O momento político em Espanha e o futuro da Europa

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A fragilidade do governo espanhol, empossado com um apoio parlamentar politicamente heterogéneo, para derrubar a liderança de Mariano Rajoy, desde o início não augurava nada de bom. A esta solução, pouco fiável, não eram estranhos os acontecimentos na Catalunha que o antecederam, cujas feridas, longe de estarem saradas, pareciam propiciar-lhe, agora, um ajuste de contas, sem sentido numa democracia madura. Sanchez não podia ceder às pretensões da Catalunha, sob pena de ferir a Constituição que os líderes independentistas interpretam ao sabor dos seus interesses políticos. Estes, longe de ponderarem as suas aspirações perante um governo que aceitou o diálogo, sentiram-se confortáveis para subir a parada das suas reivindicações, até contribuírem com o seu radicalismo para a queda de um governo que, compreende-se agora, decidiram então apoiar para, face a um interlocutor que não fechou as portas ao diálogo, obterem compromissos que este não podia conceder-lhes. Por outro lado, desde a primeira hora, Sanchez nunca provou estar à altura de tamanha responsabilidade como primeiro-ministro. Primeiro por ter um suporte parlamentar politicamente inseguro e também pela fragilidade demonstrada por vários membros do governo que constituiu. Demonstrou ainda uma certa ingenuidade política, que sempre revela alguém que assume tão importante cargo sem ter passado pelos corredores do poder executivo. Neste cenário débil, os independentistas Catalães tentaram resolver os seus insolúveis problemas, exigindo do primeiro-ministro concessões que à luz da Constituição espanhola este não podia fazer-lhes.

Acresce a tudo isto o aparecimento, como que do nada, da extrema-direita “impoluta”. Ganhou estatuto, organizou-se em força partidária, o Vox, e logo demonstrou ao que vem. Perante o resultado nas eleições na Andaluzia constituíram-se como fiel da balança para derrotar o PSOE, que ainda ganhou nas urnas, mas sem maioria. A direita tradicional espanhola, sem quaisquer constrangimentos, aceitou o apoio do Vox e as suas exigências e passam a governar a Andaluzia, um tradicional feudo político-partidário do PSOE nas últimas quatro décadas. Perante isto, o sinal de partida para uma convergência a nível nacional estava dado.

Em Espanha explora-se a inabilidade de Sanchez e a fragilidade do seu governo, ao mesmo tempo que cresce a onda de populismo que inunda as democracias tradicionais após o aparecimento de Trump, nos Estados Unidos. Este, com a sua política errática, transformada em negócio de estado, anima as hostes do radicalismo de extrema-direita. Os partidos da direita espanhola, após o derrube do governo minoritário do PSOE, não  terão pejo em aceitar o abraço dos extremistas do Vox e, a curto prazo, após eleições, formar um governo que trará à ribalta a séria questão da Catalunha, agora sem laivos de moderação, mas com a mão dura típica de tais governantes. Os independentistas colaboraram para que tal aconteça, ao contribuir para o derrube do governo de Sanchez, e passarão a compreender a diferença entre o razoável e sensato e a imposição, se necessário pela força.

Neste cenário, não é preciso ser profeta para antever que algo de muito perigoso para a estabilidade democrática da Espanha pode vir a acontecer, constituindo-se como mais um foco de perturbação nesta Europa quase à deriva.

O Brexit no Reino Unido, os coletes amarelos em França, as tensões entre esta e a Itália e a já fragilizada Merkel, na Alemanha, a acrescer à deriva autoritária dos países da Europa de Leste  que a União Europeia ignorou, constituem um caldo de cultura  que prenuncia uma viragem do rumo político que aí vem. Os exemplos externos ao velho continente, nalguns casos seguindo processos similares de utilização de métodos democráticos para derrubar a democracia por dentro, prenunciam um velho/ novo tempo político deveras preocupante.

A incapacidade de tantos governantes de lidar com os desafios que hoje se colocam, a impreparação política de alguns, para além da clara, e tantas vezes confrangedora, falta de visão, de carisma e de estatuto, poderá trazer-nos de volta as autocracias, ainda tão presente nas nossas memórias.

A muitos dos atuais líderes europeus pode assacar-se a incapacidade (ou falta de vontade?) de dar resposta capaz às exigências de um tempo novo que a globalização nos trouxe e que os avanços tecnológicos permitiram robustecer. A Europa fraturada, na política que devia ser comum, já não tem voz entre as grandes potências. A História diz-nos quão penoso pode ser o futuro de um continente que, unido durante algumas décadas, foi exemplo de paz, estabilidade, de solidariedade, de bem-estar para os seus povos. A hegemonia e a força que  conquistou nesse tempo deveu-se à visão e estatura de líderes fortes e carismáticos, que souberam dar primazia aos valores e ideários que os animaram, por uma Europa unida na paz, na democracia, na solidariedade. Os líderes de hoje, sem estatura que os possa sequer comparar aos líderes fundadores da União Europeia, fecham-se no abismo de nacionalismos que nos inquietam o presente, nada promissor para o futuro de todos.

António Magalhães é licenciado em História pela Universidade do Porto, foi deputado da Assembleia da República e vereador da Câmara de Guimarães, de 1976 a 1990,  foi Presidente da Câmara de Guimarães, de 1990 a 2013, e Presidente da Mesa da Assembleia Municipal de Guimarães, de 2013 a 2017. Atualmente é presidente do Conselho de Curadores do Instituto Politécnico do Cávado e Ave, com sede em Barcelos.