SOBRE O DIREITO À GREVE DOS ESTUDANTES

Um caso isolado (e uma forma de protesto)

“Vocês não têm direito a greve, a nada: não descontam, não têm sindicato, não fazem nada.*”

*Excerto de um discurso/acusação a um grupo de alunos do 8º ano, em Guimarães, levado a cabo por uma pessoa a quem chamam “professora”.

O “tomar de pressuposto” e o “dado adquirido” são premissas muito perigosas numa sociedade que se quer progressista e sustentável.

O que aqui escreverei não escapará, por certo, à polémica dos dias, mas é o que sinto há demasiado tempo.

Um bocado (ou muito) a reboque desta greve pelo clima, dei por mim a navegar pelas turvas águas do meu tempo de escola.

Tenho quase a certeza (não tenho a certeza absoluta porque faltam-me alguns dados, estou a ver se algum “especialista” me elucida) de que a minha geração, a que veio ao mundo durante a década de ’80 do século XX, foi a primeira a “amouchar” de forma mais pronunciada.

A geração anterior, que sofreu cargas policiais e que acabou (ou que fez por acabar), por exemplo, com a prova geral de acesso (a PGA, de acesso à universidade), e que alguém catalogou de “rasca”, foi a última a erguer-se contra o estabelecido.

É extraordinário que ainda haja um “elefante” no meio da sala, espécime esse que continua, de forma milagrosa, a escapar por entre os pingos da chuva.

Acham, mesmo, que o mal está nas tecnologias?

Quem as desenvolveu? E quem desenvolveu a forma de venda dessas mesmas tecnologias? E quem as implementou no mundo com que nos deparamos? Apareceram de geração espontânea, como a classe política de que tanto se queixam?

O nosso verdadeiro problema é a ausência de espírito crítico, uma ausência imposta e ditada. Antigamente, havia a inacessibilidade à informação, hoje esta excede, em muito, qualquer expectativa.

Apesar disso, empurram-nos para determinadas formas de pensar e agir, valorizando o que lhes interessa, apoucando o que se julga supérfluo. Há um clima de insustentável competição, por tudo, para tudo. Somos levados, no século XXI, a viver uns contra os outros.

O direito à educação foi substituído pela obrigação em ir à escola, neste modelo, desta forma, sem alternativa, o que torna as crianças num dado adquirido, sem haver qualquer respeito pelas suas especificidades; jogadas, sem qualquer piedade, para uma espécie de corrida equídea retorcida, que vai determinar quem serve e quem não serve.

É um dado adquirido, neste sistema, que vai haver crianças numa qualquer escola. O que não é certo é que essas crianças terão um(a) professor(a) em condições. E poder-me-ão dizer “ah, mas também pode acontecer que quem lecciona não tenha alunos interessados.”. Pois, aí reside o verdadeiro problema: não tem de ter. Ninguém pode ser forçado a participar, na maior parte dos casos, numa lavagem cerebral.

Convencionou-se que a motivação é um tipo de requisito embutido nos cérebros.

As crianças são esponjas. Absorvem tudo. Têm um potencial incrível. É, quase sempre, desperdiçado. Ficamo-nos pela exaltação de meros repetidores de informação, na esmagadora maioria dos casos. Mas as pessoas aplaudem. É uma epidemia. Medíocre.

Respeitem todas as áreas, todas, e respeitem as características de todos os alunos, e talvez eu mude de opinião. Até lá, não há democracia alguma neste sistema.

O texto já vai longo, e, na verdade, o que eu queria escrever era, tão só, o seguinte:

No secundário, fim dos anos ’90, calhou-me em “sorte” (entre aspas, porque a sorte, aqui, foi destino e não fortuna), um específico professor de filosofia. O sujeito sempre acreditou que era uma figura da autoridade (postura que sempre abominei em pessoas que seguem a carreira docente).

A dada altura do ano lectivo, creio que a meio do 2º período, depois de um teste qualquer, alguém da turma perguntou ao professor quando é que iria entregar os testes, já corrigidos. Ele tinha acabado de chegar à aula. Olhou em redor, lançou uma pergunta para o ar (“que turma é esta?”), e, sem que alguém tivesse sequer tempo de proferir algo, respondeu à sua própria questão:

– Ah, já sei. É a das vinte e quatro meninas…e meia!

A “meia” era eu. Tinha mudado de área, e assisti, durante um ano, a apenas três disciplinas (as outras haviam sido realizadas noutro curso), numa turma exclusivamente feminina (os cursos de HUMANIDADES, carácter geral, que alguns, ou muitos, estigmatizaram, em nome da deusa competição, apelidando-os de “cursos para burros”, tinham essa quase-característica).

Não lhe respondi. Zero. A partir dali, a minha greve fez-se de forma muito recatada: figura de corpo presente, nas aulas. Participação nula (se bem que, no fundo, participar naquelas aulas era infrutífero). Testes? Em branco, apenas com o meu nome, até ao fim do ano. Chumbei à disciplina? Claro que chumbei. Felizmente.

O direito à greve também é isto. E este é o meu recado, humilde na forma e no conteúdo, para aqueles que tentam descredibilizar a capacidade de mobilização dos Jovens (em torno de um dado ideal). Faltem às aulas, aos testes, aos exames, por causa do clima, do sistema, da discriminação racial ou sexual, pelo exacerbar dos rankings entre pessoas, etc etc etc.

Se falharem, falhem a fazer algo em que acreditam. Falhar no que os outros querem é tempo perdido. E, muitas das vezes, acertar no que os outros querem também. Quase sempre.

No fim do meu ‘cv’, a que chamo ‘porta-fólio’, tem lá escrito “activista”. É só isso (e, afinal, tão fácil de resumir: era escusado tanto texto).

Paulo César Gonçalves, Dramaturgo

NOTA: Por expressa decisão do autor, este texto não obedece às normas do novo acordo ortográfico da Língua Portuguesa.