Westway Lab. Esta primavera chega com a brisa do outro lado do Atlântico

Após cinco edições de diversidade estética e geográfica, embora sempre nos limites da Europa, o Westway Lab promove neste ano a música independente do Canadá. Este é um dos destaques de um festival que vai ter 29 concertos de 10 a 13 de abril, mas não relega para segundo plano as suas outras marcas: as residências artísticas e as conferências sobre a indústria musical. Com os espetáculos repartidos por mais pontos da cidade, o evento quer ganhar escala e tornar-se numa referência nacional, no que aos festivais de primavera diz respeito.

Por Tiago Mendes Dias

Em abril, o Canadá vai chegar à cidade berço à boleia de sonoridades folk, pop e rock de cinco dos nomes emergentes na sua cena musical independente – Sarah MacDougall, Tribe Royal, Megan Nash, Les Deuxluxes e The East Pointers vão todos passar pelo Centro Cultural Vila Flor (CCVF), na noite de 12 de abril, uma sexta-feira. Tal como aconteceu em 2018 com a Áustria, na primeira ocasião em que houve um país convidado, a comitiva canadiana vai ser alvo de uma receção formal no Paço dos Duques, às 20:00 desse mesmo dia.

Desde que surgiu, em 2014, o Westway Lab assumiu-se como uma montra para artistas emergentes, até pela presença em redes europeias de festivais independentes como o Programa Europeu de Intercâmbio de Talento (ETEP) e a Rede de Inovação de Showcases Europeus (INES). Os concertos em formato showcase – performances de 30 a 45 minutos – e a criação de música original em residências artísticas mostram-no. Mas o horizonte deste formato sempre foi a Europa. Neste ano, essa fronteira é quebrada, graças à relação que se começou a estabelecer entre a cidade e a embaixada do Canadá ao longo do último ano, assumiu o programador do evento, Rui Torrinha. “Há uma relação muito forte que estamos a estabelecer com este país”, disse, à margem da apresentação do cartaz do festival. “Esta edição é mais planetária, porque damos o salto para fora da Europa. Temos o desejo de estreitar laços com o resto do mundo”.

Do outro lado do Oceano Atlântico, disse ainda o responsável, há um país que quer “promover a sua cultura além-fronteiras” e mostrou, por isso, uma vontade genuína em participar no Westway Lab, à boleia da Associação de Música Independente do Canadá (CIMA). Esta relação, no entanto, só se tornou possível, porque a embaixada canadiana em Portugal recebeu alguma autonomia para promover a cultura do seu país. Guimarães acabou por ser um alvo privilegiado nesse esforço. “Decidimos que a primeira viagem fora de Lisboa seria a Guimarães e ficaram logo algumas promessas na mesa. Progrediu tudo muito rapidamente”, confessou o assessor da instituição, Eurico Nobre.

O responsável descreveu o Canadá como um “mosaico cultural”, onde cada artista pode ser “a versão que quiser de si”. Este ponto de vista é partilhado por Pierre Kwenders, artista da cena de Montreal que já trabalhou com os portugueses Branko e Throes and the Shine e vai actuar no Centro Cultural Vila Flor, nesta sexta-feira, passando depois por Lisboa, no sábado. Criador de música diversa nos estilos – os sons africanos e ocidentais coexistem – e também nas línguas – canta em inglês, francês, lingala e tshiluba -, Pierre realçou que, naquela cidade, consegue ser a “melhor versão de si próprio”. “Podes ser quem tu quiseres”, afirmou. “É uma cidade com uma mente muito aberta. Nasci na [República Democrática do] Congo e cheguei a Montreal aos 16 anos. Olhe-se para os Arcade Fire. Nem todos os elementos nasceram lá, mas a cidade tem uma certa magia para se criar”.

 

Mais recintos, mais cidade

O Westway Lab estende-se de 10 a 13 de abril e, além do pendor canadiano, há muitos mais concertos para ver – 29, ao todo. O último dia apresenta nomes já instalados no panorama da música independente dos seus países; dos Estados Unidos, chega Tashi Wada para apresentar uma música capaz de fundir gaitas de foles e sintetizadores, em colaboração com Julia Holter, artista que regressa a Guimarães em Maio para um concerto a solo, e Corey Fogel; já Portugal vai estar representado pelos Black Mamba, cuja música bebe do blues e do soul norte-americano, e pelos Whales, uma das bandas da cena de Leiria.

Nos dias anteriores, há tempo e espaço para vários showcases, a começar pelos nomes selecionados pela ETEP: o holandês Jacco Gardner, que esteve na cidade berço em 2016 e regressa ao CCVF no dia 10, para apresentar o novo álbum, “Somnium”, num espetáculo em 360 graus para uma plateia reduzida a 150 lugares – será, por essa razão, o único evento pago do Westway Lab – e a italiana Violetta Zironi, cantautora que se inspira sobretudo na música norte-americana, no dia 11.

É também nos dois primeiros dias do festival que o trabalho das residências artísticas vai ser apresentado: quatro duplas de artistas, onde se incluem os vimaranenses Captain Boy e Lince, vão-se reunir no Centro de Criação de Candoso, a partir de 01 de abril, para criar música original. No dia 12, será a vez de promover outros nomes emergentes da música nacional – Vaarwell, Marta Pereira da Costa e Neev – no âmbito do programa Why Portugal.

Todas estas performances têm em comum o Centro Cultural Vila Flor, que vai ser propositadamente reorganizado para o festival. Vai haver espetáculos no Café Concerto e no Grande Auditório, mas vão também surgir dois novos espaços: a Box, que corresponde à metade traseira do palco do Grande Auditório e servirá para concertos em pé, e o Pátio, que corresponde à zona exterior coberta da infraestrutura, também para espetáculos em pé. “Pensámos modificar de forma surpreendente o recinto do festival. Serão recintos com mais espírito de festival”, explicou Rui Torrinha.

“Neste novo ciclo, a Oficina quer cada vez mais descentralizar. Que o CCVF e o CIAJG não sejam pontos únicos de irradiação de cultura para a cidade e para o território. Vamos tentar com que todos os festivais da cidade assumam essa dimensão”, João Pedro Vaz, diretor artístico da Oficina

Mas o Westway Lab também já se tem distinguido em anos anteriores por levar música a outras zonas da cidade. Neste ano, há oito showcases que, na tarde de sábado, vão passar por cinco pontos – o hotel Santa Luzia, o São Mamede, o Convívio, o Oub’Lá e o Bar da Ramada, com o tradicional comboio a levar os espetadores de um sítio para o outro. Presente na apresentação do programa, o diretor artístico da Oficina lembrou que um dos objetivos da cooperativa é fazer com que os festivais sejam “cada vez menos festivais e cada vez mais eventos da cidade”.

João Pedro Vaz realçou também que, além de trazer a Guimarães cultura de relevo do país e do mundo, é preciso inscrever nos programas a “criação artística do território”, algo que acontece neste evento. No sábado à noite, os vimaranenses Captain Boy, Mister Roland e Paraguaii vão atuar na praça exterior do CCVF. Rolando Ferreira, músico que dá vida a Mister Roland, já participou em outros festivais do INES e reconheceu que essas oportunidades o ajudaram a sair da “zona de conforto” para crescer como artista. Já Giliano Boucinha, dos Paraguaii, sublinhou que experiências como as proporcionadas pelo INES podem ser os “passos pequeninos” necessários a internacionalização – a banda vai atuar no Sound City, em Liverpool, no mês de maio.

 

Uma referência da primavera

“Daqui a alguns anos, será inevitável que, quando se fale de um festival de Primavera em Portugal, se fale no Westway Lab”, antecipou Rui Torrinha. Ao cabo de seis anos, o festival mantém a sua vocação internacional, quer nos concertos, quer nas conferências, atraindo todos os anos especialistas da indústria musical. Até agora, “nunca houve pressa em tornar o edifício mais do que as suas etapas”, realçou o programador; mais do que exposição mediática e bandas com nome, a Oficina quis até agora “trabalhar subterraneamente para preparar os alicerces de um edifício muito maior”, explicou.

Nesta edição, o Westway Lab reúne um conjunto de investidores e atinge um orçamento de 90.000 euros, verba que, para Rui Torrinha, acaba por ser reduzida, dada o alcance internacional da iniciativa. Para o futuro, a meta é reunir mais dinheiro e criar condições para que esse investimento possa ser rentável. Um dos meios para o conseguir é estender o festival a mais espaços da cidade e torná-lo num dos principais eventos musicais da Primavera nacional.

Mas a Oficina não o quer fazer à custa dos relacionamentos próximos que se foram criando nos anos anteriores. “A hospitalidade e a forma como a organização permite que o festival se traduza num tempo de qualidade são nossas marcas”. Nesse sentido, vai surgir já nesta edição o Lab Lounge, um novo espaço no foyer do CCVF, onde agentes, artistas e outros profissionais ligados à música vão poder reunir-se de forma informal, para trocarem contactos e abrirem portas a colaborações futuras.