O amor não dói

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O início do ano revelou um número assustador e incompreensível: a violência doméstica matou nove mulheres nos primeiros dias de 2019.

É ainda mais assustador quando o último caso de violência doméstica com impacto social retrata uma violência tão atroz como a morte de uma criança de dois anos.

Mulheres, crianças, homens, idosos, população LGBT, muitos são os que sofrem de violência doméstica escondida entre quatro paredes. O estatuto social, a classe social também não protegem aqueles que sofrem em silêncio todo o tipo de violência.

Vemos cartazes que nos sensibilizam, números de telefone disponíveis para quem deles necessitar, correntes nas redes sociais que demonstram indignação e solidariedade por quem sofre, as denúncias aumentam e muitas vítimas ganham coragem para dizer “basta”.

No entanto, ouvimos cada vez mais histórias de medo, de falta de protecção, de processos arquivados sem provas e sem condenação. As vítimas desistem do processo de violência doméstica que deixa as quatro paredes e passa para a esfera pública. A vítima fala com a polícia, com os técnicos, com os psicólogos, com os advogados, com as assistentes sociais, com os professores dos filhos, com a entidade patronal e dependendo dos casos passa a ver a sua vida completamente exposta na televisão e nos jornais.

As vítimas serão vítimas da sua denúncia, da sua luta para conquistarem a liberdade perdida e a sociedade ainda não foi capaz de encontrar soluções mais rápidas, concretas e menos violentas para proteger aqueles a quem se promete protecção.

As notícias relatam as histórias de nove mulheres mortas pela violência doméstica, as notícias não relatam as histórias de homens com medo de revelar a violência de que são vítimas. As notícias não relatam o número de crianças que convivem com a violência doméstica e que só em casos muito específicos são considerados também, elas, vítimas da mesma violência. As notícias não descrevem o número de idosos vulneráveis pela doença ou pela velhice que são vítimas de violência.

É urgente continuar a denunciar para que as entidades responsáveis possam agir. É necessário exigir das entidades responsáveis mais celeridade na resolução dos casos e para isso é urgente contratar mais técnicos e especialistas. Estar sinalizado não é suficiente.

A violência doméstica é um crime público, podemos e devemos todos denunciar, mas podemos e devemos todos também educar para a paz e para o respeito ao próximo. Não somos donos de ninguém mesmo que a pessoa que está ao nosso lado usufrua de um salário menor, seja mais sensível ou vulnerável. Devemos e podemos educar para o amor enquanto sentimento que transporta felicidade e não dor.

Mariana Silva, 36 anos, licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos, na Universidade do Minho. É eleita na Assembleia Municipal de Guimarães desde 2009, eleita na Assembleia da União de Freguesias Oliveira do Castelo, São Paio e São Sebastião desde 2013 e membro do Conselho Nacional do Partido Ecologista “Os Verdes”.
Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.