“O tempo das transições”

Há dias, a convite do Instituto Politécnico de Leiria, tive a honra de assistir à última aula da Professor João Serra, individualidade a quem Guimarães muito deve pelo seu desempenho no período mais crítico de Guimarães Capital Europeia da Cultura 2012”. Com o estatuto que tantos lhe reconhecem, abordou o tema que serve de tema a esta, agora minha reflexão. Referiu-se em síntese, mas com pertinência, às transições que testemunhou no seu percurso de vida, explanando sobre as profundas mudanças que se operaram na segunda metade do século XX.

A profunda reflexão que a “aula” me permitiu interiorizar leva-me a que trilhe uma consideração similar para as quase duas décadas do século XXI, que perderá pela abordagem mais superficial, mas cuja pretensão é referir algumas mudanças ou sinais de mudança, agora, quase meteóricas, por que estamos a passar.

  • Começaria pelas alterações climáticas, tema feliz e infelizmente, na ordem do dia e que é merecedor das preocupações de todos nós, tal a evolução, negativa, de dimensão planetária e de uma violência extrema que torna tal fenómeno um dos mais destruidores com que a humanidade terá e tem que se defrontar. Para nós, o tempo das estações bem demarcadas, e que faz parte da memória dos mais velhos, não o é mais. Da África à Ásia, da Europa à América, assiste-se a fenómenos extremos e devastadores, que deixam atrás de si perdas de vidas humanas, fome e doenças, e que mobilizam a ajuda humanitária.
  • A radicalização ideológica que, subitamente irrompem em várias regiões do globo, constitui um outro fenómeno de transição a ter, seriamente, em linha de conta. Tudo parece viver uma turbulenta instabilidade com sinais evidentes em quase todos os continentes. Depois de, na segunda metade do século XX, termos assistido a uma abertura democrática, à existência de líderes fortes e carismáticos à escala internacional, de abertura ao outro, de liberdade, hoje somos testemunhas do fechamento, da radicalização política e religiosa, dos nacionalismos exacerbados, da xenofobia, do “messianismo” ignorante. Mudanças que merecem uma séria reflexão, justificação bastante para tentar fazer a leitura correta das razões que levam muitos a abraçar o que antes repudiámos e contra o que muitos de nós lutámos.
  • As novas tecnologias trouxeram infindáveis benefícios à humanidade e à nossa vida coletiva, da saúde à educação, nas empresas e nas nossas casas. O novo mundo que nos entrou porta dentro surge como uma oportunidade, propensa a resolver muitos dos problemas com que a sociedade se debate. As vantagens inquestionáveis e as profundas alterações que a tecnologia nos concede não têm discussão. Porém, a sua utilização serve também propósitos perigosos, da violação da privacidade à manipulação dos cidadãos, que faz mesmo com que um ou outro criador desta ou daquela rede social recomende aos cidadãos a sua desconexão.
  • As alterações climáticas, os conflitos e as guerras, a fome, a privação da liberdade estão na origem de migrações em massa e a uma velocidade nunca vista. À procura da liberdade, de melhores condições de vida e de oportunidades, muitos deixam a sua terra natal em circunstâncias perigosas e, muitas vezes, inimagináveis. Este fenómeno põe à prova a tolerância e capacidade de acolhimento e aceitação do outro e tem criado situações propícias à revelação do melhor e do pior de que a humanidade é capaz.
  • Finalmente, e para abordar apenas alguns dos mais marcantes sinais de transição que testemunhamos, atente-se na ação da Igreja Católica, tutelada pelo Papa Francisco e na sua defesa dos mais frágeis e humildes. Para além de outras, a iniciativa recente do Sumo Pontífice que visa combater a pedofilia no seio da Igreja Católica revela uma coragem e uma força interior inauditas. A sua recente “Carta Apostólica” impondo a criação de infraestruturas diocesanas, até 2020, como que em resposta à recusa de alguns de as constituir, visando criar um espaço de denúncias de abusos sexuais no seio da Igreja, revela um élan incomum. Honra à Conferência Episcopal Portuguesa que agiu ainda antes da impositiva Carta Apostólica. Dispensava-se, porém, pese embora os argumentos invocados, a atitude de quatro bispos das correspondentes dioceses que não se coibiram de não respeitar a diretiva do Papa Francisco. Uma sociedade, religiosa ou não, é tanto mais forte e considerada quanto for capaz de extirpar os desvarios a que está sujeita.

Honra e glória à coragem do Santo Padre e dos seguidores de uma sociedade mais sã, com inegável auto estima.

António Magalhães é licenciado em História pela Universidade do Porto, foi deputado da Assembleia da República e vereador da Câmara de Guimarães, de 1976 a 1990,  foi Presidente da Câmara de Guimarães, de 1990 a 2013, e Presidente da Mesa da Assembleia Municipal de Guimarães, de 2013 a 2017. Atualmente é presidente do Conselho de Curadores do Instituto Politécnico do Cávado e Ave, com sede em Barcelos.