Metades

36 voltas ao Sol, 13149 dias, 36 anos de aprendizagens, de vitórias, de derrotas, de alegrias, de tristeza, de vida.

Tenho agora metade da tua idade. E a idade que tu tinhas quando eu nasci.

Como falar de Parentalidade sem falar de ti, minha mãe?

Tu que pariste e criaste 4 criaturas.

Todos os dias me sai da boca um bocadinho de ti. Nem todos os dias gosto daquilo que digo às minhas filhas. Nem todos os dias me orgulho da mãe que sou. Por vezes, quando te ouço na minha boca penso que não é isto que eu quero ser, não é isto que eu quero dizer, não é isto que quero eu quero transmitir à minha filha.

Quem me conhece já me ouviu falar várias vezes no projecto  vitalício que é a Parentalidade  e como acredito que se inicia por uma desaprendizagem de tudo aquilo que não nos serve. Mas para isso tivemos de o aprender certo? E depois disso de perceber o que nos serve e queremos manter e o que não nos serve e queremos deixar ir. E que grande Mestre és.

Eu (Como toda a gente), comecei a aprender o que é a Parentalidade ainda antes de nascer. E, para além de ter os meu pais e avós a ajudar na caminhada, tive 3 irmãos mais velhos  que abriram caminho para mim e que estiveram lá desde o primeiro momento. Foi também com eles que aprendi o que é a PARENTALIDADE: um relacionamento vitalício, diário, inquebrável,  imperfeito, incomparável…E eles já tinham 10, 9 e 8 anos de injeções diárias tuas de amor, não amor, amor condicional e amor incondicional; de berros, de mimos,… Eles já conheciam os teus limites, que eu retestei vezes sem conta, e alguns deles alteraram-se, é certo.

Quando tomo consciência da tua minha metade a sair-me pela boca, penso sempre que deveria saber melhor, fazer melhor, que eu não sou tu… e depois lembro-me…como não? Sou metade de ti, tenho metade de ti em mim.

E quando te ouço na boca da minha filha mais velha tenho a certeza de que o teu legado e da tua mãe (E certamente da mãe da tua mãe…) estarão sempre connosco, são eternos.

E é nestas alturas que me assalta um agradecimento profundo, em que tomo consciência de que pelo menos metade de mim será sempre especial.  E que sei que fizeste sempre o melhor que podias com os recursos que tinhas disponíveis.

E que engulo em seco ao recordar-me de palavras que em alturas proferi: nunca serei como a minha mãe, nunca berrarei, nunca direi coisas que magoam, nunca perderei a paciência, nunca perderei a razão…

E desejo sinceramente que um dia seja metade da mãe que tu és.

Contigo aprendi que nem tudo é fácil, que há males que vêm por bem, que nem sempre as coisas são como queremos, que a vida é colorida e não só preto e branco (ou cinzento), que o é certo hoje pode estar errado amanhã, que há desafios na vida que não vou superar, que há que gozar a vida, que há coisas importantes pelas quais vale a pena lutar, que às vezes magoamos quem mais amamos, que nem sempre estamos certos, que nem sempre temos tempo, que é importante reflectir, que é importante fazermos tempo, que é importante termos tempo para nós, que é importante cuidarmos de nós, que é importante perceber o que é importante. Que todas as emoções fazem parte de nós, que a vida é feita de metades, que não somos perfeitos, que não podemos exigir a perfeição dos outros. E que está tudo bem. Grata mamã.

Sónia Lopes, 35 anos, é Psicóloga Clínica, Hipnoterapeuta, Coach e facilitadora de Parentalidade Consciente. Fundadora do SeMente – Centro de Desenvolvimento Pessoal, sempre se dedicou ao desenvolvimento pessoal (seu e dos outros) e hoje abraça a mais desafiante profissão de todas: ser mãe. Irá partilhar connosco a sua visão acerca da Parentalidade.