Movimento Poético #1

Por César Elias

Nascente de sangue

Vem ter comigo, Diabo
De ti eu sei o que esperar
Cheira a estalos das tuas faúlhas
Por todas estas ruas
Por todo os lugares
Só pode ser teu este caminho que nos rompe os pés
Esta estrada
Só pode ser teu, este véu negro
Que se avizinha da estratosfera
Perdoai-os, Diabo
Pois não souberam de Deus
Não souberam de si
Não se souberam amar
Como o crisântemo ama a abelha
Assim como as rochas amam a espuma
As miragens a luz
Os cegos as mãos
Os homens os vícios
Os vícios os filhos
Os filhos as mães
As mães a televisão
A televisão o caos
O caos os homens
Os homens a morte
A morte o Diabo
Vê como te querem, demónio
Vê quão impiedoso é teu tempo
E eu
Eu que nada de nada sei
Eu que sonhei ser um falcão perdido
Ajoelhar-me-ei
Ajoelhar-me-ei à nascente de sangue que te me trará
Que te me trará um dia para me levares o mundo

*rubrica cujo título é inspirado em António Gedeão