão citada no discurso do 25 de abril, e conclui com a segunda:

“Diz-se por aí que alguém com responsabilidades na cidade, a propósito do licenciamento actividades ruídosas no Centro Histórico, terá afirmado que os moradores não podem reclamar, visto que esses prédios situado nesse centro estão isentos do IMI. A ser verdade tal afirmação, ela é política e socialmente grave e inaceitável.” (ler mais aqui link https://maisguimaraes.pt/pela-cidade-23/ )

A reflexão sobre uma suposta verdade, leva a conclusões sobre um suposto facto criado no próprio artigo, seguindo-se-lhe o epíteto de “infeliz” para um suposto autor da suposta frase.

Este é todo um tratado sobre uma nova forma de fazer política em que não me revejo e que rejeito liminarmente. A utilização de um facto não confirmado, sem identificação do autor, com levantamento de suspeição sobre todos os responsáveis “da cidade”, para criar argumentação sobre um assunto sobre o qual nada mais haveria a dizer.

Tratando-se de um caso isolado, muito provavelmente não perderia um segundo a comentá-lo. Dá-se o caso de este ser o mesmo candidato que no decorrer das últimas eleições utilizou como principal “arma eleitoral” supostas pressões, suspeições sobre corrupção e outros artifícios sem conclusão, nomes ou casos concretos.

Entristece-me ainda mais quando, sendo alguém que não conheço pessoalmente, se trata de uma personalidade por quem me habituei a nutrir respeito intelectual ao longo dos anos.

Infelizmente, são estes os novos tempos da pós-verdade que ajudarão a destruir o que resta da confiança num sistema político em que são os seus atores os primeiros a incorrer neste tipo de prática.

Diz-se que agora é assim que se faz política. A ser verdade, estamos todos tramados.

Paulo Lopes Silva, 30 anos, é Adjunto para a Cultura da Vice-Presidente da Câmara de Guimarães. Líder parlamentar da bancada do Partido Socialista na Assembleia Municipal de Guimarães, de que é membro desde 2009, ano em que foi candidato a presidente da Junta de Freguesia de São Sebastião. Licenciado em Engenharia Informática e Mestre em Engenharia de Sistemas pela Universidade do Minho. Foi Diretor Nacional de Organização do Partido Socialista entre 2011 e 2014.